Browsing Tag

educação infantil

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA – OLHOS DE POETA

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA - OLHOS DE POETA

Esta é uma mensagem especial aos educadores da primeira infância que fala sobre a função do olhar, sobre a qualidade dos olhos de poeta.

Leia com todos os sentidos bem atentos.

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA – OLHOS DE POETA

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

MENSAGEM AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA - OLHOS DE POETA

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA - OLHOS DE POETA

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

 

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que

 

a primeira tarefa da educação é ensinar a ver

 

O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA - OLHOS DE POETA

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

Por isso, porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo, escritor

Este é um grande ensinamento aos educadores da primeira infância dado por Rubem Alves, uma das vozes mais representativas do movimento da nova educação, da ruptura com um modelo educacional do século passado, que não cabe mais para os educandos das novas gerações. É preciso insistir nas concepções por ele apregoadas, pois  a mudança de paradigmas é bastante difícil – exige de nós ousadia para buscar outros caminhos e fazer diferente no dia a dia com as crianças.

LEIA TAMBÉM: UM NOVO OLHAR

Segundo o cientista Masataka Watanabe, Ph.D. em Psicologia pela University of Tokyo, ver e enxergar são coisas bem diferentes, tanto que envolvem partes distintas do cérebro – uma parte  usamos para ver e outra para nos concentrar numa imagem. Assim,  você pode olhar para determinada coisa, mas não estar consciente dela e enxergando-a claramente.

O QUE OS SEUS OLHOS ESTÃO VENDO?

AOS EDUCADORES DA PRIMEIRA INFÂNCIA - OLHOS DE POETA

Rob-Gonsalves

 

Abra os olhos, os olhos do  coração, como aconselha Antoine de Saint Exupéry, autor do clássico O Pequeno Príncipe – “Só se vê bem com os olhos do coração”.

E assim, de olhos bem abertos, caminhe com as crianças deixando que cada investigação, cada minúcia do cotidiano, se transforme em assombro, em suspiros de encantamento e alegria. Esta é nossa tarefa, esta é a verdadeira escola que almejamos.

Aos educadores da primeira infância, meu desejo é que guardem seus olhos na caixa de brinquedos, e que desenvolvam olhos de poeta.

abraços encantados

Ana Lúcia Machado

 

 

TOP 10 DA EDUCAÇÃO AO AR LIVRE

Top 10 da educação ao ar livre

A educação ao ar livre é ainda um grande desafio para as escolas no Brasil, por isso selecionamos 10 livros que abordam esse tema com o intuito de encorajá-las a romper paradigmas fazendo da natureza salas de aula em todo o país, desde a educação infantil , até o ensino médio. Salas de aula sem paredes, por que não?

Hoje o contato com a natureza não acontece mais de forma natural, no entanto, essa conexão é imprescindível para o desenvolvimento integral e saudável da criança. Em contato com a natureza, as crianças desenvolvem mais o equilíbrio, a coordenação e autonomia.

A educação ao ar livre traz inúmeros benefícios – melhora o desenvolvimento intelectual e a saúde física, incentiva o pensamento crítico, a inteligência emocional, o trabalho em equipe, e a capacidade de resolução de problemas.

Existem muitos estudos e pesquisas que mostram que as  crianças se beneficiam ao aprender e brincar ao ar livre. Leia no site Children and Nature Network.

O potencial educador dos espaços naturais é enorme, sem contar que é a maneira mais eficaz de estimularmos a apreciação e respeito pela natureza e todos os seres viventes, e de desenvolvermos uma compreensão de como podemos cuidar do nosso meio ambiente.

Leia também: NOSSA TERRA EDUCADORA 

Por que não ensinar ao ar livre? A interação e exploração dos espaços abertos trazem oportunidades educativas muito mais efetivas e perduráveis para as crianças e jovens, é o que afirma  a britânica Juliet Robertson, consultora educacional especializada em educação ao ar livre. Ela diz que todo o currículo pode ser ensinado fora da sala de aula, acredite.

 

Vamos ao Top 10 da educação ao ar livre

Top 10 da educação ao ar livre

1.Alfabetização Ecológica – A educação das crianças para um mundo sustentável

Fritjof Capra e outros

O livro reúne teoria e prática com base no que existe de mais avançado em termos de pensamento sistêmico, ecologia e educação. Pais e educadores de todas as partes do mundo interessados no desenvolvimento de novas formas de ensino e na ampliação dos conhecimentos ecológicos das crianças vão encontrar neste livro uma fonte inestimável de idéias. Reorientar o modo como os seres humanos vivem e educar as crianças para que atinjam seus potenciais mais elevados são tarefas com aspectos bem semelhantes. Ambas têm de ser vistas e abordadas no contexto dos sistemas: familiar, geográfico, ecológico e político. Nosso empenho para criar comunidades sustentáveis será em vão caso as futuras gerações não aprendam a estabelecer uma parceria com os sistemas naturais, em benefício de ambas as partes. Em outras palavras, elas terão de ser “ecologicamente alfabetizadas”.

 

Top 10 da educação ao ar livre

2.Desemparedamento da infância – A escola como lugar de encontro com a natureza

Organização  de Maria Isabel Amando de Barros

O livro apresenta experiências do Brasil e do mundo em escolas que possibilitaram que as crianças aproveitassem mais seus territórios educativos como lugares de aprendizado e de brincar livre. A publicação traz para os educadores a reflexão de que é possível contribuir para mudar a realidade atual e desemparedar a infância.

Disponível para downloud gratuitamente.

 

 

Top 10 da educação ao ar livre

3.Crianças e Natureza – Reconectar é preciso

Christiana Profice

O livro é um alerta para as graves consequências físicas e psíquicas de um cotidiano infantil sedentário e conectado a dispositivos eletrônicos. Nesta obra estão reunidos os principais resultados de pesquisas sobre o tema nacional e internacional. A conclusão a que se chega é que a reconexão entre crianças e natureza é mais do que urgente, sob o risco de aumento de distúrbios físicos e emocionais causados pela privação de interações cotidianas com os ambientes naturais, seus seres e processos. Outro efeito nefasto do afastamento entre crianças e natureza é o desinteresse das pessoas pelo mundo natural que, sem conhecê-lo, não se empenham em sua proteção, agravando, deste modo, os problemas ambientais contemporâneos. Apesar deste alerta, as pesquisas cientificas deixam claro que nem tudo está perdido e que ainda há tempo para reversão da situação, basta que devolvamos às crianças o seu direito de contato com a natureza da qual todos nós fazemos parte. A leitura deste livro por pais, educadores e mesmo por crianças e adolescentes, certamente, já vai iniciar uma mudança de pensamento acerca da importância da natureza para a humanidade e de nossa responsabilidade para com sua proteção.

 

Top 10 da educação ao ar livre

4.Educação Verde, Crianças Saudáveis – ideias práticas para incentivar o contato de meninos e meninas com a natureza

Heike Freire

Os meninos e meninas de hoje passam a maior parte do tempo em espaços fechados, sentados, assistindo à TV. Eles vivem constantemente debaixo de uma supervisão adulta obcecada por segurança e quase já não têm momentos de brincadeiras descontraídas ao ar livre. Procuramos compensar esse crescente afastamento do mundo natural com um excesso de produtos e tecnologias (bichos de pelúcia, brinquedos eletrônicos, celulares, tablets, games, etc.) que suplantam os seres da natureza. Uma realidade virtual que os afasta ainda mais da vida, reduzindo-os ao papel de espectadores e consumidores passivos. A escassez de espaço e de possibilidades de movimento, a grande quantidade de representações abstratas, sem nenhuma relação com a experiência direta das crianças, o contínuo bombardeio de estímulos (luzes, cores chamativas, ruídos, velocidade) a que são submetidos e, no geral, a falta da natureza podem ser a causa de inúmeras doenças que acometem atualmente as crianças: obesidade, desequilíbrio no biorritmo, problemas motores e de linguagem, asma, estresse, agressividade, hiperatividade, depressão. As crianças precisam da natureza. Elas se sentem espontaneamente atraídas por ambientes naturais e, quando estão em contato com eles, desenvolvem-se de uma forma mais saudável em todos os níveis: físico, emocional, mental, social e espiritual. Passar algum tempo ao ar livre, em uma interação direta com a vida, é um direito fundamental da infância que deveria ser reconhecido na nossa sociedade. Este livro foi escrito para todas as pessoas, pais e educadores, dispostas a se empenhar para atingir esse ideal.

 

Top 10 da educação ao ar livre

5.Brinquedos do Chão – A natureza, o imaginário, e o brincar

Gandhy Piorski

Este livro explora a imaginação do brincar e sua intimidade com os quatro elementos da natureza: terra, fogo, água e ar, e revela a voz livre e fluente da criança em sua trajetória de moldar a si própria, tão esquecida nos estudos sobre a infância. Assim como o brinquedo, interessam ao autor, artista plástico, teólogo, pesquisador da infância e do imaginário, a brincadeira e seu universo simbólico; a experiência da criança quando, em comunhão com a natureza e em sua vivência transcendente, brinca e significa o mundo. Fala sobre os brinquedos da terra, que caracterizam, na produção material, gestual e narrativa da infância, a investigação da matéria e as operações da imaginação no forjar a elaboração e o enraizamento dos papéis sociais na casa, na família e no mundo.

 

Top 10 da educação ao ar livre

6.A última criança na natureza – Resgatando nossas crianças do transtorno do defict de natureza

Richard Louv

Este livro apresenta uma abrangente síntese de pesquisas e também de histórias de todo o mundo que relacionam a presença da natureza na vida das crianças com seu bem-estar físico, emocional, social e acadêmico. Richard Louv cunhou pela primeira vez o termo Transtorno do Deficit de Natureza e despertou, assim, o interesse da comunidade internacional para um tema bastante atual: o impacto negativo da falta da natureza na vida das crianças, especialmente as que vivem em contextos urbanos.

 

 

 

Top 10 da educação ao ar livre7.Dedo verde na escola – Cultivando a alfabetização ecológica na educação infantil

Mônica Pilz Borba

Cultivando a alfabetização ecológica na educação infantil, remonta um processo educativo envolvendo alunos, professores e comunidade na transformação do currículo e das metodologias de duas escolas de educação infantil da rede de ensino municipal de São Paulo, ligadas ao respeito e ao cuidado da comunidade de vida, da integridade ecológica, por meio da democracia e da cultura de paz. Com metodologias inovadoras que valorizam as relações entre as pessoas e a natureza, a descoberta dos detalhes da vida e o mergulhar no conhecimento. Esta publicação é dedicada a todos os professores e educadores interessados em promover a cultura da sustentabilidade em suas escolas, potencializando a construção de valores, para quem sabe um dia tornarmo-nos uma sociedade sustentável. ¹ Terra e terra: com T maiúsculo e t minúsculo, ou seja, cuidar do macro e do micro.

 

Top 10 da educação ao ar livre

8.Educação Infantil como direito e alegria – Em busca de pedagogias ecológicas, populares e libertárias

Lea Tiriba

Como dar força aos encontros que geram alegrias? Acreditando nos desejos das crianças, apostando em sua capacidade de escolha Nas escolas, as crianças permanecem horas em espaços fechados, aprendendo a obedecer, apropriando-se de conteúdos muitas vezes distantes de seus interesses. O trabalho de Lea Tiriba aponta caminhos para uma educação comprometida com a saúde das crianças e do planeta, buscando concepções e práticas que religuem os seres humanos à natureza e digam não ao consumismo e ao desperdício. Com base em extensa pesquisa de campo e bibliográfica, a autora sugere o respeito às vontades do corpo. Desencoraja o “emparedamento” das crianças e propõe um aprendizado que reorganiza a relação entre educadores e educandos, questionando a centralidade das professoras no processo pedagógico e propiciando o surgimento de relações horizontais. Inspirando-se em pensadores libertários, como Paulo Freire, Lev Vygotsky, Félix Guatarri, Boaventura de Souza Santos, Leonardo Boff entre outros, a autora nos convida a abraçar a solidariedade planetária. Em vez de cimento, paredes e grades, uma perspectiva de futuro que permita o movimento dos corpos, para a inventividade, a livre criação, a capacidade de escolhas e os encontros que geram alegria.

 

Top 10 da educação ao ar livre

9.Vivências com a natureza – Guia de atividades para pais e educadores

Joseph Cornell

Este livro apresenta um conjunto precioso de jogos e brincadeiras que convidam os participantes, não só a se divertir nos espaços naturais, mas a construir uma verdadeira amizade com a terra, as rochas, as plantas e os animais com os quais compartilhamos o Planeta. Importantes conceitos ecológicos são abordados dentro de um contexto facilmente vivenciado e compreendido pela criança.

Os jogos e brincadeiras apresentados são universais e têm sido difundidos em todo o mundo com grande sucesso. As atividades são organizadas de acordo com a habilidade a ser desenvolvida: apreciação estética, assimilação de novos fatos, concentração, empatia, superação de medos, imaginação, memória, interação com a natureza, trabalho em grupo, confiança, desfrute do silêncio e da solidão.

Fugindo das teorizações, este livro retoma o discurso ecológico de forma prática, apresentando em detalhes atividades que podem ser realizadas em grupo, ao ar livre ou adaptadas para outros ambientes. Pequenos experimentos podem ser executados e relatados individualmente.

 

Top 10 da educação ao ar livre

10.Vivências com a natureza – Novas atividades para pais e educadores

Joseph Cornell

Aqui o autor  apresenta e explica a metodologia do Aprendizado Seqüencial.O emprego dessa metodologia potencializa o trabalho do educador: as atividades deixam de ter um fim em si mesmas para compor um processo por meio do qual o aprofundamento da percepção, que requer o aquietar da mente e a abertura para a afetividade, é conseguido – proporcionando experiências fascinantes com a Natureza, tanto para os participantes como para os professores.

Este método tem sido empregado com enorme sucesso tanto por professores com seus alunos, como em programas de formação de professores, em que o desenvolvimento pessoal é aliado à aquisição de ferramentas pedagógicas modernas.

 

Para adquirir qualquer uma das publicações indicadas, basta clicar no título desejado para efetuar sua compra pelo site da Amazon. Aproveite, muitos livros estão com ótimos descontos.

Feliz ano novo, desejo que você leia mais em 2019 e principalmente que sinta-se motivado a romper as paredes das salas de aula com os alunos e praticar a educação ao ar livre.

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

INFÂNCIA SAUDÁVEL – DESENVOLVIMENTO E CUIDADOS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

Precisamos garantir uma infância saudável para nossas crianças a partir de atitudes simples no dia a dia.

A dinâmica imposta pelas mudanças sociais das últimas décadas, gerou isolamento, aceleração, e adultização no cenário da infância. Hoje as crianças estão expostas às mesmas angústias e estresses que os adultos estão sujeitos e sofrem dos mesmos males físicos e psicológicos.

Podemos, enquanto pais e educadores, tomar algumas medidas práticas geradoras de bem estar visando uma infância saudável. Acompanhe o que pode ser feito.

 

PARA A ESCOLARIZAÇÃO PRECOCE, O BRINCAR  

Infância saudável

Especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças tem maior capacidade de lidar com ideias abstratas. Eles alertam que crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, e ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

O tempo de brincar livre proporciona à criança o desenvolvimento de importantes habilidades – destreza corporal, escuta, interações sociais, equilíbrio emocional, etc. O brincar é um treino para amadurecimento e conquista dessas competências.

Assegure todos os dias um tempo para a criança brincar.

 

PARA O EXCESSO DO MUNDO TECNOLÓGICO,  A NATUREZA

O acesso precoce e uso abusivo da tecnologia é um fenômeno recente no cenário da infância. Infelizmente hoje as crianças vivem cada vez mais em ambientes fechados e conectadas à algum aparelho tecnológico, distante do ritmo orgânico do mundo natural.

Infância saudável

Já se sabe por meio de estudos que quanto mais a criança ficar exposta à tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e capacidade de concentração, com prejuízos também ao desenvolvimento motor, qualidade do sono, aprendizagem, etc.

Hoje 40% das crianças brasileiras passam uma hora ou menos ao ar livre. Pesquisas pelo mundo afora revelam que mais tempo em contato com a natureza, regula hormônios, reduz a agressividade, hiperatividade e obesidade. Assim que os odores da mata adentram o organismo humano, os níveis de estresse e irritação diminuem.

Assegure todos os dias um perído para estar em contato com a natureza. 

 

Infância saudávelPARA AGENDAS LOTADAS, O ÓCIO

O tempo livre, o “ócio”,  é  a oportunidade que a criança tem de entrar em contato com seu mundo interior, estimular a fantasia, criatividade e desenvolver a concentração. O tempo em que a criança está à toa, é o momento em que está conectada com ela mesma, num processo de autoregulação, que promove equilíbrio emocional.

Muitas crianças tem suas agendas preenchidas de atividades extra curriculares todos os dias da semana. O não fazer nada para a criança é muito importante, é o período que ela faz de conta, inventa brincadeiras, cria seus brinquedos.

Assegure todos os dias um momento para a criança ficar à toa, sem nada para fazer.

 

 

PARA  A MEDICALIZAÇÃO, A IMAGINAÇÃO E A ARTE

Vivemos tempos de patologização dos comportamentos infantis. Milhares de crianças estão sendo diagnosticadas com algum tipo de transtorno. Coisas normais da vida como a timidez, a teimosia, e até mesmo a rebeldia infantil, estão sendo enquadradas como transtorno.

Com a justificativa de melhorar o desempenho escolar, as  conquistas de desenvolvimento que não acontecem no período esperado, e promover mudanças comportamentais não aceitas socialmente,  a infância vem sendo medicalizada para atender aos anseios da sociedade.

Infância saudável

Nietzsche, dizia que “a arte existe para que a realidade não nos destrua”. A criança encontra na arte, uma forma de expressão do seu mundo interior e um exercício da força da imaginação, que dá colorido à realidade externa.

Incentive a imaginação e expressão da criança por meio do desenho, pintura, modelagem de massinha ou argila, colagem, etc.

Leia também: INFÂNCIA PEDE CALMA 

 

O brincar, a natureza, o ócio, a arte e a imaginação, são essenciais para a saúde da infância e desenvolvimento integral da criança.

Quem tem ouvidos para ouvir, atenda este chamado por uma infância saudável.

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

O QUE É UM BOM BRINQUEDO? – INFÂNCIA E CONSUMO

O que é um bom brinquedo - Infância e consumo

O que é um bom brinquedo para a criança? Na qualidade de mãe, pai  ou educador, você já fez essa pergunta?

Sabia que o mercado brasileiro de brinquedos, na contramão da crise,  registrou faturamento de R$ 10,5 bilhões em 2017 – representando um crescimento de 8,5% em relação a 2016?  (Fonte: site Exame)

Na edição deste ano da Feira Internacional de Brinquedos, foram apresentados cerca de 1.500 lançamentos, entre brinquedos em geral, colecionáveis e educativos, jogos, pelúcias, artigos para festas, fantasias, etc. Somente em 2016, o mercado brasileiro contou com mais de 9.000 modelos de brinquedos.

O que é um bom brinquedo - Infância e consumo

Em comparação a outros mercados, o Brasil é um campo fértil para investimentos e crescimento. Na Europa as crianças são presenteadas com, aproximadamente, 30 brinquedos per capita no ano; nos EUA são 28 presentes, enquanto os brasileiros dão às crianças, apenas, 6 brinquedos por ano, levando em conta a média entre as aquelas que ganham e as que não. Dessa forma, somos um mercado promissor.

 

Considerando essas importantes informações, vê-se o quanto a criança é alvo de um mercado ávido pelo aumento das curvas de vendas.

E entre uma curva e outra, é nosso dever saber avaliar o que realmente é um bom brinquedo para as crianças.

Pare e pense nestas perguntas:

É preciso brinquedo prá brincar?

Existe brincadeira sem brinquedo?

O que as crianças buscam ao brincar?  

Diante de um brinquedo devemos nos perguntar: este brinquedo é capaz de mover interiormente a criança?

 

BRINCAR – MOTOR QUE MOVE A CRIANÇA

É importante compreender o brincar como um motor que move a infância. Brincar brota da alma infantil. É um processo de ativação da criança. E como todo processo, é algo vivo, que se manifesta numa sucessão de etapas e se expressa em gestos e formas maleáveis, moldáveis, permitindo a criança criar, construir, desmanchar e transformar.

As crianças tem seus próprios interesses e narrativas pessoais, estão imbuídas de desejos que necessitam de liberdade de criação e expressão. Liberdade de decidir como brincar e com o que brincar.

O que é um bom brinquedo - Infância e consumo

Imagem: Raphael Bernadelli

A criança é o centro do brincar e não o brinquedo em si. A potência encontra-se na criança e não no objeto. Sendo assim, brinquedos e brincadeiras são partes de uma construção autoral, elaborada por meio de um processo espontâneo e autêntico de cada criança.

A indústria de brinquedos despeja no mercado todos os anos exatamente o oposto ao que acontece no processo do brincar infantil. Susan Linn, psicóloga norte-americana, autora do livro  ‘Crianças do consumo: a infância roubada’, diz que “uma boa brincadeira é 90% a criança e 10% brinquedo”. Os brinquedos industrializados, os brinquedos prontos, oferecidos no mercado hoje, fazem exatamente o inverso, sobrepõem-se a potência da criança.

 

 

 

PARÂMETROS PARA AVALIAÇÃO DE UM BOM BRINQUEDO

Um bom brinquedo é aquele que permite que a criança seja ativa e não mera expectadora ou executora frente à ele.

Um bom brinquedo é aquele que propicia que a imaginação da criança voe alto, que coloca corpo e alma em movimento, que amplia as experiências sensoriais.

Um bom brinquedo é aquele que abre possibilidades de atuação da criança, seja em sua criação, construção, complementação, ou transformação.

Um bom brinquedo permite a criança sonhar e criar, imaginar e fazer. É inventado a partir do corpo e das mãos da própria criança.

A natureza da criança é curiosa. Criança gosta de investigar, explorar, descobrir, até mesmo transgredir.

Minha mãe conta que certa vez meu irmão, 2 anos mais novo que eu, ganhou um robô que se movimentava, acendia luzes e emitia sons. Não demorou muito para ela vê-lo sentado no chão martelando todo o brinquedo para descobrir o que tinha dentro dele que fazia com que ele se mexesse, fosse luminoso e emitisse sons. Faz parte da criança essa vontade de descobrir o que está por trás, dentro das coisas, saber como as coisas são feitas, como funcionam.

O que é um bom brinquedo - Infância e consumo

É comum ouvirmos histórias de crianças que ao ganhar um brinquedo novo se interessam mais pela caixa do que pelo brinquedo. Há também relatos de crianças que brincam 5 minutinhos com o brinquedo que acabaram de ganhar e logo perdem o interesse e correm para brincar com as panelas, colheres de pau, construir cabanas, etc. Por que isso acontece?

É preciso entender o ciclo do brincar. Brincar acontece em etapas, é processo, como já mencionado no artigo Processos de vida e a infância , leia.

No filme ‘Tarja Branca’, o documentarista David Reeks em seu depoimento, fala sobre a liberdade de criação da criança,  e explica que primeiro a criança pensa em brincar com algo, ela deseja brincar de determinada forma. A partir dessa ideia, ela elabora maneiras possíveis de realizar a brincadeira, buscando reunir e compor materiais para alcançar seu objetivo. Então ela mesma constrói seu brinquedo e com o brinquedo pronto ela brinca, fechando assim o ciclo.

Rubem Alves em suas memórias de infância contadas no livro ‘Quando eu era menino’, fala que “fazer brinquedos era a parte mais divertida do brincar”.

O brinquedo pronto entregue nas mãos da criança, causa ruptura no ciclo do brincar, indo direto para a etapa final do processo. Reeks acrescenta que  “a criança pega o brinquedo industrializado e logo se desinteressa por ele, e passa prá outro, ela não se vincula ao brinquedo porque não foi ativa no processo criador”.

É preciso entender que os brinquedos prontos eliminam o elemento de criação e construção, e isso não alimenta a alma da criança. É como se ela comesse apenas carboidratos simples, que são logo digeridos pelo organismo, provocando em pouco tempo fome de novo. Isso gera um vazio na criança, uma sensação constante de insatisfação, e até mesmo frustração, levando a criança a querer e pedir sempre mais.

O brinquedo torna-se um bom brinquedo quando nutri a alma da criança e exercita sua imaginação criadora.

 

LEIA TAMBÉM: UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

 

Quanto menos estruturado e cheio de detalhes for o brinquedo, mais exigirá da criança e permitirá o uso da imaginação e criatividade. Quanto mais simples ele for, maior a liberdade da criança em transformá-lo em outra coisa de acordo com o enredo da sua brincadeira.

Brinquedos industrializados tem função específica. Normalmente são de plástico, sem cheiro, frios e lisos ao tato. São leves – possuem tamanho desproporcional ao peso, de cores  fortes e antinaturais. Características que induzem a criança a falsas sensações.

E mais, esse tipo de brinquedo, e aqui estão inclusos os brinquedos digitais, criam uma situação de passividade na criança, provocam uma atrofia psíquica, um empreguiçamento e empobrecimento da vida interior da criança.

Por fim, brinquedo bom é aquele que funciona e é movido pela energia da própria criança, por sua imaginação e capacidade criadora. É a força interior da criança que coloca em movimento objetos, que reúne materiais e compõem um todo repleto de sentido, produzindo alegria.  Essa mesma energia movimenta também o corpo da criança promovendo seu desenvolvimento e gerando saúde. 

O que é um bom brinquedo - Infância e consumo

Te convido a olhar seu entorno e perceber a quantidade de materiais do cotidiano que podem virar brinquedos nas mãos das crianças – caixas de papelão, rolhas, caixinhas de fósforos, etc.

Te convido a observar a natureza num passeio ao parque e descobrir o lúdico ao alcance das mãos – gravetos, sementes, folhas, pedrinhas, etc, que magicamente podem se transformar em brincadeiras divertidas.

Te convido a romper paradigmas, e repensar o consumismo na infância.

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

INFÂNCIA PEDE CALMA. VAMOS DESACELERAR?

Vamos desacelerar?  A infância pede calma. O tempo da criança pede desaceleração. As crianças estão a todo o momento fazendo um convite para sairmos de nosso mundo duro e árido, sem tempo para a vida. Elas nos convidam a cada instante para bailarmos em suas cirandas de leveza, simplicidade e alegria.

de calma. Vamos desacelerar?

Imagem do acervo do Educador Roque Antônio Juaquim da Carretel Consultoria

Quem tem o privilégio de conviver com elas, sabe do que estou falando. Elas nos chamam para participar de suas brincadeiras e risadas. Convidam a cantar a vida, a contar histórias – nossas próprias histórias, que nos reaproximam de nossa criança interior.

Com seus apelos despretensiosos e insistentes, elas nos chamam a celebrar a vida. E muitas vezes somos surdos aos apelos. Quase sempre mostramos uma rigidez impenetrável. Amortecidos, acabamos por fazer movimento contrário: trazemos a criança ao mundo endurecido das horas que voam em afazeres infindáveis.

 

de calma. Vamos desacelerar?Assim, interrompemos suas cantigas de roda, inibimos suas perguntas curiosas. Segurando suas mãozinhas, as puxamos para o mundo adulto onde não existe tempo para o ócio, para um olhar demorado para as coisas corriqueiras que nos cercam no dia-a-dia – para observar a peregrinação das formigas carregadeiras, para apanhar uma flor no caminho, admirar um passarinho que pousa e tantas outras belezuras da vida, para descobrir a própria sombra projetada no chão em uma manhã ensolarada no quintal, ou jogar uma pedrinha na poça d’água do caminho.

Quantas vezes dizemos à elas:  -Anda logo, estou com pressa! Lembro uma ocasião em que depois de mais um dia longo e cansativo de trabalho, chamei meu filho que estava esparramado no chão da sala brincando, para escovar os dentes para dormir, depois de já ter chamado para o banho e para o jantar também. Ele parou a brincadeira, levantou os olhinhos, olhou bem para mim e disse: -Mãe, você só me chama para fazer as coisas! Uau! Aquelas palavras me disseram tantas coisas sobre a maneira que eu estava vivendo meus dias.

As crianças são presentes do céu, que nos cutucam, despertam e encantam. Precisamos respeitar o tempo da criança e desacelerar, estar junto, olhar na mesma direção e da mesma altura que elas, olhar nos olhos, escutar – permitir-nos entrar num tempo onde a calma e o vagar abrem espaço para a imaginação, onde o silêncio fantasia e o encontro acontece magicamente.

É Gandhy Piorski,  teólogo brasileiro, pesquisador da antropologia do imaginário e autor do livro Brinquedos do chão, quem nos diz que “imaginação querer espaço, folga, lugares de contemplação, devaneios, solidão, convívio, lugares desafiadores. Todas as coisas que tiram esse direito das crianças são excessos”.

 

A INFÂNCIA PEDE CALMA 

de calma. Vamos desacelerar?

A infância é curta demais para querer acelerar qualquer coisa. Que tal caminhar no tempo da criança? Mas que tempo é esse?

É um tempo que corre devagar, se esparrama feito água, flui lentamente. Infância é  tempo de encantamento, de descobertas, de explorar o mundo e principalmente fazer perguntas, levantar hipóteses.

Pressa não combina com a criança, a infância pede calma. As crianças não sentem a urgência que nos move a todo momento fazendo com que estejamos sempre preocupados com o que está por vir. Criança vive o presente, que demanda um tempo maior para ser desfrutado, para as vivências serem  introjetadas.

Pare e reflita um pouco na complexidade das agendas infantis hoje em dia.  Muitas crianças mantêm a agenda cheia, como de um executivo. Elas são levadas de um compromisso a outro, de segunda-feira à sábado. Suas agendas estão lotadas de cursos extracurriculares –  do balé para o inglês, mandarin, da yoga para o Kumon, e também  natação, judô, música, até mesmo aula de meditação. Criança medita no balanço do parque, no tanque de areia, fazendo bolinhos, enchendo e esvaziando potinhos d’água.

 

AGENDA LOTADA  CRIANÇA ESTRESSADA

de calma. Vamos desacelerar?O que pretendemos com tudo isso? Formar uma  super geração competitiva? Prepará-los  para o sucesso? A superestimulação promovida pelos adultos tem  levado as crianças ao esgotamento. Estímulo demais, concentração de menos. Estamos adoecendo nossas crianças.

Esquecemos que elas desde cedo tem no próprio ambiente familiar e no mundo natural, estímulos suficientes para seu desenvolvimento. Os estímulos externos criados artificialmente pelos adultos com o intuito de acelerar o desenvolvimento, prejudicam o que a criança tem de mais precioso que é sua motivação interna, alimentada pela curiosidade inata.

O não fazer nada para a criança é muito importante, é o momento que ela faz de conta, inventa brincadeiras, cria seus brinquedos. O tempo livre, o “ócio”, nada mais é que a oportunidade da criança entrar em contato consigo mesma, estimular o pensamento, a fantasia e a concentração. O tempo em que a criança está à toa, num aparente “tédio”, é o tempo em que ela está conectada com ela mesma, num processo de autoregulação.

CONTRA O TEMPO DA PRESSA

Contra o tempo da pressa o remédio é um olhar contemplativo, demorado e lento. Contra o tempo da pressa recomenda-se o ócio, o vazio.

O filósofo e escritor sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, em seu mais recente ensaio (2016) Aroma do tempo,  afirma que “a demora contemplativa concede tempo, dá amplidão ao ser, o que é algo mais do que estar ativo. Quando recupera a capacidade contemplativa, a vida ganha tempo e espaço, duração e amplidão”

Precisamos nos refinar na arte da demora. Precisamos devolver ao tempo a sua condição de instante, rompendo com o percurso horizontal e transformando-o numa profundidade vertical – é o que adverti o filósofo.

Quando nasceu minha filha, seis anos após a primeira gravidez, eu resolvi desacelerar. Foi uma experiência de maternidade muito mais consciente. Fui uma mãe mais presente e pude viver e respeitar o tempo da infância. Certa vez voltando da escola, minha filha me convidou para uma brincadeira que ela gostava muito. Ela cantarolava a melodia de uma canção e me perguntava: – Mãe, que música é essa? E eu tinha que continuar, e cantar a letra. Passávamos um tempo largo brincando assim, numa cantoria gostosa.

 

CRIANÇA QUER SER CRIANÇA

Para examinar atentamente o mundo da criança na atualidade, recomendo a leitura do livro Sob pressão do jornalista escocês Carl Honoré, conhecido como um dos arautos do Slow movement, que prega a desaceleração da sociedade, autor também da publicação Devagar.

Em Sob pressão, além de uma análise sobre o gerenciamento do tempo da criança pelos adultos, o autor traz outros temas importantes que precisam ser discutidos por pais e educadores, tais como a medicalização infantil, a infância monitorada, os excessos de cuidados, etc. Temas que estão todos interligados.

Honoré foi quem cunhou o termo “Educação de helicóptero”  e “Pais helicópteros” – quando os pais estão sempre pairando acima da cabeça dos filhos, se derramando em superproteção e pretensa supereducação.

Destaco um trecho do livro que reitera o que foi dito até aqui – A infância pede calma.

de calma. Vamos desacelerar?

“As crianças se desenvolvem quando têm o tempo e o espaço para respirar, para ficar à toa e se aborrecer algumas vezes, para relaxar, assumir riscos e cometer erros, sonhar e ter prazer com suas próprias coisas, e até mesmo para fracassar. Se quisermos restaurar a alegria não só da infância, mas também dos pais, chegou a hora dos adultos se retirarem um pouco e permitirem que as crianças sejam elas mesmas.”

 

Por aqui temos movimentos como o SlowKids, Slow Parenting, que lutam pela desaceleração da infância. Vale a pena conhecer.

É o que defendemos em Educando Tudo Muda também. Então, vamos desacelerar para promover o desenvolvimento saudável de nossas crianças? A infância pede calma, pede alma, um pouco mais de paciência, como diz a canção de Lenine. Vamos abrir espaços de ócio nas agendas das crianças. Lembrem-se: “a primeira infância é a que fica e fica para a vida toda” – Dr. João Figueiró

Já viu o infográfico sobre estresse infantil que Educando Tudo Muda preparou para seus leitores?

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

Crédito foto: a imagem em destaque é do acervo do educador Roquinho, um dos membros da Carretel Consultoria

Crédito música: Lenine e Dudu Falcão

 

Semana Mundial do Brincar

Semana Mundial do Brincar

 

Acontece de 25 à 31 de maio a Semana Mundial do Brincar. Uma semana de mobilização para conscientização de toda a sociedade sobre a importância do brincar e seu significado para a infância.

Desde 1999, por iniciativa da Associação Internacional de Brinquedotecas, criou-se o Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio. No Brasil, a Aliança pela Infância, da qual Educando Tudo Muda faz parte, incentiva este movimento há mais de dez anos e o ampliou para ser celebrado durante uma semana inteira.

Semana mundial do brincar

O lúdico é fundamental em todas as fases da vida, inclusive na idade adulta, só que na infância ele adquire uma importância vital, é condição indispensável para que a criança se desenvolva de maneira saudável. Tal qual o andar e o falar, o brincar é potência de crescimento humano. Criança que não brinca significa de há algo que precisa ser investigado.

 

Infelizmente vivemos dias sombrios para a infância

Na sociedade contemporânea o brincar  está em declínio. Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar na infância.

Semana Mundial do brincar

Há uma pressa e uma urgência em preparar as crianças para o mundo competitivo, para o sucesso, de forma que parecemos esquecer que há tempo para todas as coisas debaixo do sol e como já diziam os “antigos”: apressado come cru.

Entretanto a questão vai além. A aceleração imposta tem adoecido a infância. Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu em setembro do ano passado em Calgary – Canadá, revelam que:

– o brincar livre infantil tem diminuído exponencialmente no mundo todo desde 1955

– a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60

– os transtornos de ansiedade entre as crianças, cresceu até 18 vezes

– as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores

 

SEMANA MUNDIAL DO BRINCAR – BRINCAR DE CORPO E ALMA

Que brincar é este?

Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. É a maneira da criança dar vazão ao impulso natural de expansão e movimento, dar vazão a imaginação criadora – uma força que vive dentro dela e precisa se manifestar. Brincar é fundamental para que o corpo se desenvolva e a alma se expresse.

Semana mundial do brincar

Para onde irá esta energia se a criança não puder manifestá-la brincando?

O brincar é o jeito da natureza de garantir que as crianças pratiquem as habilidades necessárias para a vida”,  como afirma Gray.

Então, como se explica o tempo cada vez mais reduzido do brincar, tanto nas escolas como em casa, onde as famílias preocupadas com a formação e preparação das crianças, lotam suas agendas com aulas complementares, cursos extracurriculares?

Como se explica a aceleração no processo de alfabetização?  A criança cada vez mais cedo vem sendo pressionada para o aprendizado da escrita e leitura.  A Educação Infantil está cada dia mais parecida com o Ensino Fundamental.

Leia também: 

De que é feita a infância

É tempo de brincar – um chamamento

 

A infância é curta demais para querer acelerar qualquer coisa

Infância é um tempo de encantamento, de descobertas, de explorar o mundo e principalmente fazer perguntas,  levantar hipóteses. Isso tudo a criança faz no brincar.

Semana mundial do brincar

Pressa não combina com as crianças que vivem num tempo diferente do tempo dos adultos. Elas não sentem a urgência que nos move a todo momento fazendo com que estejamos sempre preocupados com o que está por vir. Criança vive o momento presente, que demanda um tempo maior para ser desfrutado, para as vivências serem  introjetadas.

Separe um tempo nesta Semana Mundial do Brincar. Mobilize amigos, programe brincadeiras com as crianças e sinta como brincar faz diferença para a criança e para a qualidade de vida da família.

Até o dia 28 de maio o Sesc estará com uma programação inteirinha focada na Semana Mundial do Brincar. No site da Aliança Pela Infância você também encontrará uma agenda especial com atividades programadas por todo o Brasil, acesse AQUI e aproveite.

Mas lembre-se: a natureza é a casa da infância e o território primordial do brincar.

É tempo de brincar

É tempo de comungar com a vida

Que pulsa incessante pelo meio fio

E fazer da infância um fio inteiro.

 

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

BRINCAR COM PALAVRAS

Brincar com palavras

Palavras também podem ser brinquedo na boca das crianças. Que tal experimentar brincar com palavras?

Então vamos lá. Chamem as crianças e peçam para elas repetirem esta frase:

Três doidos tentam deitar dentro de três tendas

Acharam fácil? E esta?

Tatu bola matuto batuca um batuque em Botucatu

 

Brincar com palavras

Esses são os trava-línguas, jogo verbal que consiste em dizer de forma rápida e clara, versos ou frases que contenham semelhança sonora das suas sílabas. Trata-se de rimas infantis da cultura popular, transmitida de geração em geração.

O fato de terem de ser ditas com rapidez, faz com que o jogo se torne uma brincadeira desafiante e divertida, inclusive para os adultos. Crianças na faixa entre 6 e 8 anos gostam bastante dessa brincadeira. Além de diversão, é um excelente recurso para o desenvolvimento linguístico.

Na escola podem se tornar um projeto interdisciplinar muito interessante envolvendo a família, com a participação inclusive dos avós para enriquecer o repertório. Ainda, pode-se estimular a turma a criar seus próprios trava-línguas.

Até mesmo em casa, os pais também podem elaborar com as crianças um caderno de trava-línguas e juntos se divertirem muito.

Este foi o que criamos  em casa quando as crianças eram pequenas. Meus filhos adoravam brincar com palavras. Demos boas risadas brincando assim! Aliás, este foi um jogo que me ajudou bastante em momentos que precisava entreter as crianças, como em salas de espera de consultórios médicos, no carro em viagens longas, etc.

Mas foi muito além. Pude perceber o quanto foi benéfico para o processo de alfabetização deles, pois os trava-línguas estimulam a atenção e concentração, melhoram a dicção, desenvolvem naturalmente a questão do ritmo, o que ajuda na absorção da divisão silábica e leitura oral.

 

Viu quantos benefícios? O que está esperando para começar a brincadeira?

Brincar com palavras

Esta é uma maneira natural, saudável e lúdica de ajudar as crianças  no processo de aprendizado da escrita e leitura. Temos discutido muito aqui no Educando Tudo Muda as questões sobre a pressão escolar, a importância de respeitar o tempo de amadurecimento cognitivo de cada criança e o espaço do brincar –  base da infância.

Profissionais de várias áreas que trouxemos para debater este tema foram unânimes quanto à necessidade de compreender a criança como um ser integral, considerando no aprendizado formal os aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais da criança.

É assim que pensa também o odontólogo Dr. Saulo Teles¹, nosso convidado para contar um pouco a respeito de sua experiência e observações no consultório no atendimento às crianças.

 

UM OLHAR INTEGRAL

“Procuro sempre olhar meu paciente como um todo, como propõe o paradigma holístico. Observamos a repercussão do social/emocional naquele paciente.

Em tese, a criança estaria preparada para alfabetização por volta dos 7 anos quando ocorre a mielinização de certos nervos o que vem proporcionar a plasticidade corporal, os ritmos, a pinça, a oposição do polegar, segurança para se afastar da mãe, etc

Avaliamos a postura bucal, as maloclusões, ocorrência de dentes fora da posição adequada, mordida cruzada, sobre mordidas, retrusão maxilar e/ou mandibular, posição da língua, se faz o vedamento labial eficiente, se mastiga bilateralmente, etc.

Observamos também a postura da cabeça, dos olhos, dos ombros, da coxofemural, joelhos, tornozelos, da forma como pisa, da marcha, do seu eixo postural, o desempenho escolar, como interage socialmente, relação com pai e mãe, histórico de saúde, entre outros.

 

O QUE SINALIZA O AMADURECIMENTO DA CRIANÇA PARA O PROCESSO DE LETRAMENTO?

Geralmente a criança dá sinais de prontidão. A presença dos incisivos laterais é um sinal forte da sua demanda social/escolar. A pinça, a oposição do polegar, marcha mais refinada. A própria criança pede para ir à escola.

A infância, como uma estação do ano, se dá entre 0 a 7 anos. Esse é o tempo destinado para estar em família brincando, correndo, gritando, aprendendo a interagir, vivendo os afetos, se semialfabetizando através do contar estórias, etc. Tudo que se opõe a esses aspectos antecipa, acelera, gera fortes tensões nas cadeias musculares, podendo provocar enfermidades variadas.

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

Se educa a personalidade, se educa o ego, de forma que na ausência daquele, não há nada a educar. Afastar a cria da mãe antes do momento adequado pode ser desastroso. Amamentação interrompida, filhos terceirizados nas escolas. Geralmente apresentam sintomas tais como falta de vedamento labial, dentes tortos, mandíbula retraída, problemas cognitivos, hiperatividade, distúrbios de personalidade, autismo, postura corporal inadequada, etc.

É um assunto extenso que geralmente é tratado dentro de uma ótica sistêmica, com um sentido filogenético que vem a sustentar a ontogenia de cada ser. A biologia com seu código genético, pede expressão funcional no meio, de forma que se houver oposição a esta expressão poderá ocorrer sintomas. É importante lembrar que cada espécie tem suas  formas e funções”.

Agradecemos a participação do Dr. Saulo Teles que deixa claro a importância de olhar a criança em todos os seus aspectos para que ela possa se desenvolver de maneira harmoniosa, equilibrada, com saúde, pois na organização do ser humano tudo está interligado e funciona em cadeia. Desta forma, nada pode ser visto isoladamente quando se fala em desenvolvimento integral do ser humano.

Vale também salientar que hoje muitos profissionais da área de saúde defendem a necessidade de um período maior de licença maternidade e paternidade para o cuidado da criança nos primeiros anos e o estreitamento dos vínculos afetivos, vitais para o desenvolvimento infantil.

Brincar com palavras

Recomendo a leitura do livro “A criança terceirizada”, do Dr. José Martins Filho e também o TED do Dr. Daniel Becker. Ambos bem esclarecedores sobre o valor das relações familiares nos dias de hoje.

Voltando à questão do brincar com palavras, espero que tenha despertado o interesse por essa brincadeira tão gostosa. Para finalizar, fica mais um desafiante trava-línguas:

Quando eu digo Diogo, eu não digo Digo. Quando eu digo Digo, eu não digo Diogo

 

 

 

Participe você também desta reflexão deixando seu comentário. Fique por dentro de temas atuais ligados a infância cadastrando-se no site, e ainda receba um lindo e-book gratuitamente:
http://educandotudomuda.us14.list-manage.com/subscribe/post

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

¹- Graduado em Odontologia em 1980

– Atualização em Ortopedia Funcional dos Maxilares

– Atualização em Bio Cibernetica Bucal

– Pós em Saude Coletiva

– Pós em Ortodontia

– Pós graduando em DTM

– Processo Fisher Hoffman da Quadrinidade

– Eneagrama da Personalidade

– Fundacion Rio Abierto Movimento e expressão

– Terapia Craniossacral