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INFÂNCIA SAUDÁVEL – DESENVOLVIMENTO E CUIDADOS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

Precisamos garantir uma infância saudável para nossas crianças a partir de atitudes simples no dia a dia.

A dinâmica imposta pelas mudanças sociais das últimas décadas, gerou isolamento, aceleração, e adultização no cenário da infância. Hoje as crianças estão expostas às mesmas angústias e estresses que os adultos estão sujeitos e sofrem dos mesmos males físicos e psicológicos.

Podemos, enquanto pais e educadores, tomar algumas medidas práticas geradoras de bem estar visando uma infância saudável. Acompanhe o que pode ser feito.

 

PARA A ESCOLARIZAÇÃO PRECOCE, O BRINCAR  

Infância saudável

Especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças tem maior capacidade de lidar com ideias abstratas. Eles alertam que crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, e ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

O tempo de brincar livre proporciona à criança o desenvolvimento de importantes habilidades – destreza corporal, escuta, interações sociais, equilíbrio emocional, etc. O brincar é um treino para amadurecimento e conquista dessas competências.

Assegure todos os dias um tempo para a criança brincar.

 

PARA O EXCESSO DO MUNDO TECNOLÓGICO,  A NATUREZA

O acesso precoce e uso abusivo da tecnologia é um fenômeno recente no cenário da infância. Infelizmente hoje as crianças vivem cada vez mais em ambientes fechados e conectadas à algum aparelho tecnológico, distante do ritmo orgânico do mundo natural.

Infância saudável

Já se sabe por meio de estudos que quanto mais a criança ficar exposta à tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e capacidade de concentração, com prejuízos também ao desenvolvimento motor, qualidade do sono, aprendizagem, etc.

Hoje 40% das crianças brasileiras passam uma hora ou menos ao ar livre. Pesquisas pelo mundo afora revelam que mais tempo em contato com a natureza, regula hormônios, reduz a agressividade, hiperatividade e obesidade. Assim que os odores da mata adentram o organismo humano, os níveis de estresse e irritação diminuem.

Assegure todos os dias um perído para estar em contato com a natureza. 

 

Infância saudávelPARA AGENDAS LOTADAS, O ÓCIO

O tempo livre, o “ócio”,  é  a oportunidade que a criança tem de entrar em contato com seu mundo interior, estimular a fantasia, criatividade e desenvolver a concentração. O tempo em que a criança está à toa, é o momento em que está conectada com ela mesma, num processo de autoregulação, que promove equilíbrio emocional.

Muitas crianças tem suas agendas preenchidas de atividades extra curriculares todos os dias da semana. O não fazer nada para a criança é muito importante, é o período que ela faz de conta, inventa brincadeiras, cria seus brinquedos.

Assegure todos os dias um momento para a criança ficar à toa, sem nada para fazer.

 

 

PARA  A MEDICALIZAÇÃO, A IMAGINAÇÃO E A ARTE

Vivemos tempos de patologização dos comportamentos infantis. Milhares de crianças estão sendo diagnosticadas com algum tipo de transtorno. Coisas normais da vida como a timidez, a teimosia, e até mesmo a rebeldia infantil, estão sendo enquadradas como transtorno.

Com a justificativa de melhorar o desempenho escolar, as  conquistas de desenvolvimento que não acontecem no período esperado, e promover mudanças comportamentais não aceitas socialmente,  a infância vem sendo medicalizada para atender aos anseios da sociedade.

Infância saudável

Nietzsche, dizia que “a arte existe para que a realidade não nos destrua”. A criança encontra na arte, uma forma de expressão do seu mundo interior e um exercício da força da imaginação, que dá colorido à realidade externa.

Incentive a imaginação e expressão da criança por meio do desenho, pintura, modelagem de massinha ou argila, colagem, etc.

Leia também: INFÂNCIA PEDE CALMA 

 

O brincar, a natureza, o ócio, a arte e a imaginação, são essenciais para a saúde da infância e desenvolvimento integral da criança.

Quem tem ouvidos para ouvir, atenda este chamado por uma infância saudável.

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

INFÂNCIA AMEAÇADA – O QUE VEM ADOECENDO AS CRIANÇAS? ALERTA À SOCIEDADE AOS DESAFIOS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

Infância ameaçada

 

Infância ameaçada – um alerta à sociedade. O que vem adoecendo as crianças? O cenário atual da Primeira Infância apresenta muitos desafios para toda a sociedade.

A Infância vive um momento de grande complexidade e se encontra no centro das incertezas desta época, expondo as crianças precocemente às mesmas angústias que os adultos estão sujeitos.

As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram de forma considerável a estrutura da vida familiar e seus reflexos podem ser observados nitidamente na vida da criança.

 

Infância ameaçada

Os hábitos cotidianos transformaram-se significativamente, modificando o ritmo e a rotina dos pequenos, com estilos de vida mais individuais, sedentários, que desfavorecem o convívio social, atividades físicas, o exercício imaginativo, e a autonomia infantil.

A crescente urbanização, associada ao medo pelo aumento da violência, ergueu muros, produziu isolamento e contribuiu para uma cultura de confinamento.

Além disso, valores da sociedade de consumo tomaram conta do universo da criança, que exposta intensamente a conteúdos de natureza mercadológica e seduzida por apelos do mundo moderno com suas novas tecnologias, vê seu tempo e espaço lúdico invadido e reduzido.

No mundo da criança, a tecnologia passou a ocupar um lugar de destaque. As telas estão roubando um tempo precioso da criança – o tempo do  brincar, uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil em todos os aspectos, físico, emocional, cognitivo, social e espiritual.

Infância ameaçada

Foto: Shutterstock

E mais, a cultura escolar atual com seus testes, ranqueamentos e índices, tem sido a causa de grande ansiedade para as famílias e crianças.

A consciência intelectual adulta que é hoje imposta, sob pressão, na Primeira Infância, vai contra a natureza da criança. É desrespeitosa ao desenvolvimento integral infantil, isto é : o desenvolvimento intelectual, emocional , social e cultural.

A infância pede tempo e espaço para a ludicidade, a fantasia e imaginação. O aprendizado nesta fase se dá por meio de interações sociais afetivas e no contato com o mundo natural.

Onde poderá desembocar uma infância pobre em interações sociais, pressionada precocemente pelo sucesso acadêmico e competição, e ainda exageradamente tecnológica?

 

 

Leia também: SABOTADORES DA INFÂNCIA – DA ESCASSEZ AO EXCESSO

 

 

INFÂNCIA AMEAÇADA

O modus vivendi da sociedade contemporânea com seus excessos, vem adoecendo as crianças, a infância está ameaçada. Querem cedo demais tirar a criança do seu tempo e espaço natural de desenvolvimento. Querem cedo demais intelectualizar, adultizar, atrofiar os sentidos, limitar a curiosidade e vontade da criança de explorar e vivenciar o mundo livremente, empobrecendo assim sua imaginação e criatividade.

O que estamos fazendo com a infância?

Infância ameaçada

Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu em setembro do ano passado em Calgary – Canadá, revelam que a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60, os transtornos de ansiedade entre as crianças cresceu até 18 vezes e as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores. Ao mesmo tempo, o brincar livre das crianças vem diminuindo significativamente desde 1955. Tudo isso indica que a infância está ameaçada.

 

O que podemos fazer para promover mudanças?
Qual a nossa responsabilidade perante essa geração de crianças estressadas? Que futuro estamos projetando para elas?

O crítico social americano, Neil Postman (1931-2003), em seu livro O desaparecimento da Infância, publicado originalmente em 1982, analisa o cenário social da época e profetiza os rumos assustadores da infância a partir da conexão da infância com a comunicação. Postman aponta as condições niveladoras do acesso a informações entre adultos e crianças, cada dia mais intensa, como um dos responsáveis pelo desaparecimento da infância e diz

“Se despejarmos sobre as crianças uma vasta quantidade de material adulto da pesada, a infância não poderá sobreviver”.

Não é o que temos feito? Este livro é leitura obrigatória para quem deseja se aprofundar nas questões sociais da infância.

 

UM CONVITE

Somos muitos preocupados com este cenário, o que nos confere poder para defender essa causa e batalhar pelo direito da criança viver sua infância sem opressão.

Convidamos pais, educadores, e  profissionais das mais diversas áreas que lidam com a Primeira Infância e que estejam nessa mesma inInfância ameaçadaquietação,  a  se juntar  a nós.

Temos a responsabilidade de desenvolver uma consciência que entenda a cultura da infância como uma etapa particular do processo de iniciação do humano, de forma a garantir a sobrevivência de nossa espécie. Nossa capacidade de viver neste planeta depende de soluções inovadoras e do olhar atento ao começo da vida, à garantia da saúde da Infância.

Compartilhe este texto e deixe seu comentário para que possamos refletir sobre mudanças que favoreçam a vida das crianças na atualidade.

Entre em contato com o Educando Tudo Muda caso sua escola ou comunidade tenha interesse em nossas palestras a respeito desse  tema.

Infância ameaçada – conscientizar e questionar, eis os  primeiros passos para quebra de paradigmas e transformação do mundo.

 

Abraço esperançoso

Ana Lúcia Machado

 

 

36 MOTIVOS PARA CONECTAR AS CRIANÇAS À NATUREZA

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Depois de conhecer os 36 motivos para conectar as crianças à natureza, vocês pais, não vão querer ficar dentro de casa com elas. Vocês professores, se sentirão provocados a ultrapassar os limites da sala de aula e romper os muros da escola.

A infância vive um momento de grande complexidade e se encontra no centro das incertezas desta época, expondo as crianças precocemente às mesmas angústias que os adultos estão sujeitos.

As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram de forma considerável a estrutura da vida familiar e seus reflexos podem ser observados nitidamente na vida da criança.

37 motivos para conectar as crianças à natureza

Foto: BBC

Hoje a maioria da população brasileira vive em centros urbanos, onde as crianças passam a maior parte do tempo em locais fechados, dentro de casa – em frente das grandes telas televisivas e das pequenas telas portáteis de smartphones, tablets e vídeo games. Nas escolas, elas permanecem quase o tempo todo dentro de salas de aulas. E ainda nos finais de semana, quando saem com seus familiares, vão aos shoppings, restaurantes e cinemas.

Os novos hábitos transformaram o ritmo e a rotina das crianças, criando estilos de vida mais individuais, sedentários, que desfavorecem o convívio social, atividades físicas, o exercício imaginativo, e a autonomia da criança.

Um forte sinal de alerta são as doenças típicas de adultos que hoje acometem também a população infantil, tais como a obesidade, diabetes, miopia, doenças cardiovasculares, entre outras. O que este fenômeno está nos dizendo? Precisamos investigar e refletir.

UMA BOA NOTÍCIA

Um movimento de retorno à natureza tem se espalhado pelo mundo. Muitas iniciativas estão surgindo com o objetivo de expandir a consciência e promover mudanças neste cenário, estimulando o contato com o mundo natural e mais tempo ao ar livre.

Em contato com a natureza a criança tem acesso a processos vivos que estão em constante transformação. Alimentar os sentidos da criança com formas primordiais, substancias vivas, e elementos naturais que exalam aromas, florescem, frutificam e emitem sons nativos, é fundamental para o desenvolvimento integral infantil.

36 motivos para conectar as crianças à natureza

4daddy

A criança deve ser compreendida como um ser lúdico, contemplativo, explorador e investigativo, e atendida nessas necessidades.

Pesquisas científicas já comprovaram inúmeros benefícios que o contato com a natureza propicia. Esses benefícios envolvem aspectos físicos, emocionais, cognitivos, sociais e espirituais.

 

 

VAMOS A ELES? EIS OS PRINCIPAIS MOTIVOS PARA CONECTAR AS CRIANÇAS À NATUREZA 

1.Permite maior movimentação corporal auxiliando na estruturação do sistema muscular. Estar ao ar livre é um convite para o movimento – correr, pular, escorregar, explorar troncos caídos, escalar barrancos, etc.

2.Ajuda na aquisição do equilíbrio do corpo

3.Desenvolve a destreza corporal

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

4.Contribui para o domínio espacial

5.Promove estímulos sensoriais

6.Propicia maior gasto de energia, que é uma necessidade biológica do corpo

7.Auxilia na qualidade do sono, tão importante para a fase de crescimento infantil

8.Regula hormônios, diminui o cortisol (hormônio do stress)

9.Ajuda a respirar melhor

10.Contribui para a melhora nas medições de pressão sanguínea e batimentos cardíacos

11.Previne a obesidade

 

 

12.Previne a deficiência de Vitamina D, pela exposição aos raios solares.

13.Previne a miopia. Espaços amplos, abertos e com iluminação natural estimulam o exercício dos músculos oculares. As crianças precisam focar em objetos grandes e ao longe. É importante que os olhos se movimentem seguindo a linha vertical, horizontal e de profundidade para a prevenção do encurtamento dos músculos dos olhos. A ocorrência de miopia tem crescido entre as crianças e uma das explicações é o acesso precoce e excessivo ao mundo tecnológico.

14.Fortalece o sistema imunológico, pois a criança entra em contato com uma série de bactérias e micro-organismos

15.Previne o desenvolvimento de alergias

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Foto Luiza Esteves divulgada pelo Instituto Alana

16. A criança aprende a correr riscos e medi-los, como ao subir numa árvore.

17. A criança aprende a superar desafios

18.Desenvolve resiliência e autoconfiança

19.Colabora para a autonomia da criança

20.Alivia a ansiedade

21.Diminui a hiperatividade

 

 

22.Reduz a agressividade

23.Estimula a capacidade cognitiva

24.Aumenta a concentração

25.Contribui para a melhoria da aprendizagem

26.Nutri a imaginação

27.Enriquece o repertório da criança

28.Promove a convivência e interação social

29.Fortalece os vínculos afetivos

37 motivos para conectar as crianças à natureza

Papo de Pracinha

30.Estimula o espírito solidário

31.Dá a sensação de liberdade e pertencimento

32.Promove equilíbrio interno, autorregulador da criança.

33.Promove harmonia, vitalidade e alegria

34.Eleva a capacidade criativa

35.Estimula o cuidado com o meio ambiente. A criança em contato com a natureza é o potencial cuidador e preservador do meio ambiente, porque em sua memória haverá registros do significado do frescor à sombra de uma árvore por exemplo

36.Promove a educação ambiental vivencial, na prática

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

Proporcionar e incentivar o brincar livre da criança em contato com a natureza  é algo simples, de baixo custo, que traz muita alegria, encantamento e um profundo sentimento de unidade e pertencimento. Pode ser uma caminhada num parque ou numa praça para ouvir o vento soprar, o canto dos pássaros, observar as árvores , as cores das flores. Respirar fundo e sentir o cheiro de terra úmida. Pisar em folhas secas. Procurar minhocas, musgos, borboletas. Subir em árvores, correr entre elas, e muito mais.

Tudo isso propiciará a formação de um reservatório de experiências vivas e reais para a vida.

No relato de memórias infantis de muitos escritores, é comum encontrar passagens de aventuras ao ar livre, lembranças de vivências calorosas em conexão com a natureza.

QUAIS  LEMBRANÇAS QUEREMOS QUE AS CRIANÇAS TENHAM DE SUAS INFÂNCIAS?   

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

Richard Louv em seu livro A última criança da natureza fala  que “Um círculo cada vez maior de pesquisadores acredita que a perda do habitat natural, ou a desconexão com a natureza, mesmo quando ela está disponível, tem implicações enormes para a saúde humana e o desenvolvimento infantil. Eles dizem que a qualidade dessa exposição afeta nossa saúde em um nível celular”.

 

 

Educando Tudo Muda concedeu uma entrevista ao site da revista Exame falando sobre a importância de conectar as crianças à natureza. Leia a matéria do site EXAME aqui.

Para falar a Exame, nos fundamentamos na experiência com o projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, que está comemorando um ano de atividades. O projeto Playoutside busca restabelecer o elo emocional das crianças com a natureza, estimular o brincar ao ar livre, promover valores pró-sociais  e  fortalecer os laços familiares. Acreditamos que esse  é o antídoto para uma infância high-tech e a maneira de despertarmos uma nova geração de cuidadores da natureza.

Conheça mais sobre o Playoutside aqui. Confira na agenda nosso próximo encontro e participe.

Somos a última geração de pais e educadores que conheceu o mundo sem a   influência do forte avanço tecnológico. Somos os grandes responsáveis pelo estabelecimento e incentivo do elo emocional da geração de nativos digitais com o mundo natural.

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

 

Então vamos,  #playoutside. Comece hoje mesmo a mudar o cenário atual da infância. Vamos nos mobilizar no desafio de tornar a infância de nossas crianças mais verde.

Junte-se a nós. Espalhe esta semente.

 

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

BRINCAR COM PALAVRAS

Brincar com palavras

Palavras também podem ser brinquedo na boca das crianças. Que tal experimentar brincar com palavras?

Então vamos lá. Chamem as crianças e peçam para elas repetirem esta frase:

Três doidos tentam deitar dentro de três tendas

Acharam fácil? E esta?

Tatu bola matuto batuca um batuque em Botucatu

 

Brincar com palavras

Esses são os trava-línguas, jogo verbal que consiste em dizer de forma rápida e clara, versos ou frases que contenham semelhança sonora das suas sílabas. Trata-se de rimas infantis da cultura popular, transmitida de geração em geração.

O fato de terem de ser ditas com rapidez, faz com que o jogo se torne uma brincadeira desafiante e divertida, inclusive para os adultos. Crianças na faixa entre 6 e 8 anos gostam bastante dessa brincadeira. Além de diversão, é um excelente recurso para o desenvolvimento linguístico.

Na escola podem se tornar um projeto interdisciplinar muito interessante envolvendo a família, com a participação inclusive dos avós para enriquecer o repertório. Ainda, pode-se estimular a turma a criar seus próprios trava-línguas.

Até mesmo em casa, os pais também podem elaborar com as crianças um caderno de trava-línguas e juntos se divertirem muito.

Este foi o que criamos  em casa quando as crianças eram pequenas. Meus filhos adoravam brincar com palavras. Demos boas risadas brincando assim! Aliás, este foi um jogo que me ajudou bastante em momentos que precisava entreter as crianças, como em salas de espera de consultórios médicos, no carro em viagens longas, etc.

Mas foi muito além. Pude perceber o quanto foi benéfico para o processo de alfabetização deles, pois os trava-línguas estimulam a atenção e concentração, melhoram a dicção, desenvolvem naturalmente a questão do ritmo, o que ajuda na absorção da divisão silábica e leitura oral.

 

Viu quantos benefícios? O que está esperando para começar a brincadeira?

Brincar com palavras

Esta é uma maneira natural, saudável e lúdica de ajudar as crianças  no processo de aprendizado da escrita e leitura. Temos discutido muito aqui no Educando Tudo Muda as questões sobre a pressão escolar, a importância de respeitar o tempo de amadurecimento cognitivo de cada criança e o espaço do brincar –  base da infância.

Profissionais de várias áreas que trouxemos para debater este tema foram unânimes quanto à necessidade de compreender a criança como um ser integral, considerando no aprendizado formal os aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais da criança.

É assim que pensa também o odontólogo Dr. Saulo Teles¹, nosso convidado para contar um pouco a respeito de sua experiência e observações no consultório no atendimento às crianças.

 

UM OLHAR INTEGRAL

“Procuro sempre olhar meu paciente como um todo, como propõe o paradigma holístico. Observamos a repercussão do social/emocional naquele paciente.

Em tese, a criança estaria preparada para alfabetização por volta dos 7 anos quando ocorre a mielinização de certos nervos o que vem proporcionar a plasticidade corporal, os ritmos, a pinça, a oposição do polegar, segurança para se afastar da mãe, etc

Avaliamos a postura bucal, as maloclusões, ocorrência de dentes fora da posição adequada, mordida cruzada, sobre mordidas, retrusão maxilar e/ou mandibular, posição da língua, se faz o vedamento labial eficiente, se mastiga bilateralmente, etc.

Observamos também a postura da cabeça, dos olhos, dos ombros, da coxofemural, joelhos, tornozelos, da forma como pisa, da marcha, do seu eixo postural, o desempenho escolar, como interage socialmente, relação com pai e mãe, histórico de saúde, entre outros.

 

O QUE SINALIZA O AMADURECIMENTO DA CRIANÇA PARA O PROCESSO DE LETRAMENTO?

Geralmente a criança dá sinais de prontidão. A presença dos incisivos laterais é um sinal forte da sua demanda social/escolar. A pinça, a oposição do polegar, marcha mais refinada. A própria criança pede para ir à escola.

A infância, como uma estação do ano, se dá entre 0 a 7 anos. Esse é o tempo destinado para estar em família brincando, correndo, gritando, aprendendo a interagir, vivendo os afetos, se semialfabetizando através do contar estórias, etc. Tudo que se opõe a esses aspectos antecipa, acelera, gera fortes tensões nas cadeias musculares, podendo provocar enfermidades variadas.

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

Se educa a personalidade, se educa o ego, de forma que na ausência daquele, não há nada a educar. Afastar a cria da mãe antes do momento adequado pode ser desastroso. Amamentação interrompida, filhos terceirizados nas escolas. Geralmente apresentam sintomas tais como falta de vedamento labial, dentes tortos, mandíbula retraída, problemas cognitivos, hiperatividade, distúrbios de personalidade, autismo, postura corporal inadequada, etc.

É um assunto extenso que geralmente é tratado dentro de uma ótica sistêmica, com um sentido filogenético que vem a sustentar a ontogenia de cada ser. A biologia com seu código genético, pede expressão funcional no meio, de forma que se houver oposição a esta expressão poderá ocorrer sintomas. É importante lembrar que cada espécie tem suas  formas e funções”.

Agradecemos a participação do Dr. Saulo Teles que deixa claro a importância de olhar a criança em todos os seus aspectos para que ela possa se desenvolver de maneira harmoniosa, equilibrada, com saúde, pois na organização do ser humano tudo está interligado e funciona em cadeia. Desta forma, nada pode ser visto isoladamente quando se fala em desenvolvimento integral do ser humano.

Vale também salientar que hoje muitos profissionais da área de saúde defendem a necessidade de um período maior de licença maternidade e paternidade para o cuidado da criança nos primeiros anos e o estreitamento dos vínculos afetivos, vitais para o desenvolvimento infantil.

Brincar com palavras

Recomendo a leitura do livro “A criança terceirizada”, do Dr. José Martins Filho e também o TED do Dr. Daniel Becker. Ambos bem esclarecedores sobre o valor das relações familiares nos dias de hoje.

Voltando à questão do brincar com palavras, espero que tenha despertado o interesse por essa brincadeira tão gostosa. Para finalizar, fica mais um desafiante trava-línguas:

Quando eu digo Diogo, eu não digo Digo. Quando eu digo Digo, eu não digo Diogo

 

 

 

Participe você também desta reflexão deixando seu comentário. Fique por dentro de temas atuais ligados a infância cadastrando-se no site, e ainda receba um lindo e-book gratuitamente:
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Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

¹- Graduado em Odontologia em 1980

– Atualização em Ortopedia Funcional dos Maxilares

– Atualização em Bio Cibernetica Bucal

– Pós em Saude Coletiva

– Pós em Ortodontia

– Pós graduando em DTM

– Processo Fisher Hoffman da Quadrinidade

– Eneagrama da Personalidade

– Fundacion Rio Abierto Movimento e expressão

– Terapia Craniossacral

 

 

 

 

 

 

 

 

EDUCAÇÃO INFANTIL E AS CEM LINGUAGENS DA CRIANÇA

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

A Educação Infantil deve ser um espaço e tempo de liberdade para o desenvolvimento das cem linguagens da criança, entre elas, o brincar – linguagem universal da infância.

Temos debatido sobre o processo de aprendizagem na Educação Infantil desde a publicação do artigo DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL, leia aqui.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Dando continuidade as discussões, esta semana Educando Tudo Muda entrevistou Raquel Franzim, pedagoga e especialista em Educação Infantil. Raquel trabalhou por quase 15 anos na rede municipal de educação da cidade de SP em cargos de docência, gestão e formação de educadores. Atualmente é assessora pedagógica no Instituto Alana, na área de educação e cultura da infância e coordena junto com a Ashoka o Programa Escolas Transformadoras no Brasil.

 

Quando uma criança está preparada para dar início ao processo de alfabetização sob o ponto de vista do desenvolvimento integral?

Depende do que se entende por alfabetização. Se entendermos alfabetização apenas como a decodificação de letras, há um consenso de que a criança inicia esse processo lá pelos seis ou sete anos. No entanto, se entendermos alfabetização como um processo amplo de interpretação e construção de sentido sobre o mundo e às marcas gráficas, contínuo em toda vida humana, podemos dizer que esse processo inicia-se ainda na vida intrauterina e termina ao morrermos.

Toda criança, desde seu nascimento, vive em uma cultura repleta de símbolos gráficos, do mundo letrado. Mesmo sem ainda ler e escrever tal como o convencionado socialmente, crianças pequenas atribuem significado e reconstroem a seu modo as marcas orais e escritas do mundo.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Imagem: Avante.org.br

Portanto, não há momento específico para iniciar esse processo, mas todo o cuidado deve se ter para que a linguagem verbal, seja ela escrita ou oral, não sejam as únicas linguagens exploradas pela escola. Loris Mallaguzzi, educador italiano, por exemplo, defendia que a criança tem muitas linguagens, diversas formas de se expressar, de compreender e de reinventar o mundo.

 

Na sua visão, o que é a alfabetização precoce? O que você considera antecipação e aceleração desse processo?

As práticas educativas que desconsideram a infância como um período muito ativo por parte da criança e com diferentes formas de expressão, aprendizagem, interação com e sobre o mundo. A criança é construtora de culturas, de formas de ser, pensar e estar no mundo. Isso é uma coisa.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Outra coisa é a escola privilegiar o tempo de vida da criança na escola apenas para a exploração da linguagem verbal (escrita e oral), uma das muitas linguagens da criança. Mais problemático é se a escola organiza as experiências de linguagem verbal sem relação nenhuma com a vida e com as práticas sociais de ouvir, falar, ler, escrever.

Certa vez, ouvi uma terapeuta ocupacional falar da linha de desenvolvimento humano. Foi a melhor explicação que já ouvi! Bebês e crianças pequenas se desenvolvem em um movimento céfalo-caudal (da cabeça aos pés, não  à toa bebês levam um tempo para sustentar a cabeça e depois conquistar a marcha, o caminhar) e próximo-distal (ou seja, do centro do corpo, partindo do coração, dos afetos, passando pelos movimentos amplos do corpo até a parte mais fina – os dedos e os movimentos de pinça). Ignorar isso é ignorar a ciência e muitas oportunidades das crianças se desenvolverem de corpo e alma, integralmente.

 

Quais os efeitos da alfabetização precoce?

Desconheço pesquisas que retratem isso. E muitas professoras e professores de educação infantil sabem, pela experiência viva, que crianças necessitam de vivência, relação e muito tempo e espaço para brincar. No entanto, a pressão social pelo aprendizado da linguagem escrita é muito forte. A maioria das famílias compreende a escola como um espaço para ‘aprender’ e não para brincar.

É difícil reconhecer o quanto as crianças aprendem outras coisas nessa fase da vida. Por isso, é papel de toda escola ajudar a família a aprender a olhar a experiência da criança pequena. E entender que ela não é pequena ou menor que outras experiências que virão mais para frente.

Também faz-se necessário dar mais visibilidade a pais e educadores pesquisas que evidenciam a importância do desenvolvimento integral e integrado nessa fase da vida e o impacto nos anos seguintes e na vida como um todo.

Temos a vida toda para aprender a ler e escrever formalmente, mas apenas 6, 7 anos para explorar intensamente toda a nossa capacidade física, sensorial, simbólica, gestual, comunicativa e criativa.

 

Qual a essência do trabalho na Educação Infantil?

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

O essencial na educação infantil é a possibilidade da criança interagir com uma comunidade maior que suas próprias famílias. Ampliar os horizontes sociais e culturais. Se sentir pertencente a uma comunidade, participando ativamente dela. Toda a experiência nos 7 primeiros anos de vida é extremamente marcada pelo afeto aprendido e construído nas e pelas relações, pelo desenvolvimento das emoções, do sentir e se relacionar com diversos sentimentos. Junto com outras crianças da mesma idade e de diferentes idades, poder construir suas próprias narrativas, sejam elas corporais, simbólicas, orais, musicais etc.

 

O brincar, na primeira infância, não é apenas uma forma da criança aprender o mundo. É especialmente sua principal linguagem e meio de criação e reinvenção da vida. Não há fase na vida com tamanha intensidade como essa.

 

O que irá mudar na Educação Infantil a partir das discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular ?

As audiências públicas realizadas nas 4 regiões do país e no Distrito Federal mostraram que a educação infantil é marcada historicamente pela compreensão de uma escola preparatória para o ensino fundamental. Isso traz graves consequências ao desenvolvimento integral das crianças, por privilegiar apenas a linguagem verbal na relação de ensino e aprendizagem. Imagine, como as crianças são podadas em sua criatividade e construção de conhecimento, sentimento e fazeres se apenas um dos aspectos delas? Contudo, a Base ainda aguarda a deliberação do Conselho Nacional de Educação e a homologação da versão, com o parecer do Conselho. Ademais, acredito que as escolas, educadores e famílias que acreditam que a educação infantil é um espaço plural não deixarão de o fazer, mesmo se a Base trouxer uma abordagem contrária.

Um alerta é o crescente apelo comercial do mercado editorial para padronização dos processos de ensinar e aprender na educação infantil, por meio de apostilas e materiais didáticos. Isso significa que há um enorme interesse de grupos econômicos em vender material para essa fase da vida – tolhendo a criatividade e autonomia não apenas de educadores, mas do potencial criador e criativo das crianças.

 

Para finalizar, deixamos aqui o poema de Loris Mallaguzi , educador a quem Raquel faz referência:

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Ao contrário, as cem existem

A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem sempre cem
modos de escutar
de maravilhar e de amar.
Cem alegrias para cantar e compreender.
Cem mundos para descobrir.
Cem mundos para inventar
Cem mundos para sonhar.
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubam-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e de maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir um mundo que já existe
e de cem roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe enfim:
que as cem não existem.
A criança diz:
ao contrário, as cem existem.

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

SABOTADORES DA INFÂNCIA – DA ESCASSEZ AO EXCESSO

Sabotadores da infância

A  luta por uma infância digna ainda é grande e deve ser nossa prioridade absoluta. São vários os sabotadores da infância que precisam  ser combatidos. Eles vão desde aspectos caracterizados pela escassez, até o outro extremo, os excessos da sociedade.

O desenvolvimento saudável da Primeira Infância é a base da prosperidade econômica e justiça social de uma nação. Sabemos que as primeiras experiências da vida de uma criança são incorporadas por ela, permanecendo por toda a vida. O que é vivenciado na infância afeta o  aprendizado, o comportamento, saúde, e segue reverberando ao longo da existência de cada indivíduo. Por isso, os sabotadores da infância que apontaremos aqui, precisarão ser encarados com seriedade em todas as esferas.

Nos próximos artigos no Educando Tudo Muda vamos falar um pouco sobre cada um dos sabotadores da infância. Queremos aprofundar um a um.

SABOTADORES DA INFÂNCIA

  1. TRABALHO INFANTIL

O trabalho infantil é um dos mais vis sabotadores da infância, um grave problema que enfrentamos no país. Mais de 2,670 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, trabalham no Brasil, segundo informações da Rede Peteca/Chega de Trabalho Infantil. O trabalho infantil está ligado às atividades econômicas e/ou atividades de sobrevivência, com ou sem finalidade de lucro, remuneradas ou não.

Pesquisa divulgada pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, constata que o setor que mais explora a mão de obra infantil no mundo, é o agrícola, representando 58,6%, seguido pelo setor de serviços, com 32,3%, sendo 6,9% em serviços domésticos, e do setor industrial, correspondendo a 7,2%.

Sabotadores da infância

O trabalho na agricultura expõe a criança a uma série de riscos: intoxicação por agrotóxicos, queimaduras solares, transporte de peso excessivo, instrumentos cortantes, etc.

O corpo da criança  está em formação. Ossos e músculos ainda não estão totalmente desenvolvidos e podem sofrer deformações. Fígado, baço, rins, estomago e intestinos estão mais sujeitos à intoxicação.

Com relação ao trabalho doméstico, as meninas são as que mais sofrem. Muitas trabalham apenas por comida ou roupa, sem  remuneração. Elas correm maior risco de violência física, psicológica e abuso sexual.

A Constituição Federal proíbe o trabalho infantil. A idade mínima para o trabalho é de 16 anos. Antes disso, a partir dos 14, o adolescente pode ser apenas aprendiz.

O trabalho precoce prejudica a vida toda de um indivíduo. Compromete a infância pela falta do brincar, e  aprender. Prejudica a escolarização e acaba levando ao abandono escolar. Uma criança que entra no mercado de trabalho dessa maneira, receberá um salário menor por toda a vida.

Muitas vezes esta realidade parece  distante de nós, mas basta circular pelas feiras livres da cidade para constatar a presença de crianças trabalhando.  Recentemente no Carnaval de rua da cidade de São Paulo, muitas crianças trabalharam duro ao lado de vendedores ambulantes.

O trabalho infantil causa danos enormes sobre o aspecto físico, emocional, intelectual e social da criança, que é um ser em formação. Perpetua o ciclo da pobreza e miséria,  e não promove a criança para a vida social.

 

2. ALFABETIZAÇÃO PRECOCE

A aceleração do letramento é um dos sabotadores da infância mais desrespeitosos à natureza da criança. Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, com amigos da vizinhança, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias, andando de bicicleta nas ruas do meu bairro, e assim descobrindo e explorando o mundo. Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções, ouvi muitas histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, casinha, médico, professora. Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirava do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida de menina e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

Sabotadores da infância

Atividades que requerem que a criança seja capaz de se sentar em uma mesa e completar uma tarefa usando lápis e papel, que antes estavam restritas às crianças de 5 e 6 anos de idade, são agora dirigidas às crianças ainda mais novas, que não têm habilidades motoras e não têm a capacidade de concentração para isso, com exigências de que devem concluir seus trabalhos e atividades, antes que possam ir brincar.

Na contra mão desta aceleração,

especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

O trabalho nos primeiros anos de vida com a criança deve estar focado no desenvolvimento integral do ser humano, centrado no amadurecimento emocional, psicológico e social da criança.

 

 3. DÉFICIT DE NATUREZA

Estatísticas mostram que 80% da população brasileira vive em cidades e que as crianças que moram nos grandes centros urbanos passam 90% do seu tempo em locais fechados, dentro de casa,  em frente da televisão, jogando vídeo games, ou nas escolas dentro de salas de aula. Quando saem com os pais vão ao shopping, restaurante ou cinema.

Segundo dados do relatório Children & Nature Network, as crianças brasileiras  estão entre aquelas que tem menos contato com a natureza. Doenças que passaram a ser comum entre as crianças nos dias de hoje, tais como  transtorno de hiperatividade, déficit de atenção, depressão, pressão alta e diabetes, obesidade, estão diretamente ligadas com a falta de natureza.

Um movimento de retorno à natureza está se espalhando pelo mundo e já chegou ao Brasil. Trata-se do movimento de incentivar as crianças  a brincar ao ar livre, em áreas verdes. Uma pesquisa recente mostrou que 40% das crianças brasileiras passam uma hora ou menos ao ar livre. Um número inexpressivo. A expressão Transtorno do Deficit de Natureza  está circulando e sendo usado  por pediatras, psicólogos, educadores. Médicos já estão prescrevendo natureza para as crianças.

Sabotadores da infância

O que a falta de natureza pode causar?

-musculatura fraca, pela falta de atividade física

-falta de equilíbrio, pelo predomínio de pisos lisos, cimentados que oferecem pouca oportunidade de instabilidade na movimentação corporal

-obesidade infantil, associada a maus hábitos alimentares

-deficiência de vitamina D

-aumento de incidência de miopia

-menor uso dos sentidos

-ansiedade

Os benefícios da natureza já estão comprovados. Mais tempo ao ar livre regula hormônios, reduz a agressividade, hiperatividade e obesidade. Sucesso vem sendo obtido no tratamento de transtorno de déficit de atenção, depressão, e até mesmo quadros alérgicos, pois o contato com os antígenos naturais no campo ou na praia  fortalece o organismo. Além disso, aumenta  a capacidade cognitiva, e  as crianças ficam mais focadas e criativas.

Uma caminhada por uma mata fechada é capaz de promover bem estar e  tranquilidade. Assim que os odores da mata adentram o organismo humano, os níveis de estresse e irritação diminuem. A exposição mais prolongada e intensa ao cheiro do verde pode reduzir  a pressão arterial e fortalecer nossa imunidade.

Entre os sabotadores da infância apresentados, a desconexão com o mundo natural é aparentemente o mais simples de se resolver, entretanto requer esforços das famílias e das escolas para que se reverta este cenário de afastamento e se estabeleça novos hábitos de conexão no cotidiano das crianças.

 

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4. USO EXCESSIVO DA TECNOLOGIA

O acesso precoce e abusivo dos dispositivos digitais por crianças pequenas, é um dos sabotadores da infância que vem “trabalhando” em silêncio há algumas décadas e que agora explode de maneira assustadora.

Hoje já são oito milhões de pessoas viciadas em internet no país, segundo o Grupo de Dependência Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do  Hospital das Clínicas de São Paulo. De acordo com o Dr. Cristiano Nabuco, psicólogo e coordenador do Grupo, a situação é preocupante. Ele tem atendido casos de crianças viciadas em smartphones, videogames e tablets, incapazes de se relacionar sem ser virtualmente, de manter a concentração, dar sequência a um raciocínio lógico. Há casos de crianças com um pouco mais de 2 anos de idade que não comem, nem vão para a cama se não tiverem o aparelho ao lado.

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças menores de 3 anos não tenham acesso e nem sejam expostas passivamente aos aparelhos tecnológicos. Às crianças maiores, a orientação é de limitar o uso ao máximo uma hora por dia. Recomenda-se ainda que crianças de 0 à 10 anos não tenham TV no quarto.

Por que  pais e educadores devem ficar atentos ao acesso tecnológico precoce e intenso?

O Dr. Cristiano Nabuco explica que “nosso cérebro sofre um processo de amadurecimento que só é finalizado após a maioridade, aos 21 anos. A região do córtex pré-frontal é a última área a ser finalizada, e o córtex é responsável pelo nosso raciocínio lógico e também pelo controle dos impulsos, nosso freio comportamental”. E mais: “existem operações mentais que precisam naturalmente serem feitas e o grau de estimulação de um tablet desrespeita essa ‘ecologia’, essa natureza de desencadeamento da lógica”.

Já se sabe por meio de estudos que quanto mais a criança ficar exposta a tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e desenvolvimento da atenção. O uso precoce e excessivo da tecnologia na infância pode prejudicar o desenvolvimento infantil, causando dificuldade de concentração, má qualidade do sono, sedentarismo, problemas de saúde mental, atraso de aprendizagem, entre outros distúrbios.

O mais interessante é que pais que trabalham no Vale do Silício, a meca tecnológica dos EUA, executivos de grupos como Google, Apple, Hewlett-Paackard, eBay, etc, tem preferido matricular seus filhos em escolas que sequer têm wi-fi. Não é a tecnologia usada em sala de aula o que julgam importante para o aprendizado da criança, e sim a filosofia de aprendizagem. Tudo porque eles entendem que a tecnologia de hoje será obsoleta amanhã, e que o relevante é o estímulo à criatividade, curiosidade,  habilidades artísticas, e a capacidade de mudanças. O próprio Steve Jobs foi um pai low-tech que controlava e limitava a quantidade de tecnologia aos filhos dentro e fora de casa.

As crianças só migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. Pense nisso.

 

    5.AGENDA LOTADA

Este é um dos sabotadores da infância mais sutis, que passa desapercebido pela maioria de nós. Já parou para pensar na complexidade das agendas infantis atualmente?  Muitas crianças mantêm uma agenda que faria qualquer CEO adoecer. As crianças são levadas de um compromisso a outro, de segunda-feira à sábado. Suas agendas estão lotadas de cursos extracurriculares, do balé para o inglês, mandarin, da yoga para o Kumon, e também natação, judô, piano, etc… Muitas crianças têm atividades extracurriculares no mínimo três vezes por semana, ultrapassando 50 horas semanais de atividades, entre escola, cursos, esportes e reforços escolares.

Sabotadores da infância

O que pretendemos com isso? Formar uma  super geração competitiva? Prepará-los  para o sucesso? A superestimulação promovida pelos adultos tem  levado as crianças ao esgotamento. Estímulo demais, concentração de menos. Estamos adoecendo nossas crianças.

Esquecemos que elas desde cedo tem no próprio ambiente natural, familiar, estímulos suficientes para seu desenvolvimento. Os estímulos externos criados artificialmente pelos adultos com o intuito de acelerar o desenvolvimento, anulam o que a criança tem de mais precioso que é sua motivação interna, alimentada por sua curiosidade inata.

O não fazer nada para a criança é muito importante, é o momento que ela faz de conta, inventa brincadeiras, faz seu brinquedo.  O tempo livre, o “tédio”, nada mais é que a oportunidade da criança entrar em contato consigo mesma,  estimular o pensamento, a fantasia e a concentração.

 

    6.MEDICALIZAÇÃO INFANTIL

Você sabia que o Brasil é o segundo maior consumidor  mundial de Ritalina? Trata-se de um medicamento indicado para o tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Em 2010 foram vendidas  cerca de 2 milhões de caixas, um aumento de 775% na última década, segundo a Anvisa.

Estamos vivendo um momento de patologização extrema de comportamentos infantis. Milhares de crianças estão sendo diagnosticados com algum tipo de transtorno: Transtorno de Défict de Atenção, Hiperatividade, Transtorno  Desafiador Opositor,Transtorno Obssessivo  Compulsivo, Transtorno do Comportamento Disruptivo, Transtorno Desintegrativo,  Transtorno de Ansiedade, Dislexia e por aí vai.  Até mesmo crianças pequenas estão engolindo antidepressivos com leite.

Com a justificativa de melhorar o desempenho escolar, as  conquistas de desenvolvimento que não acontecem no período esperado, e promover mudanças comportamentais não aceitas socialmente,  o medicamento tarja preta,  Ritalina, Concerta , tem sido prescrito, para tornar as crianças “obedientes, disciplinadas e concentradas”. Este é um dos sabotadores da infância mais covardes.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação, já temos uma entidade voltada para o tema, a Associação Brasileira de Cientistas para Desconstrução de Diagnósticos e Desmedicalização,  além de um curso com este foco,  “Da palmatória a ritalina – especialização em desconstrução de diagnósticos para desmedicalização”.

Atualmente já são  quase 500 tipos descritos de transtornos mentais  e de comportamentos, segundo o Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais.  Coisas normais da vida como a timidez, a teimosia, ou até mesmo a rebeldia infantil, estão sendo enquadradas em algum tipo de transtorno. É a normalidade e as diferenças individuais sendo medicalizadas.

Sabotadores da infância

Precisamos fomentar este debate em prol da saúde da criança e  enfrentar cada um dos sabotadores da infância de frente. Sopre esta semente ao vento, há de cair em solo fértil e tornar-se árvore frondosa. Participe deixando seu comentário e compartilhando este artigo.

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado