DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

Analisando o cenário atual da Educação Infantil, a sociedade faz um apelo: devolvam o tempo do brincar na Educação Infantil. Não podemos aceitar as recentes mudanças impostas pelo MEC de escolarização da Educação Infantil. Leia aqui.

Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, na escola, na rua, com amigos da vizinhança, com primos, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, andando de bicicleta pelo bairro, e assim  descobrindo e explorando o mundo.

Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções e histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, amarelinha, casinha, médico, professora, etc… Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirasse do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida na pré-escola e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

 

POR QUE TANTA PRESSA EM ALFABETIZAR AS CRIANÇAS?

Crianças de 4, 5 anos, ainda ávidas por correr, pular, girar, são requisitadas para atividades cognitivas que exigem um corpo estático e destreza em habilidades ainda em desenvolvimento na criança, como a coordenação motora fina. Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, fala que “A criança aprende o mundo com todo seu corpo, não  apenas com os dedos de uma mão”.
DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Autoridades escolares diminuíram o intervalo do recreio para criar espaço para mais conteúdo curricular. Em algumas escolas as crianças não podem mais correr. Com isso os consultórios de psicologia estão cada dia mais cheio de crianças com problemas de falta de concentração, ansiedade, e vários transtornos.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

 

AFINAL, O QUE É A ALFABETIZAÇÃO? 

Paulo Freire sempre advertiu que alfabetizar é antes de mais nada conscientizar. Ele falava da conscientização do “mundo vida”, onde a criança vive, onde ela se encontra e o que a rodeia. Dizia que primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras”.

Em outras palavras é o que fala também a jornalista especialista em neurociências e neuropsicologia Michelle Müller: “Antes de generalizar o aprendizado das palavras ou apressar a alfabetização, é preciso ter em mente que a leitura de mundo dos pequenos acontece de muitas maneiras. Um bebê, por exemplo, lê com o corpo, com os ouvidos, com as mãos, a partir da exploração tátil, sonora e visual das coisas.

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O psicolinguista colombiano Evelio Cabrejo Parra, explica que “o bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que ele está tratando de construir significado à sua maneira”.  Parra defende que desenvolvemos a linguagem desde bebês, e vê  a ‘alfabetização’ como um processo sutil anterior à fala e à escrita, que tem início por meio da escuta.

A experiência dos finlandeses, que não começam uma instrução formal de leitura antes de 7 anos de idade, revela que “a base para o início da alfabetização é que as crianças tenham atenção e ouçam … que elas tenham falado e conversado, que as pessoas tenham discutido [coisas] com elas … Que elas tenham feito perguntas e recebido respostas”.

 

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Leia também: Por que não alfabetizei meus filhos antes dos sete anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

 

 

Beatriz Gayotto, pedagoga pelo Instituto Singularidades, e professora de Ensino Fundamental do Estado de São Paulo, adverti  que “o enfoque do trabalho da Educação Infantil deve ser a socialização da criança, o desenvolvimento das habilidades de ouvir, de se expressar e de negociar. A Educação Infantil deve aumentar os horizontes culturais das crianças, resgatar as canções, histórias e brincadeiras que elas conheceram em casa e ampliar seu repertório com o dos colegas e com aquele que a professora apresenta, tanto da cultura regional como da mundial”.

FATORES QUE FAVORECEM O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO 

  • Habilidades motoras e domínio espacial, adquirido na exercitação do correr, saltar, rodar, equilibrar-se em troncos de árvores, perna de pau, trepa-trepa, etc…
  • Interação social, conquistado pelas brincadeiras e jogos em grupos, em casa e na escola
  • Expressão oral, saber dialogar, contar uma história, facilitado por repertório de canções, histórias, versos, parlendas, aprendidos em casa, na escola
  • Escuta, exercitado por ouvir histórias em casa, na escola
  • Registros de ideias e vivências artísticas por meio de desenhos, pinturas e colagens
  • Saber contar os números, exercitado nas brincadeiras de esconde-esconde, pular corda, nas compras com a família, na cozinha com os pais no preparo de receitas culinárias, etc…
  • Autonomia no cuidado pessoal e de seus pertences
  • Internalização de rotina e ritmo

 

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Na contra mão da aceleração…

especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Um dos grandes aliados da criança na primeira infância, como força de aprendizagem, é o brincar livre. Entretanto, infelizmente na sociedade contemporânea o brincar livre está em declínio, as novas gerações estão sendo privadas deste tempo e espaço de brincar.  Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar das crianças e seus prejuízos.

Brincar é substrato para a vida,  é o motor da infância que garante a potência para a vida adulta. Brincando  a criança desenvolve competências que serão requisitadas mais tarde nas relações interpessoais e de trabalho. Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. Ele é essencial para o desenvolvimento infantil integral e saudável, e segue tendo sua importância ao longo da vida adulta, porque afinal somos seres lúdicos.

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

O brincar tem origem na curiosidade e necessidade de exploração da criança para construção do seu próprio mundo, sua identidade, a imagem de si e a compreensão do mundo que a cerca. Ele ensina tudo o que os pequenos precisam aprender sobre a dinâmica interna e estrutura do seu próprio corpo. Quando brinca a criança está inteira na brincadeira, pois brinca com todo o seu ser. Brincando ela experimenta o estado de flow, e assim desenvolve a capacidade de concentração, necessária para o processo de alfabetização.

Quando meus filhos tiveram que ir para escola, optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais. Conto minha experiência em detalhes aqui.

Quando compartilhei minha história com os leitores do Educando Tudo Muda, dezenas de pais e educadores se manifestaram, expressando suas angústias e inquietações por meio de comentários no blog e nas redes sociais. Vale a pena ler esses comentários, como o da mãe Viviane Silva, e da professora Grace Vania Loguercio Budke:

“Oi Ana….amei seu texto sou estudante de pedagogia e tenho 2 filhos um 7 anos completos e outra com 5 anos, ambos estudam em escola pública e na escola pública o ensino vem mudando por exemplo os professores de EMEI agora que é o pré não precisa mais iniciar a alfabetização, tudo para deixar a criança brincar porém vem o estado e muda tudo, pq agora a criança inicia no ensino fundamental com 6anos, não tive problemas com meu filho pois faz aniversário em Maio então entrou no primeiro ano com 7 anos completos, mas já estou mega triste pois minha filha vai para o ensino fundamental com 6 pois ela faz aniversário em dezembro como completa 7 no ano seguinte já vai para o primeiro ano, eu acho tudo mais precoce nela, mas na alfabetização é bem claro q ela não está madura o suficiente, meu filho quando saiu ja estava lendo pequenas palavras mas isso foi sendo progresso dele sozinho, ir juntando as letrinhas q ia aprendendo, mas ele já estava para completar 7 anos, o que ainda não acontece com a minha filha ela ainda não despertou esse interesse pq não está na idade certa ainda, vai ser forçada a aprender e se alfabetizar 1 anos antes sem necessidade. Falei com a escola, pra ela ficar mais 1 ano na EMEI e isso não é possível, devido a demanda e tb pq a lei é essa agora, o primeiro ano é considerado a iniciação e ela está apta. Enfim, triste mas é a nossa realidade”.

“Sempre me questiono… Por quê alfabetizar antes dos sete anos??? Como professora presenciei angustiada a frustração de alunos imaturos e com sérios problemas de  relacionamento com o mundo exterior, por terem deixado os anos lúdicos por compromissos e hora para brincar. O bum!!!! Disso tudo se dá na pré adolescência lá pela quinta ou sexta serie. A desculpa de pais ansiosos é que hoje os pequenos já dominam a era digital!!!etc,etc. Que hoje é diferente. Sim, mas para eles antes dos 7 anos tudo ainda é brinquedo, sem compromisso , horário e confinamento de sala de aula”.

É preciso questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, respeitando as etapas de seu desenvolvimento. Tudo a seu tempo.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12 Comments

  1. Responder

    Ana Lucia

    25 de julho de 2017

    Crianças de 5 anos agem como crianças de 5 anos! Talvez umas mais centradas em seu ego do que outras, mas sim essa fase ainda é bem egóica. Determinar que sejam alfabetizadas, contidas para tanto, antes do tempo é o que provoca as confusões e conflitos. Mas se o lugar delas desde muito novinhas é a escola, já que os adultos precisam desse recurso para empreender e garantir o sustento, pq não aproveitar pra empurrar à elas umas letras e números? Pq esse não é o interesse central nessa fase de vida, pq o interesse central são elas mesmas e pq só assim entenderão de si, logo do outro e do espaço que as acolhe. (Silvia Mb) – Comentário pelo Facebook

    • Responder

      Ana Lucia

      26 de julho de 2017

      Silvia, seu comentário é muito assertivo pois está centrado na natureza da criança, no respeito ao que ela é e na compreensão das etapas do desenvolvimento infantil. Se tomarmos isso como princípio norteador do processo educativo, teremos crianças menos estressadas e formaremos adultos mais saudáveis. Grata por sua participação.

    • Responder

      Carnaúba

      8 de setembro de 2017

      De fato a coisa é séria, é preciso brincar por brincar e também observar com registro este brincar. Temos hoje professores sem perfil ocupando salas de fase, sem paciência com aulas sem criatividades , quando tem um parque ou um monta monta, massa de modelar é o máximo. Tem muito o que se repensar. Isto sem falar na alfabetização . Aí a coisa fica pior ainda. O quadro não é os dos melhores. Lamentável !

      • Responder

        Ana Lucia

        8 de setembro de 2017

        De fato é lamentável a crise na educação brasileira e a falta de investimento em todos os níveis. Mas é possível encontrar educadores comprometidos e dedicados, à estes nosso reconhecimento e gratidão. Agradecemos sua participação Eliane. Abraço

  2. Responder

    Soellyn

    26 de julho de 2017

    Adorei o texto concordo que o brincar e extremamente importante e fundamental para o desenvolvimento da criança! Algumas escolas não são focadas nisso, querem alunos robôs, que seguem regras, que não corram, nao gritem,etc.. e tbm a muitos pais que só pensam se seus filhos estão lendo! Sou professora a 6 anos e tive na problemas com pais do infantil que queriam apenas saber o porque não foi tarefa….reclaman pq o filho brinca demais como se a escola fosse importante apenas para alfabetizar e não para o desenvolvimento da criança em vários aspectos!

    • Responder

      Ana Lucia

      26 de julho de 2017

      Infelizmente a pressa pela alfabetização vem também dos pais, mas acredito que isso ocorra por falta de conhecimento sobre a essência da criança da primeira infância e suas etapas de desenvolvimento. Se houvesse mais esclarecimento a este respeito, os pais se sentiriam mais seguros do processo educativo, você não acha? Grata por suas observações Soellyn. Continue com a gente. abraço carinhoso

  3. Responder

    cleusa santos

    26 de julho de 2017

    Criança Tem que ser criança brincar e nquanto pode, correr, cair, levantar.
    Tá errado entrar na escola cedo acho injusto.
    Estão roubando o direito de ser feliz.
    Fico indignada com esse novo método de ensino.

    • Responder

      Ana Lucia

      26 de julho de 2017

      Somos tantos enxergando que a criança precisa ser respeitada e sabendo que este caminho que nos está sendo imposto não é saudável! Acredito na força e inteligência desse coletivo e que se nos mobilizarmos teremos resultados satisfatórios. Agradeço sua participação. Continue nos acompanhando. abraço carinhoso

  4. Responder

    Sandra Inês

    28 de julho de 2017

    Linda Matéria, como gostaria que todos tivessem a oportunidade de ler este conteúdo . Tudo aqui fica tão claro e as as pessoas que não conseguem ver as crianças como crianças pudessem ler e entender, seria tão bom . Sou coordenadora de Educação infantil em um CEI e la temos esta visão e este olhar . Ana Lucia vc e é a formadora do Avisa La? Tivemos por um bom tempo a Ana Lucia do Avisa La em nosso CEI. Estarei por aqui acompanhando esta matéria . E Parabéns .

    • Responder

      Ana Lucia

      28 de julho de 2017

      Grata por sua participação Sandra. Muito bom ter você conosco. Fique a vontade para compartilhar suas experiências. À propósito, sou outra Ana Lúcia. Abraço carinhoso

  5. Responder

    Flávia Andrea Carneiro Rodrigues

    6 de setembro de 2017

    Parabéns perfeita sua matéria, Fico arrasada quando ouço responsáveis dizerem que vão tirar os filhos da EI pois ali eles só brincam e não aprendem nada, sinto que é um trabalho de formiguinha. Pior ainda quando precisamos cercear a essas cr9ianãs o direito de brincar pois a escola é de um lado a UPP e do outro o trafico e por conta dos conflitos constantes não podemos ir com eles nas áreas externas temos que improvisar nos corredores é muito triste.

    • Responder

      Ana Lucia

      6 de setembro de 2017

      Você falou muito bem, é trabalho de formiguinha. Tenho visto muitos educadores da EI defendendo o direito da criança aprender brincando, o direito de brincar livre. Triste realidade esta da violência que cresce a cada dia. Parabéns pela garra. Grata por sua participação. Abraço

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