Browsing Category

Educando

INFÂNCIA AMEAÇADA – O QUE VEM ADOECENDO AS CRIANÇAS? ALERTA À SOCIEDADE AOS DESAFIOS DA PRIMEIRA INFÂNCIA

Infância ameaçada

 

Infância ameaçada – um alerta à sociedade. O que vem adoecendo as crianças? O cenário atual da Primeira Infância apresenta muitos desafios para toda a sociedade.

A Infância vive um momento de grande complexidade e se encontra no centro das incertezas desta época, expondo as crianças precocemente às mesmas angústias que os adultos estão sujeitos.

As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram de forma considerável a estrutura da vida familiar e seus reflexos podem ser observados nitidamente na vida da criança.

 

Infância ameaçada

Os hábitos cotidianos transformaram-se significativamente, modificando o ritmo e a rotina dos pequenos, com estilos de vida mais individuais, sedentários, que desfavorecem o convívio social, atividades físicas, o exercício imaginativo, e a autonomia infantil.

A crescente urbanização, associada ao medo pelo aumento da violência, ergueu muros, produziu isolamento e contribuiu para uma cultura de confinamento.

Além disso, valores da sociedade de consumo tomaram conta do universo da criança, que exposta intensamente a conteúdos de natureza mercadológica e seduzida por apelos do mundo moderno com suas novas tecnologias, vê seu tempo e espaço lúdico invadido e reduzido.

No mundo da criança, a tecnologia passou a ocupar um lugar de destaque. As telas estão roubando um tempo precioso da criança – o tempo do  brincar, uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil em todos os aspectos, físico, emocional, cognitivo, social e espiritual.

Infância ameaçada

Foto: Shutterstock

E mais, a cultura escolar atual com seus testes, ranqueamentos e índices, tem sido a causa de grande ansiedade para as famílias e crianças.

A consciência intelectual adulta que é hoje imposta, sob pressão, na Primeira Infância, vai contra a natureza da criança. É desrespeitosa ao desenvolvimento integral infantil, isto é : o desenvolvimento intelectual, emocional , social e cultural.

A infância pede tempo e espaço para a ludicidade, a fantasia e imaginação. O aprendizado nesta fase se dá por meio de interações sociais afetivas e no contato com o mundo natural.

Onde poderá desembocar uma infância pobre em interações sociais, pressionada precocemente pelo sucesso acadêmico e competição, e ainda exageradamente tecnológica?

 

 

Leia também: SABOTADORES DA INFÂNCIA – DA ESCASSEZ AO EXCESSO

 

 

INFÂNCIA AMEAÇADA

O modus vivendi da sociedade contemporânea com seus excessos, vem adoecendo as crianças, a infância está ameaçada. Querem cedo demais tirar a criança do seu tempo e espaço natural de desenvolvimento. Querem cedo demais intelectualizar, adultizar, atrofiar os sentidos, limitar a curiosidade e vontade da criança de explorar e vivenciar o mundo livremente, empobrecendo assim sua imaginação e criatividade.

O que estamos fazendo com a infância?

Infância ameaçada

Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu em setembro do ano passado em Calgary – Canadá, revelam que a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60, os transtornos de ansiedade entre as crianças cresceu até 18 vezes e as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores. Ao mesmo tempo, o brincar livre das crianças vem diminuindo significativamente desde 1955. Tudo isso indica que a infância está ameaçada.

 

O que podemos fazer para promover mudanças?
Qual a nossa responsabilidade perante essa geração de crianças estressadas? Que futuro estamos projetando para elas?

O crítico social americano, Neil Postman (1931-2003), em seu livro O desaparecimento da Infância, publicado originalmente em 1982, analisa o cenário social da época e profetiza os rumos assustadores da infância a partir da conexão da infância com a comunicação. Postman aponta as condições niveladoras do acesso a informações entre adultos e crianças, cada dia mais intensa, como um dos responsáveis pelo desaparecimento da infância e diz

“Se despejarmos sobre as crianças uma vasta quantidade de material adulto da pesada, a infância não poderá sobreviver”.

Não é o que temos feito? Este livro é leitura obrigatória para quem deseja se aprofundar nas questões sociais da infância.

 

UM CONVITE

Somos muitos preocupados com este cenário, o que nos confere poder para defender essa causa e batalhar pelo direito da criança viver sua infância sem opressão.

Convidamos pais, educadores, e  profissionais das mais diversas áreas que lidam com a Primeira Infância e que estejam nessa mesma inInfância ameaçadaquietação,  a  se juntar  a nós.

Temos a responsabilidade de desenvolver uma consciência que entenda a cultura da infância como uma etapa particular do processo de iniciação do humano, de forma a garantir a sobrevivência de nossa espécie. Nossa capacidade de viver neste planeta depende de soluções inovadoras e do olhar atento ao começo da vida, à garantia da saúde da Infância.

Compartilhe este texto e deixe seu comentário para que possamos refletir sobre mudanças que favoreçam a vida das crianças na atualidade.

Entre em contato com o Educando Tudo Muda caso sua escola ou comunidade tenha interesse em nossas palestras a respeito desse  tema.

Infância ameaçada – conscientizar e questionar, eis os  primeiros passos para quebra de paradigmas e transformação do mundo.

 

Abraço esperançoso

Ana Lúcia Machado

 

 

MEMÓRIAS DE INFÂNCIA – FONTE DE VIDA

memórias de infância fonte de vida

 

memórias de infância força da vidaMemórias de infância, você conhece o poder que elas tem? São fonte de vida.

A infância é o período no qual edificamos as bases que sustentarão tudo o que virá depois – chão firme que apoiará todos os passos. É também um fase mágica, onde o brincar e a imaginação constroem memórias afetivas cheias de significado que irão perdurar por toda a existência.

Engana-se quem pensa que o começo da vida é uma etapa que fica para trás depois que viramos adultos. É um ciclo vivo, que volta, e se renova. Ecos da criança que fomos continuam a ressoar dentro de nós no decorrer da vida.

Nas palavras do romancista Franz Hellens

A infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos

 

São essas memórias que trazem alento e vitalidade na fase adulta. Recordações pueris que representam refúgio nos momentos mais difíceis da trajetória humana.

memórias de infância fonte de vida

Além disso, acessar as memórias de infância é sinônimo de renovação, energia e criatividade. Reconectar-se com a criança interior auxilia no relacionamento e educação dos filhos. No caso de profissionais que lidam com crianças, contribui para a formação de vínculos e compreensão sobre o universo infantil.

O nascimento de uma criança é momento de renascimento dos pais. Temos diante de nós, nossa própria concepção. Ao olhar a criança, descobrimos a nós mesmos, como uma imagem refletida no espelho.

Quando a criança nasce, o ser mãe, e o ser pai, nascem juntos. À medida que o bebê vai crescendo, amadurecemos e nos desenvolvemos na qualidade de pais.

 

Memórias de infância como aliadas

As memórias de infância são grandes aliadas no processo de educação dos filhos. Elas dão energia e ao mesmo tempo nos tornam mais sensíveis ao universo infantil, por nos aproximar da essência da criança.

Enquanto os filhos crescem, temos a nossa frente oportunidade de viver de novo a própria infância. É um período rico de crescimento para os pais, uma vez que a maternidade e a paternidade são uma construção contínua.

Recordar a infância nos permite reviver sentimentos potentes que ajudam na tarefa desafiadora de educar. A intuição é ativada por esses sentimentos que emergem das profundezas, nos tornando mais confiantes.

 

Leia também:

DE QUE É FEITA A INFÂNCIA?

SABOTADORES DA INFÂNCIA

 

 

Mais do que dicas de livros que sugerem como agir com os pequenos,  o que realmente precisamos é nos ancorar na sabedoria que carregamos dentro de nós por meio das próprias experiências como adultos e vivências infantis.

memórias de infância fonte de vida

Podemos afirmar que as memórias de infância tem a função de guardiã e facilitadora  da infância dos filhos.

Nesta trajetória de volta ao começo é possível descobrir a existência de uma memória imaginária, livre da rigidez de fatos reais na linha do tempo, pois a infância ultrapassa esses limites e avança para uma memória reinventada, à medida que aquele que recorda não é mais o mesmo que vivenciou as experiências.  O vivido, o sonhado e imaginado se fundem, fazendo renascer a força da infância – uma força a favor da vida.

Passear por quintais de outras infâncias também pode trazer muito vigor e instigar um repertório lúdico para ser exercitado com as crianças. É uma forma de nutrir o olhar, aumentar a capacidade de escuta e assim desfrutar de ótimos momentos em família. Há excelentes livros de autores que se debruçaram sobre o relato de suas memórias de infância. Mas esse é assunto para outro artigo.

 

Ana Lúcia Machado

abraço carinhoso

 

 

 

COMO TORNAR-SE PROFESSOR NOTA 10 E CONCORRER AO NOBEL DA EDUCAÇÃO EM 7 LIÇÕES

Professor nota 10 Nobel da Educação

 

Como tornar-se Professor  Nota 10 e concorrer ao Nobel da Educação – eis as lições que o brasileiro finalista ao Global Teacher Prize tem a ensinar em 7 lições.

Passei a semana pesquisando e lendo todas as entrevistas concedidas pelo brasileiro Diego Mahfouz Faria Lima – finalista ao Global Teacher Prize de 2017 – com o intuito de absorver as lições que sua trajetória como educador tem a ensinar aos professores brasileiros que desejam fazer diferença no atual cenário da Educação em nosso país.

Professor nota 10 Nobel da Educação

Foto: The Global Teacher Prize

Mas antes  é preciso explicar que o Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação, é um dos maiores prêmios para professores  que reconhece trabalhos de excelência na Educação Básica do mundo todo;  concedido desde 2015 às iniciativas dos docentes que causam impacto na aprendizagem dos estudantes e também na comunidade.

Concorrem apenas educadores que tenham atuado na Educação Básica com alunos entre 5 e 18 anos.  O objetivo é destacar a relevância dos professores, reconhecer seus esforços, disseminar ações diferenciadas e incentivar a busca pela qualidade na Educação.

Diego Mahfouz conquistou  o Prêmio Educador Nota 10, uma das maiores honrarias que um educador pode receber no Brasil e é agora um dos 10 finalistas ao Global Teacher Prize.

 

A conquista de Diego pode ser vista como exceção ou indica um novo tempo para a Educação no Brasil?

Vale ressaltar que Diego tem 30 anos, 14 dos quais dedicados à Educação. Na qualidade de estudante do magistério, disse que ficou encantado ao ver as crianças pequenas chegando sem saber ler e escrever e saindo alfabetizadas. Esse processo foi o que o despertou para a área.

Sua trajetória é marcada por muita dedicação, trabalho exaustivo e superação de desafios. O que sempre lhe rendeu novos convites para voos mais altos – da sala de aula para a coordenação pedagógica.

Professor nota 10 Nobel da Educação

Foto: Gestão Escolar

Como mostrou capacidade de gerenciar tanto o pedagógico quanto o administrativo, logo chegou à vice-direção, e na sequência à direção de uma das escolas com fama de ser uma das piores da região: violência, alunos armados, tráfego de drogas, paredes queimadas por fogo, banheiros sem vasos, salas sem portas, etc.

Num cenário desolador, Diego assumiu atitude de protagonista das mudanças que sempre desejou ver na Educação brasileira. Virou o jogo. De 60 alunos suspensos por semana, reduziu este número a 0.  Diminuiu a evasão escolar de 200 alunos para 2.

 

Qual o segredo da transformação ocorrida na Escola Municipal Darcy Ribeiro de São José do Rio Preto (SP), sob a direção de Diego Mahfouz?

Ele revela que foi  por meio de uma gestão participativa e democrática, com mediação de conflitos entre pares, tutoria, mudança no modelo de avaliações, projetos extra-curriculares e atividades aos finais de semana, que ele virou esse jogo.

Com o engajamento de toda a comunidade –  famílias, alunos, professores e funcionários, foi possível a revitalização do espaço físico, das relações, a transformação do olhar para a aprendizagem, e da maneira de lidar com indisciplina.

Diego diz que

“Um diretor sozinho não consegue administrar e gerir uma escola. Sem apoio dos envolvidos não se gera identidade perante a comunidade, indo além dos muros da escola. O ponto da virada acontece quando o medo vira pertencimento”

 

Vamos às lições que esse Educador Nota 10 tem a ensinar

 

Lição 1

Promover a mudança no olhar da equipe, dos alunos e da comunidade externa e engajá-los no sonho de ser uma escola melhor para todos

Lição 2

Conhecer a comunidade, suas necessidades, anseios, medos. Ter interesse real por ela, promovendo a escuta por meio de pesquisa – questionário simples, e conversas.

Lição 3

Engajar a comunidade e torna-la parceira

Lição 4

Dar voz aos alunos e permitir que sejam protagonistas

Lição 5

Exercício do diálogo, da comunicação não-violenta

Lição 6

Mediação de conflitos

Lição 7

Gestão democrática com instituição de assembleias e Grêmio estudantil

 

Resta agora estudar cada lição e coloca-las em prática.

Acesse AQUI a entrevista do diretor concedida a Laís Semis do site Gestão Escolar.

Há excelentes professores na Educação Básica no Brasil, educadores dedicados que sentem satisfação em ensinar e despertar a alegria em aprender. Entretanto sabemos dos enormes desafios na Educação brasileira – baixo salários, desvalorização da carreira, precariedade da infraestrutura, etc.

 

Leia também: PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

 

Todavia, a despeito do cenário desfavorável, professores e professoras precisam assumir atitude pró ativa e promover profundas mudanças nas comunidades em que vivem.

Que possamos aproveitar os bons ventos que sopram,  e perceber o momento oportuno de mudanças nos inspirando no exemplo das ações do Diego e em suas palavras:

Professor nota 10 Nobel da Educação

Foto: Nova Escola

 

“Apesar de todas as dificuldades que encontramos no dia a dia do professor, temos que lembrar que nossa profissão é capaz de transformar vidas e todo seu entorno e precisamos assumir o papel de agente transformador”

 

 

 

Parabéns Diego, estamos torcendo por você nessa reta final.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

BRINQUEDO COLETIVO – UM BRINQUEDO PARA CHAMAR DE NOSSO

 

Acompanhe a surpreendente história de um brinquedo coletivo numa noite de Natal – um brinquedo para chamar de nosso, um presente para todos.

Já fui criança e sei bem o quanto é difícil dividir os brinquedos com os irmãos, primos, e amiguinhos. Para a criança “tudo é meu”, não é mesmo?

brinquedo coletivo

A dificuldade em dividir na maioria das vezes começa por volta de 1 aninho. Tem seu ápice aos 3, e espera-se que em torno de 6 anos,  a criança já saiba  compartilhar, tornando-se um ser cada vez mais sociável.

Apesar de conhecedora dessa faceta infantil, no final do ano fui tomada pela ideia de comprar de presente de Natal para meus 8 sobrinhos pequenos, um único presente, um presente que pudesse ser compartilhado entre eles –  um brinquedo coletivo.

 

E foi assim que depois de pensar e pesquisar, cheguei ao presente ideal: um quebra-cabeça de madeira. Escolhi o quebra-cabeça da história da Arca de Noé e acrescentei ao pacote um livro apaixonante de Mariana Caltabiano chamado Arca de Ninguém, onde a autora faz uma releitura divertida dessa história bíblica. Sou fã desse livro que relata as dificuldades que Noé enfrentou ao tentar convencer os animais a entrar na arca.

 

Na noite de Natal

Brinquedo coletivo

reuni a minha volta todos os sobrinhos para a entrega do presente.  De frente àqueles olhinhos brilhantes, disse  que aquele brinquedo era de todos eles e fui citando cada nome.

Expliquei que por ser de todos,  o brinquedo coletivo ficaria um pouco na casa de cada um e que eles deveriam ter muito cuidado para conservar o brinquedo afim de que nenhuma peça se perdesse.

Disse ainda que pedissem ao papai e a mamãe para brincarem junto com eles,  ajudando-os na montagem do quebra-cabeça e lendo o livro. E ao final da noite, sorteamos uma criança para levar o brinquedo coletivo para casa.

 

 

 

Semanas atrás fui surpreendida com esse vídeo compartilhado no grupo de WhatsApp da família. É minha sobrinha, a mais velha da turma – 5 e 1/2 anos, fazendo o sorteio da temporada seguinte do brinquedo. Foi então que percebi o quanto a ideia deu certo. Há entusiasmo e alegria em sua fala, olhar e gestos quando ela diz:

– Oi primos, vamos fazer o sorteio do brinquedo compartilhado?

Lindo não é mesmo? Confesso que fiquei emocionada, e respondi ao grupo do WhatsApp:

 

-Vá brinquedo, vá. Vá brinquedo coletivo fazer outra criança feliz! Vá brinquedo compartilhado acolher outros sorrisos, juntar outras famílias num ritual de alegria e amor. Vá ser cuidado por outras mãozinhas, e fazer parte da memória de outras infâncias.

 

 

brinquedo coletivo

NOVOS TEMPOS

Vivemos um tempo de muitas mudanças. Um tempo em que a posse está se tornando menos importante que o acesso. O compartilhamento de bens de consumo tem se popularizado, transformando completamente o mercado, a economia.

Temos muito a aprender com as crianças sobre o valor do compartilhamento. Elas estão abertas a um mundo colaborativo, um mundo onde o “é nosso” tem mais valor do que o “é meu”.

 

Que possamos nos entusiasmar por essa ideia e entrarmos de cabeça nesses novos tempos!

Se quiser se divertir com a história da Arca de Ninguém, fica aqui o link para você adquirir o livro. Vale a pena a leitura!

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

5 LIVROS QUE TODO EDUCADOR DEVERIA LER NAS FÉRIAS – O 3º É MEU FAVORITO

5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito

 

Corra, ainda dá tempo de saborear um dos 5 livros que todo o educador deveria ler nas férias -o 3º é o meu favorito. Você vai saber a razão.

Ler é transformador e libertador, é como um encontro com um velho amigo, recheado de lembranças reavivadas, revisões, e também descobertas. Ao mesmo tempo, é mergulho em si mesmo, é contemplação de um horizonte, é sair de si e enxergar o mundo sob outra perspectiva.

Ter nas mãos o livro desejado, apreciar sua capa, espiar devagarinho as primeiras palavras, folhear as páginas em toque acariciante, respirar fundo o cheiro do papel.

Leitura é ritual sagrado. É devorar com apetite a narrativa alheia; é invasão, permitida, de privacidade com a possibilidade de complementação com imagens próprias. É também deixar-se invadir.

Sem pudores, ao ler, destaco frases, às vezes parágrafos inteiros, sublinho palavras. Como que gritando para mim verdades ocultas, vou anotando sentimentos na tentativa de apreender insights.

Ler é lambuzar-se, é contaminar-se de novas ideias, é se deixar levar, transformar. As palavras são vivas e ao recorrer a um livro na prateleira amarelado pelo tempo, não sei mais distinguir os limites do território, até onde sou eu, até onde é o outro.

 

O destaque aqui é para 5 livros que todo educador deveria ler nas férias

As publicações selecionadas são de extrema sensibilidade, revelam o olhar inaugural da infância. Trazem  vigor e compreensão  a respeito da essência da criança e suas verdadeiras necessidades.  Trata-se de um mergulho em águas revitalizantes, pois à medida que adentramos no quintal de outras infâncias, nos reencontramos com a criança que nos habita.  Aproveite as férias e boa leitura

 

5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito

1º) Quando eu era menino, Rubem Alves

Este livro é um passeio gostoso pela infância desse ilustre teólogo e educador. Num tom de uma boa prosa mineira, somos introduzidos num  tempo em que nada se comprava pronto, as mãos humanas eram hábeis na feitura de tudo: pão, roupa, brinquedo, etc. No relato sobre como as coisas eram feitas no seu tempo de menino, o autor nos permite sentir  a riqueza existente na vivência dos processos.

No decorrer das muitas crônicas aqui reunidas, somos estimulados a percorrer nossas próprias lembranças, e perceber que a curiosidade e ânsia por conhecer o mundo,  é da natureza da criança de todos os tempos.

 

 5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito

2º) As pequenas memórias,  José Saramago

Alinhavando lembranças de infância e adolescência, José Saramago resgata as paisagens verdejantes, rios, histórias familiares, personalidades marcantes que influenciaram a sua. Nessas histórias estão também os fantasmas imaginários que atormentaram sua infância.

No retorno às pequenas memórias – o começo da vida, o autor revive sensações, medos, alegrias, humilhações,  consciente que este cenário foi o pano de fundo do seu próprio enredo.

 

 

 

5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito 3º) Memórias Inventadas  A Infância, Manoel de Barros

Manoel de Barros será sempre um  poeta-menino deslumbrado com as miudezas e simplicidades do mundo, a encantar-nos com suas primeiras  memórias. A cada conto, o autor reafirma a importância da imaginação na primeira etapa da vida.

Suas memórias foram plasmadas pela intimidade com o mundo natural, e chega a nos surpreender a capacidade do menino de comungar com a natureza ao ponto de fazer-se rio, pássaro, árvore. Para ele tudo tem vida – pedras, plantas, animais –  e ele  percebe a interdependência entre os seres viventes. É o mundo vida apresentado com reverência e sentimento de pertencimento.

 

Leia também: Como fazer do meu filho um futuro leitor 

 

5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito

Quando eu voltar a ser criança, Janusz Korczak

Um clássico, escrito pelo médico e educador Janusz Korczak. É a autêntica e genuína pedagogia da escuta. Poucos educadores ao longo da história foram capazes de demonstrar tamanho conhecimento da alma da criança como o Dr. Korczak, além de amor e respeito a ela.

Neste livro, o autor volta a ver o mundo com olhos de uma criança e como tal revive sensações, tristezas, desencantos de um mundo feito, pensado e controlado por adultos, tornando-se potente porta voz da infância.

Dr. Korczak dedicou sua vida as crianças. Por ser judeu, foi confinado no Gueto de Varsóvia durante a ocupação dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Teve a oportunidade de fugir com documentos falsos, entretanto recusou para ficar com as crianças até o fim, quando foi deportado, junto com cerca de 200 crianças e outros educadores, para o campo de extermínio de Treblinka, onde foi assassinado.

 

 

5 livros que todo educador deveria ler nas férias - o 3º é meu favorito

 

5º Retratos da Infância na poesia brasileira, Marcia Cristina Silva

Lançado o ano passado, este livro é um presente para os amantes da poesia e da infância. Trata-se de um panorama da infância por meio da poesia brasileira, desde o Romantismo até os dias atuais.

Um passeio pelas paisagens de infância de grandes poetas: a de Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Adélia Prado, entre outros. É uma recriação da infância através da poesia.

 

 

 

A FORÇA DA INFÂNCIA

Acessar as lembranças de infância traz renovação, energia  e criatividade. Reconectar-se com a criança interior, auxilia no relacionamento e educação dos filhos, na compreensão e vínculo com alunos.

Nessa trajetória podemos descobrir que existe uma memória imaginária que devemos explorar,  sem a necessidade de ater nos a fatos reais na linha do tempo.

 A infância ultrapassa esses limites e avança para uma memória reinventada, pois aquele que recorda não é mais o mesmo que vivenciou tudo aquilo. O vivido, o sonhado e imaginado se fundem, fazendo renascer a força de nossa infância.

 

Vamos lá, aproveite para ler nas férias!  E quando as aulas começarem, continue lendo. Leitura é para o ano todo, não é mesmo?

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

SOMOS SERES DE INSATISFAÇÃO

Somos seres de insatisfação

Somos seres de insatisfação – essa é uma das características do ser humano apresentada por Mario Sergio Cortella*, em Por que fazemos o que fazemos?, onde o autor propõem inúmeras questões sobre o sentido da vida e a condição humana.

A energia do começo do ano é também grande impulsionadora de reflexões e ajustes importantes. Para enriquecer essas reflexões, nada como a leitura de um bom livro.

Em Por que fazemos o que fazemos?, o autor cita o filósofo alemão Martin Heidegger, que  denomina essa característica humana de sensação do oco, angústia.  E para deixar bem claro o significado dessa angústia, que neste caso não é algo negativo, o autor traz o exemplo de um antigo joguinho infantil – um quebra cabeças, onde era preciso movimentar as pecinhas para formar uma palavra, frase, sequência numérica , ou até mesmo uma imagem. Para movimentar o jogo e ordenar as peças, de modo a formar uma sequência lógica, era essencial um espaço vazio, senão não havia movimento. Com esse exemplo simples, conclui-se que a lacuna interior no ser humano, sua sensação de vazio, é o que cria possibilidades, e liberdade ao ser humano.

Somos seres de insatisfação

Cortella  define o ser humano como “a capacidade de ter essa lacuna”, e alerta que uma vez preenchida esse vazio, o homem  desumaniza-se.  Segundo ele,  um nível de insatisfação é extremamente benéfico para nós, pois  impede o automatismo.

Essa característica humana foi ao longo do tempo sendo totalmente deturpada, e com isso criou-se a indústria do entretenimento, a sociedade de consumo, e as mais diversas distrações, assim como leis, moda, fantasias, tecnologias, medicamentos, etc… Tudo pensando em oferecer satisfação imediata ao ser humano, preencher a sensação de vazio existente. Cortella nos ajuda a refletir sobre a maneira que somos desumanizados, e mais, a maneira que o sistema usa para tirar nossa liberdade e nos escravizar, tornando-nos robôs.

 

Leia também: PRIMEIROS SINAIS DE ENVELHECIMENTO – COMECE A COMBATÊ-LOS

 

A sociedade está submetida a um sistema que tem por objetivo roubar o que temos de mais importante: a vida, a consciência e o tempo. Nossa cultura nos distrai a todo momento das coisas que realmente importam, vai criando tantas necessidades supérfluas, que nos afastamos cada vez mais do que é essencial para o ser humano. Deixamos de lado o verdadeiro sentido da vida. Perdemos com isso a sensação de vazio, pois somos estimulados constantemente a encher de coisas nossas lacunas.

Sim, somos seres de insatisfação e fazer dessa característica humana algo positivo, depende unicamente da forma como lidamos com nosso vazio. Que possamos valorizar nossas carências e entender sua importância para nutrimos nossa humanidade e assim celebrarmos a vida.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

*filósofo, e professor universitário brasileiro

ONDE INVESTIR EM 2018?

Onde investir em 2018?

 

O ano novo está aí, onde investir em 2018 diante de um cenário de tantas incertezas e turbulências? O mercado oferece várias alternativas de investimentos: ouro, ações, tesouro direto, bitcoin, etc.

Onde investir em 2018?

Entretanto há um investimento apontado por estudos recentes que mostram que investir nos primeiros anos de vida traz um alto retorno econômico e social. Como um estudo da Nova Zelândia publicado no final de 2016 que avaliou 1037 neozelandeses dos 3 aos 38 anos de idade, e que concluiu que os 20% de adultos que tiveram uma infância difícil, com restrições econômicas, descuido e negligência, foram responsáveis por 57% das internações hospitalares, 66% dos pedidos de benefícios sociais e 81% das condenações criminais.

Pesquisas revelam que o começo da vida, a Primeira Infância, tem um forte impacto na vida de um indivíduo e que o desenvolvimento saudável de uma criança, levando em conta  boa alimentação, cuidados com a saúde física e emocional, competências sociais e capacidades cognitivas, forma a base da prosperidade econômica e justiça social de uma nação.

O economista James Heckman, professor emérito na Universidade de Chicago e ganhador do Nobel de Economia no ano 2000, afirma que crianças submetidas desde cedo a bons estímulos, aumentam suas chances de ter mais sucesso na vida adulta e que investir na Primeira Infância é o caminho para o país crescer.

Entrevistado por Monica Weinberg,  da revista Veja, Dr. Heckman diz 

 

“cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano”.

 

Investir no capital humano é e sempre será o melhor investimento. A quantia gasta em educação e saúde, resultará em economia ao longo da vida, em serviço social e sistema prisional.

 

Onde investir em 2018?

Acompanhe os trechos principais da entrevista:

Por que os estímulos nos primeiros anos de vida são tão decisivos para o sucesso na idade adulta? É uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e tem um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável. As primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. Se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção. Por isso, defendo estímulos desde muito cedo.

Quão cedo? Pode parecer exagero, mas a ciência já reuniu evidências para sustentar que essa conta começa no negativo, ou seja, com o bebê ainda na barriga. A probabilidade de ele vir a ter uma vida saudável se multiplica quando a mãe é disciplinada no período pré-natal. Até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e isso será valioso para toda a vida. Infelizmente, é uma fase que costuma ser negligenciada — famílias pobres não recebem orientação básica sobre como enfrentar o desafio de criar um bebê, faltam boas creches e pré-escolas e, sobretudo, o empurrão certo na hora certa.

Qual é o preço dessa negligência? Altíssimo. Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade no mercado de trabalho, o que é fatal. Como economista, faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano.

Se isso é tão claro, por que a primeira infância não está na ordem do dia de quem tem a caneta na mão para decidir? Há ainda uma substancial ignorância sobre o tema. Algumas décadas atrás, a própria ciência patinava no assunto. A ideia que predominava, e até hoje pesa, é que a família deve se encarregar sozinha dos primeiros anos de vida dos filhos. A ênfase das políticas públicas é na fase que vem depois, no ensino fundamental. E assim se perde a chance de preparar a criança para essa nova etapa, justamente quando seu cérebro é mais moldável à novidade.

A classe política também evita olhar para a primeira infância por achar que esse é um investimento menos visível a curto prazo? Os políticos podem, sim, considerar isso, mas estão redondamente enganados. Crianças pequenas respondem rápido aos estímulos de qualidade. Para quem tem o poder de decidir, deixo aqui a provocação: não investir com inteligência nesses primeiros anos de vida é uma decisão bem pouco inteligente do ponto de vista do orçamento público. Basta usar a matemática.

 

onde investir em 2018?O que mostra a matemática? Vamos pegar o exemplo da segurança pública. Há ao menos dois caminhos para mantê-la em bom patamar. Um deles é contratar policiais, que devem zelar pelo cumprimento da lei. O outro é investir bem cedo nas crianças, para que adquiram habilidades, como um bom poder de julgamento e autocontrole, que as ajudarão a integrar-se à sociedade longe da violência. Pois a opção pela primeira infância custa até um décimo do preço. Recaímos na velha questão: prevenir ou remediar? Como se vê, é muito melhor prevenir.

Que tipo de política pública de primeira infância tem surtido mais efeito? O grande impacto positivo vem de programas que conseguem envolver famílias pobres, creches e pré-­escolas, centros de saúde e outros órgãos que, integrados, canalizam incentivos à criança — não só materiais, evidentemente. O programa americano Perry, da década de 60, é um exemplo clássico de que o investimento em uma boa pré-escola produz ótimos resultados.

Por que esse modelo é bom? Ele envolve ativamente os alunos em projetos de sala de aula, lapidando habilidades sociais e cognitivas, sob a liderança de professores altamente qualificados. A família mantém um estreito elo com a escola. Temos de ter sempre certeza de que a família está a bordo, qualquer que seja a iniciativa.

Não é irrealista esperar tanto de famílias que vivem na pobreza, como no Brasil?Um bom programa de primeira infância consegue ajudar a família inteira, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.

Acesse a entrevista completa aqui.

Estão todos convocados, governo, organizações, sociedade e famílias, a fazer este investimento em 2018.

Feliz ano novo!

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado