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INFÂNCIA PEDE CALMA. VAMOS DESACELERAR?

Vamos desacelerar?  A infância pede calma. O tempo da criança pede desaceleração. As crianças estão a todo o momento fazendo um convite para sairmos de nosso mundo duro e árido, sem tempo para a vida. Elas nos convidam a cada instante para bailarmos em suas cirandas de leveza, simplicidade e alegria.

de calma. Vamos desacelerar?

Imagem do acervo do Educador Roque Antônio Juaquim da Carretel Consultoria

Quem tem o privilégio de conviver com elas, sabe do que estou falando. Elas nos chamam para participar de suas brincadeiras e risadas. Convidam a cantar a vida, a contar histórias – nossas próprias histórias, que nos reaproximam de nossa criança interior.

Com seus apelos despretensiosos e insistentes, elas nos chamam a celebrar a vida. E muitas vezes somos surdos aos apelos. Quase sempre mostramos uma rigidez impenetrável. Amortecidos, acabamos por fazer movimento contrário: trazemos a criança ao mundo endurecido das horas que voam em afazeres infindáveis.

 

de calma. Vamos desacelerar?Assim, interrompemos suas cantigas de roda, inibimos suas perguntas curiosas. Segurando suas mãozinhas, as puxamos para o mundo adulto onde não existe tempo para o ócio, para um olhar demorado para as coisas corriqueiras que nos cercam no dia-a-dia – para observar a peregrinação das formigas carregadeiras, para apanhar uma flor no caminho, admirar um passarinho que pousa e tantas outras belezuras da vida, para descobrir a própria sombra projetada no chão em uma manhã ensolarada no quintal, ou jogar uma pedrinha na poça d’água do caminho.

Quantas vezes dizemos à elas:  -Anda logo, estou com pressa! Lembro uma ocasião em que depois de mais um dia longo e cansativo de trabalho, chamei meu filho que estava esparramado no chão da sala brincando, para escovar os dentes para dormir, depois de já ter chamado para o banho e para o jantar também. Ele parou a brincadeira, levantou os olhinhos, olhou bem para mim e disse: -Mãe, você só me chama para fazer as coisas! Uau! Aquelas palavras me disseram tantas coisas sobre a maneira que eu estava vivendo meus dias.

As crianças são presentes do céu, que nos cutucam, despertam e encantam. Precisamos respeitar o tempo da criança e desacelerar, estar junto, olhar na mesma direção e da mesma altura que elas, olhar nos olhos, escutar – permitir-nos entrar num tempo onde a calma e o vagar abrem espaço para a imaginação, onde o silêncio fantasia e o encontro acontece magicamente.

É Gandhy Piorski,  teólogo brasileiro, pesquisador da antropologia do imaginário e autor do livro Brinquedos do chão, quem nos diz que “imaginação querer espaço, folga, lugares de contemplação, devaneios, solidão, convívio, lugares desafiadores. Todas as coisas que tiram esse direito das crianças são excessos”.

 

A INFÂNCIA PEDE CALMA 

de calma. Vamos desacelerar?

A infância é curta demais para querer acelerar qualquer coisa. Que tal caminhar no tempo da criança? Mas que tempo é esse?

É um tempo que corre devagar, se esparrama feito água, flui lentamente. Infância é  tempo de encantamento, de descobertas, de explorar o mundo e principalmente fazer perguntas, levantar hipóteses.

Pressa não combina com a criança, a infância pede calma. As crianças não sentem a urgência que nos move a todo momento fazendo com que estejamos sempre preocupados com o que está por vir. Criança vive o presente, que demanda um tempo maior para ser desfrutado, para as vivências serem  introjetadas.

Pare e reflita um pouco na complexidade das agendas infantis hoje em dia.  Muitas crianças mantêm a agenda cheia, como de um executivo. Elas são levadas de um compromisso a outro, de segunda-feira à sábado. Suas agendas estão lotadas de cursos extracurriculares –  do balé para o inglês, mandarin, da yoga para o Kumon, e também  natação, judô, música, até mesmo aula de meditação. Criança medita no balanço do parque, no tanque de areia, fazendo bolinhos, enchendo e esvaziando potinhos d’água.

 

AGENDA LOTADA  CRIANÇA ESTRESSADA

de calma. Vamos desacelerar?O que pretendemos com tudo isso? Formar uma  super geração competitiva? Prepará-los  para o sucesso? A superestimulação promovida pelos adultos tem  levado as crianças ao esgotamento. Estímulo demais, concentração de menos. Estamos adoecendo nossas crianças.

Esquecemos que elas desde cedo tem no próprio ambiente familiar e no mundo natural, estímulos suficientes para seu desenvolvimento. Os estímulos externos criados artificialmente pelos adultos com o intuito de acelerar o desenvolvimento, prejudicam o que a criança tem de mais precioso que é sua motivação interna, alimentada pela curiosidade inata.

O não fazer nada para a criança é muito importante, é o momento que ela faz de conta, inventa brincadeiras, cria seus brinquedos. O tempo livre, o “ócio”, nada mais é que a oportunidade da criança entrar em contato consigo mesma, estimular o pensamento, a fantasia e a concentração. O tempo em que a criança está à toa, num aparente “tédio”, é o tempo em que ela está conectada com ela mesma, num processo de autoregulação.

CONTRA O TEMPO DA PRESSA

Contra o tempo da pressa o remédio é um olhar contemplativo, demorado e lento. Contra o tempo da pressa recomenda-se o ócio, o vazio.

O filósofo e escritor sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, em seu mais recente ensaio (2016) Aroma do tempo,  afirma que “a demora contemplativa concede tempo, dá amplidão ao ser, o que é algo mais do que estar ativo. Quando recupera a capacidade contemplativa, a vida ganha tempo e espaço, duração e amplidão”

Precisamos nos refinar na arte da demora. Precisamos devolver ao tempo a sua condição de instante, rompendo com o percurso horizontal e transformando-o numa profundidade vertical – é o que adverti o filósofo.

Quando nasceu minha filha, seis anos após a primeira gravidez, eu resolvi desacelerar. Foi uma experiência de maternidade muito mais consciente. Fui uma mãe mais presente e pude viver e respeitar o tempo da infância. Certa vez voltando da escola, minha filha me convidou para uma brincadeira que ela gostava muito. Ela cantarolava a melodia de uma canção e me perguntava: – Mãe, que música é essa? E eu tinha que continuar, e cantar a letra. Passávamos um tempo largo brincando assim, numa cantoria gostosa.

 

CRIANÇA QUER SER CRIANÇA

Para examinar atentamente o mundo da criança na atualidade, recomendo a leitura do livro Sob pressão do jornalista escocês Carl Honoré, conhecido como um dos arautos do Slow movement, que prega a desaceleração da sociedade, autor também da publicação Devagar.

Em Sob pressão, além de uma análise sobre o gerenciamento do tempo da criança pelos adultos, o autor traz outros temas importantes que precisam ser discutidos por pais e educadores, tais como a medicalização infantil, a infância monitorada, os excessos de cuidados, etc. Temas que estão todos interligados.

Honoré foi quem cunhou o termo “Educação de helicóptero”  e “Pais helicópteros” – quando os pais estão sempre pairando acima da cabeça dos filhos, se derramando em superproteção e pretensa supereducação.

Destaco um trecho do livro que reitera o que foi dito até aqui – A infância pede calma.

de calma. Vamos desacelerar?

“As crianças se desenvolvem quando têm o tempo e o espaço para respirar, para ficar à toa e se aborrecer algumas vezes, para relaxar, assumir riscos e cometer erros, sonhar e ter prazer com suas próprias coisas, e até mesmo para fracassar. Se quisermos restaurar a alegria não só da infância, mas também dos pais, chegou a hora dos adultos se retirarem um pouco e permitirem que as crianças sejam elas mesmas.”

 

Por aqui temos movimentos como o SlowKids, Slow Parenting, que lutam pela desaceleração da infância. Vale a pena conhecer.

É o que defendemos em Educando Tudo Muda também. Então, vamos desacelerar para promover o desenvolvimento saudável de nossas crianças? A infância pede calma, pede alma, um pouco mais de paciência, como diz a canção de Lenine. Vamos abrir espaços de ócio nas agendas das crianças. Lembrem-se: “a primeira infância é a que fica e fica para a vida toda” – Dr. João Figueiró

Já viu o infográfico sobre estresse infantil que Educando Tudo Muda preparou para seus leitores?

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

Crédito foto: a imagem em destaque é do acervo do educador Roquinho, um dos membros da Carretel Consultoria

Crédito música: Lenine e Dudu Falcão

 

ANTÍDOTO PARA O ESTRESSE INFANTIL

Antídoto para o estresse infantil

Antídoto para o estresse infantil – veja o que podemos fazer para enfrentar os sabotadores da infância neste infográfico que Educando Tudo Muda preparou para seus leitores.

A Infância vive um momento de grande complexidade e se encontra no centro das incertezas desta época, expondo as crianças precocemente às mesmas angústias que os adultos estão sujeitos.

Antídoto para o estresse infantil

As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram de forma considerável a estrutura da vida familiar e seus reflexos podem  ser observados nitidamente na vida da criança.

O modus vivendi da sociedade contemporânea com seus excessos, tem  adoecido as crianças, tem sido a causa do estresse infantil. 

Querem cedo demais tirar a criança do seu tempo e espaço natural de desenvolvimento. Querem cedo demais intelectualizar, adultizar, atrofiar os sentidos, limitar a curiosidade e vontade da criança de explorar e vivenciar o mundo livremente, empobrecendo assim sua imaginação e criatividade.

Saiba De que é feita a infância e junte-se a nós na defesa de uma infância saudável para nossas crianças.

De que é feita a infância?

De peito de mãe, de colo de pai

De abraço de tia e brincadeiras de tio

De sorriso e carinho de amigos, vizinhos

De histórias e comidinhas de avós

 

De que é feita a infância?

De manhãs ensolaradas no parque, no tanque de areia

De sombra embaixo de árvores

De caminho de formigas, borboletas e joaninhas em folhas

De flores e canto de passarinhos

 

De bolinhos e pingos de chuva

Até temporal em tarde de verão na varanda

De pés descalços na grama, na lama, na areia

De castelos na praia e banho de mar

 

De que é feita a infância?

De banho quentinho

De oração ao pé da cama

Contos de fadas, canção de ninar

De beijo de boa noite

 

De quintal com um pouco de terra

De balanço, bolhas de sabão

De sorvete, bola, bicicleta

E pequenas travessuras

 

De que é feita a infância?

De cabana no meio da sala, embaixo da mesa

De pular corda, amarelinha

Esconde-esconde, pega-pega

Corre cotia, batata quente

 

De rituais de celebração

Aniversário, São João, Natal

De irmãos, primos  e amigos

De sonhos, imaginação e descobertas

 

A infância é feita de calor, amor, presença

Brincadeiras, histórias, canções

Natureza, encantamento, fantasia

Experimentos, hipóteses e muitas perguntas

 

Abraço

Ana Lúcia Machado

 

PROCESSOS DE VIDA E A INFÂNCIA

Processos de vida

A história do homem sobre a terra é uma história de ruptura com processos de vida. A sociedade atual “beneficiada” cada vez mais pelos avanços tecnológicos, e sempre em  busca de resultados imediatos, deixou de lado algo tão salutar para o desenvolvimento humano: a vivência de processos o tempo de preparação e amadurecimento das coisas.

Hoje em dia entregamos a feitura de quase tudo para as máquinas, desde a comida até a roupa, incluindo brinquedo e muitos outros artigos. As gerações mais novas não imaginam como as coisas são realmente feitas, e com isso hoje ninguém mais vivencia os processos de feitura das coisas.

Tudo vem pronto – onde estão os processos de vida?

Processos de vidaNa alimentação apenas temos o trabalho de tirar das embalagens e das caixinhas aquilo que consumimos. A indústria alimentícia eliminou a alquimia encantadora da cozinha criando os enlatados, os instantâneos  – o fast food.  Acabou com o processo de preparo das refeições, as transformações químicas dos alimentos, e os aromas dos temperos.

No vestuário, com a proliferação das roupas produzidas em escala, a indústria têxtil em parceria com a indústria da moda, baniram os famosos ateliês de costura e com o ofício dos alfaiates. Os armarinhos, lojas especializadas em aviamentos, quase não existem mais.

A indústria do entretenimento embalou o lúdico num lindo pacote de viagens, brincadeiras, jogos e brinquedos, garantindo diversão imediata para todas as idades. Seu exemplo máximo é a Disney. Com seus simuladores, é capaz de reproduzir as mais incríveis sensações de quase tudo, nos transportando a diversas paisagens do mundo: Índia, África, muralhas da China, pinguins na Antárctica, etc. Com direito a sentir até o cheiro da maresia ao simular um sobrevoo no mar, a brisa gelada, vapor de cachoeira e muito mais.

processos de vida

A imagem pronta dos filmes e desenhos animados nas pequenas, médias e grandes telas, inibiu a imaginação, expressão da individualidade, que se inicia num processo de criação das imagens internas, responsável pela criatividade humana.

No livro Desemparedamento da infância*, uma professora da Educação Infantil de uma escola na cidade de Novo Hamburgo (RS), relata uma história interessante. Sua escola, com um espaço verde muito pequeno, fez parceria com a igreja vizinha para que as crianças pudessem desfrutar seu amplo gramado com laranjeiras e outras árvores frutíferas. As crianças passaram a frequentar esse espaço para ler e ouvir histórias, para fazer piqueniques, e brincar livremente. Como na ocasião era o período final do ciclo das frutas, haviam muitas caídas de madura pelo chão. A professora conta que as crianças ao verem as laranjas espalhadas pelo gramado, ficaram indignadas e perguntaram:

-Quem jogou as laranjas no chão?

As crianças não fizeram relação entre o pé de laranja e a fruta caída no chão.

Será que chegamos ao ápice da desconexão com a vida?

Todas as coisas na natureza são processos de vida. A natureza é uma grande mestra em processos vivos. O que caracteriza processos?

-desencadeamento de etapas que vão se sucedendo aos poucos

-formações, crescimento, transformações

-ações e reações

-movimento, dinamismo

-tempo de amadurecimento

 

A vivência de processos torna visível o que parece invisível.

 

Qual o grande aprendizado da vivência de processos?

Podemos dizer que a paciência, saber esperar, faz parte desse aprendizado. A vivência de processos de vida tem um sentido educativo e terapêutico. Ideias importantes podem ser absorvidas durante seu decorrer, tais como o sentido de totalidade, de ligação entre as coisas, de pertencimento e participação. É durante o tempo de preparação de tarefas que experimentamos, acrescentamos, lapidamos, cortamos arestas e mudanças vão acontecendo.

Processo é vida. De que maneira podemos resgatar a vivência de processos de vida na infância?

processos de vida

A cozinha é um ambiente abundante de processos de vida. É um lugar de encantamento, de memórias afetivas e de riqueza de estímulos sensoriais – as formas e as cores dos alimentos, os aromas e sabores, as texturas.

Precisamos reinserir as crianças à cozinha nas escolas e em casa. Dá mais trabalho? Leva mais tempo? Sim, com certeza, mas o resultado torna compensador o esforço.

Uma amostra dos efeitos dessas vivências está no livro Céu da Boca, organizado por Edith M. Elek, que reúne dezoito relatos de lembranças de refeições da infância, e mostra quão significativas são as memórias das crianças em torno da mesa. Entre os autores participantes dessa volta gastronômica ao tempo ,  estão o escritor Moacyr Scliar, a escritora Ruth Rocha, a psicanalista Maria Rita Kehl, o jornalista Ignácio de Loyola Brandão, etc. Trata-se de uma aventura por sabores, rituais de famílias, hábitos alimentares e muitas receitinhas gostosas.

Lembro com carinho da cozinha da minha avó. Como boa mineira, ela cozinhava comidinhas deliciosas. Observava com atenção seus movimentos na cozinha, e o trabalho das suas mãos hábeis e ágeis. Adorava seus croquetes de carne e panquecas. Até um simples arroz, feito por ela, tinha sabor especial.

Mas o que jamais vou esquecer é quando vovó preparava o famoso doce de leite. Ela colocava na panela o leite condensado, a manteiga, o cocô ralado, e o açúcar. Misturava os ingredientes e mexia com a colher de pau durante um tempão. Quando finalmente a massa ficava mais encorpada, ela retirava do fogo e despejava sob a pia de mármore esticando-a. Humm! Aquele cheirinho gostoso tomava conta de toda a cozinha.

Depois de muito tempo, quando a massa havia esfriado, vinha um momento mágico para mim. Vovó virava uma artista. Com uma faca enorme, ela cortava o doce em losangos, em tamanhos iguaizinhos. Eu ficava admirada com sua precisão. Em seguida ela colocava os losangos num pote de vidro transparente e guardava no armário da cozinha. Rapidamente aquele pote se esvaziava – os netos, vovô, minha tia, davam conta de acabar com tudo bem depressa.

Processos de vida

Nos dias de hoje, como podemos reconectar a infância a processos vivos em todas as dimensões de vida? 

É o que queremos discutir aqui no Educando Tudo Muda nos próximos artigos. Participe.

Crianças, já para a cozinha, para os quintais, jardins e parques, onde a vida pulsa e acontece ao vivo, de forma tridimensional.

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

*Esse livro está disponível para downloud neste link https://criancaenatureza.org.br/wp-content/uploads/2018/05/Desemparedamento_infancia.pdf

 

Semana Mundial do Brincar

Semana Mundial do Brincar

 

Acontece de 25 à 31 de maio a Semana Mundial do Brincar. Uma semana de mobilização para conscientização de toda a sociedade sobre a importância do brincar e seu significado para a infância.

Desde 1999, por iniciativa da Associação Internacional de Brinquedotecas, criou-se o Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio. No Brasil, a Aliança pela Infância, da qual Educando Tudo Muda faz parte, incentiva este movimento há mais de dez anos e o ampliou para ser celebrado durante uma semana inteira.

Semana mundial do brincar

O lúdico é fundamental em todas as fases da vida, inclusive na idade adulta, só que na infância ele adquire uma importância vital, é condição indispensável para que a criança se desenvolva de maneira saudável. Tal qual o andar e o falar, o brincar é potência de crescimento humano. Criança que não brinca significa de há algo que precisa ser investigado.

 

Infelizmente vivemos dias sombrios para a infância

Na sociedade contemporânea o brincar  está em declínio. Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar na infância.

Semana Mundial do brincar

Há uma pressa e uma urgência em preparar as crianças para o mundo competitivo, para o sucesso, de forma que parecemos esquecer que há tempo para todas as coisas debaixo do sol e como já diziam os “antigos”: apressado come cru.

Entretanto a questão vai além. A aceleração imposta tem adoecido a infância. Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu em setembro do ano passado em Calgary – Canadá, revelam que:

– o brincar livre infantil tem diminuído exponencialmente no mundo todo desde 1955

– a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60

– os transtornos de ansiedade entre as crianças, cresceu até 18 vezes

– as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores

 

SEMANA MUNDIAL DO BRINCAR – BRINCAR DE CORPO E ALMA

Que brincar é este?

Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. É a maneira da criança dar vazão ao impulso natural de expansão e movimento, dar vazão a imaginação criadora – uma força que vive dentro dela e precisa se manifestar. Brincar é fundamental para que o corpo se desenvolva e a alma se expresse.

Semana mundial do brincar

Para onde irá esta energia se a criança não puder manifestá-la brincando?

O brincar é o jeito da natureza de garantir que as crianças pratiquem as habilidades necessárias para a vida”,  como afirma Gray.

Então, como se explica o tempo cada vez mais reduzido do brincar, tanto nas escolas como em casa, onde as famílias preocupadas com a formação e preparação das crianças, lotam suas agendas com aulas complementares, cursos extracurriculares?

Como se explica a aceleração no processo de alfabetização?  A criança cada vez mais cedo vem sendo pressionada para o aprendizado da escrita e leitura.  A Educação Infantil está cada dia mais parecida com o Ensino Fundamental.

Leia também: 

De que é feita a infância

É tempo de brincar – um chamamento

 

A infância é curta demais para querer acelerar qualquer coisa

Infância é um tempo de encantamento, de descobertas, de explorar o mundo e principalmente fazer perguntas,  levantar hipóteses. Isso tudo a criança faz no brincar.

Semana mundial do brincar

Pressa não combina com as crianças que vivem num tempo diferente do tempo dos adultos. Elas não sentem a urgência que nos move a todo momento fazendo com que estejamos sempre preocupados com o que está por vir. Criança vive o momento presente, que demanda um tempo maior para ser desfrutado, para as vivências serem  introjetadas.

Separe um tempo nesta Semana Mundial do Brincar. Mobilize amigos, programe brincadeiras com as crianças e sinta como brincar faz diferença para a criança e para a qualidade de vida da família.

Até o dia 28 de maio o Sesc estará com uma programação inteirinha focada na Semana Mundial do Brincar. No site da Aliança Pela Infância você também encontrará uma agenda especial com atividades programadas por todo o Brasil, acesse AQUI e aproveite.

Mas lembre-se: a natureza é a casa da infância e o território primordial do brincar.

É tempo de brincar

É tempo de comungar com a vida

Que pulsa incessante pelo meio fio

E fazer da infância um fio inteiro.

 

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

COMO FORMAR CRIANÇAS LEITORAS EM UMA SÓ LIÇÃO

Frequentemente os professores questionam como formar crianças leitoras. Desesperados tentam fazer com que seus alunos leiam, frequentem a biblioteca. Pais também perguntam: como fazer do meu filho um futuro leitor? Quando devo começar a ler para meu filho? Será que existe uma fórmula mágica para transformar crianças em leitores?

Em um ranking mundial de índice de leitura, o Brasil ocupa a 59ª posição dentre 70 países. Apenas 1 em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura. Uma criança que tem uma família que lê para ela, chega aos 5 anos de idade com 6.000 palavras a mais que aquela que não tem. Estes importantes dados podem ser conferidos no documentário Para gostar de Ler, que fala sobre a importância da leitura na Primeira Infância. Idealizado e produzido e por Francesco Civita, o documentário está disponível no YouTube.

Como formar crianças leitoras

Profª Débora Seabra

O momento de ler e contar histórias para a criança é um momento de intimidade, onde se consolida o vínculo afetivo, gerando equilíbrio para a criança – é o que afirma o neurocientista e psicoterapeuta Dr. João Figueiró.

Eva Furnari, escritora de livros infantis e ilustradora brasileira consagrada, diz que as histórias, os contos de fadas que foram depurados ao longo dos anos, organizam a psique. As histórias podem apontar caminhos, resolver conflitos, oferecer soluções. Ajudam na elaboração e organização de questões internas.

Ler para a criança é uma alavanca para o desenvolvimento infantil. Além de estimular um excelente hábito, estreita vínculos, melhora as relações familiares e desenvolve a inteligência. É o que mostra  uma pesquisa feita em parceria com a Universidade de Nova York, conduzida por especialistas do Instituto Alfa e Beto (SP) com 660 famílias de creches públicas de Boa Vista (RO), entre 2014 e 2015.

 

QUAL O SIGNIFICADO DA LEITURA PARA VOCÊ?

Como formar crianças leitoras

Leitura é aventura, diversão, é estímulo para a imaginação. Ler alimenta, traz alento, consolo, autoconhecimento. Pode-se ler em qualquer tempo e lugar – na sala de espera do dentista, na fila do banco, no trânsito, na cama, etc.

Ler é como estar à mesa de um bar numa conversa solta com o outro. Ler é encontro, recheado de descobertas e revisões. Ao mesmo tempo em que é mergulho em si mesmo, é contemplação de um horizonte, é sair de si e enxergar o mundo sob outra perspectiva.

Ter nas mãos o livro desejado, apreciar sua capa, espiar devagarinho as primeiras palavras, folhear as páginas em toque acariciante, respirar fundo o cheiro do papel.

Leitura é ritual sagrado. É devorar com apetite a narrativa alheia; é invasão, permitida, de privacidade com a possibilidade de complementação com as imagens próprias. É também deixar-se invadir.

Sem pudores, ao ler, destaco frases, às vezes parágrafos inteiros, sublinho palavras, como que gritando para mim verdades ocultas. Anoto sentimentos na tentativa de apreender insights.

Ler é lambuzar-se, é contaminar-se de novas ideias, é se deixar levar, transformar. As palavras são vivas e ao recorrer a um livro na prateleira amarelado pelo tempo, não sei mais distinguir os limites do território, até onde sou eu, até onde é o outro.

 

Como formar crianças leitoras

Já imaginou viver em um mundo sem livros? Ray Bradbury, autor do romance Fahrenheit 451, imaginou. Em sua obra, um clássico da literatura lançado em 1953, bombeiros são acionados para incendiar todos os livros e impedir  a disseminação do conhecimento. Ele descreve uma sociedade totalmente alienada e anestesiada pela mídia televisiva – aparelhos que ocupam paredes inteiras das casas. Conhece algo parecido? Fahrenheit 451, nos leva a refletir sobre a superficialidade da era da imagem que se impõe e se fortalece cada dia mais.

 

COMO FORMAR CRIANÇAS LEITORAS? – A FÓRMULA MÁGICA

Como formar crianças leitoras

A única maneira de formar crianças leitoras é sendo um leitor você mesmo em primeiro lugar. Sinta prazer na leitura e seu filho também sentirá. Ame os livros e ele também amará. Crie o hábito do momento da leitura na hora de ir para a cama. Não deixe essa responsabilidade inteiramente nas mãos da escola.

Leia para seu deleite e compartilhe com seus alunos. Eles também desfrutarão dessa alegria e se sentirão estimulados à leitura. Este é o segredo. Na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental I, termine o dia contando uma história para sua turma.

 

QUE LIVRO VOCÊ ESTÁ LENDO?

Como formar crianças leitoras

Lembre-se: professores não leitores não formam crianças leitoras, pais não leitores não formam filhos leitores.

Estou relendo O menino do dedo verde de Maurice Druon, publicado originalmente em 1957, mas que continua atualíssimo. Considerada uma obra inovadora por ser a primeira a tratar de ecologia. Entretanto, rico em simbologias, o livro ultrapassa os limites da ecologia para abordar temas profundos do florescimento humano.  Druon apresenta um menino que rompe os muros da escola para conhecer o mundo na prática, aprender com a vida real – a melhor escola. Recomendo a leitura.

Quer outras indicações? Deixo aqui, 5 livros que todo educador deveria ler.

Espero que você  sinta-se encorajado a encarar o desafio de formar crianças leitoras, seja você professor, mãe ou pai, avô, tio, etc. Todos podem contribuir para virar este jogo e transformar nosso país numa nação de leitores. Esta é a grande revolução – leia para uma criança.

Cadastre-se no site e seja o primeiro a receber nossas atualizações.

Boa leitura!

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

 

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA – BRINCADEIRAS COM A TERRA, ÁGUA, AR E FOGO

Um brinquedo chamado natureza

 

Um brinquedo chamado natureza. De qual brinquedo estamos falando?

Talvez você não saiba, mas o melhor brinquedo do mundo para a criança é a própria natureza – brinquedo bom, bonito e barato, acessível, ao alcance de todas as crianças.

A vida nos centros urbanos tem roubado de nós coisas que nos são caras, a liberdade da infância e o convívio familiar. Este é um convite para investirmos numa infância com menos tecnologia e mais terra, menos consumismo e mais brincadeiras ao ar livre, menos coisas e mais vivências sensoriais. Um convite para se resgatar um cotidiano mais simples e natural, sem pressa, com mais leveza, escuta e calor humano.

As vivências, explorações, descobertas e brincadeiras ao ar livre colocam a criança em contato com as forças vitais dos quatro elementos – terra, água, ar e fogo – com ciclos de vida e morte,  fluxos vivos, ritmos e processos dinâmicos, aguçando os sentidos, a imaginação e o sentimento de pertencimento, das raízes com a Terra e respeito por ela.

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

Projeto Playoutside

Cada um dos elementos permite que a criança mobilize dentro de si forças imaginativas e criadoras. Com os achados e coletas de materiais orgânicos durante uma caminhada no parque, galhos viram espadas ou varinhas de condão. Folhas e flores ora podem ser decoração de um lindo bolo, ora adorno de uma coroa na cabeça. São brinquedos da natureza.

CONHEÇA O PROJETO PLAYOUTSIDE – ALEGRIA DE BRINCAR NA NATUREZA

Esta é a magia do brincar na natureza, a mágica dos brinquedos naturais, que sem forma estruturada e função definida, permitem infinitas possibilidades, algo sempre diferente e novo. Esta é a força interior das crianças em ação. Elas subvertem materiais, criam brinquedos e inventam histórias de acordo com o enredo de suas brincadeiras.

Cada elemento tem característica  própria e sugere um tipo de brincadeira. Existem infinitas possibilidades de brincar com a terra, a água, o ar e o fogo.

 

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA – OS QUATRO ELEMENTOS

 

AS FORÇAS MAIS PROFUNDAS QUE VIVEM NO ÍNTIMO DA CRIANÇA, SÓ PODEM SER TOCADAS E AVIVADAS PELO BRINQUEDO MAIS SADIO DO MUNDO : O BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA   RUDOLF KISHNICK

 

 

TERRA

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

As brincadeiras com a terra estimulam a curiosidade infantil. A criança quer investigar e conhecer o interior das coisas, aquilo que se encontra oculto. Daí as brincadeiras de cavar buracos profundos na terra ou areia para quem sabe chegar ao outro lado do mundo.

No tanque de areia as crianças são como arquitetos de grandes construções, podem erguer pontes e castelos, assumindo a identidade de princesas e príncipes. Podem ser exímios chefes de cozinha no preparo de deliciosos bolinhos e comidinhas lindamente decoradas com folhas e flores.

 

 

ÁGUA

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

Retratos pra Yayá – Irmina Walczac

As brincadeiras com água remetem à importante memória intrauterina. Afinal trata-se do primeiro elemento com o qual a criança teve íntimo contato durante o período gestacional.

Brincar com água rapidamente vira festa, cheia de alegria. São assim as brincadeiras à beira mar ou com bacias d’água, enchendo e esvaziando baldes e potes incansavelmente.

Pisar em poças d’água ou tentar transpô-las com grandes pulos é unanimidade entre crianças de idades variadas, assim como as guerras de água, ou ainda as bolhas de sabão.

 

 

 

 

 

AR

UM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

As brincadeiras com o ar colocam o corpo da criança em movimento, estimulando o correr, pular, voar, soprar, etc. Elas instigam a vontade de voar, tornando populares as capas de heróis e asas de borboletas criadas pelas crianças.

Também há os famosos aviões de papel, as pipas coloridas que riscam o céu, e até mesmo o prazeroso sopro na flor Dente-de-leão encontrada pelo caminho.

 

 

 

FOGOUM BRINQUEDO CHAMADO NATUREZA

O fogo exerce fascínio nas crianças, suscita respeito e temor ao mesmo tempo. Diante de uma fogueira, as crianças se encantam com a dança das labaredas, com o estalar das madeiras e ao jogar gravetos nas chamas.

Brincar com a sombra também é divertimento garantido entre elas, que correm na tentativa de pisar na sombra umas das outras projetadas no chão.

 

BRINCAR É COISA SÉRIA

Brincar é o ofício e expressão natural da criança.

As formas e movimentos primordiais vivenciados por meio do brincar com os elementos naturais refletem o  profundo equilíbrio do Cosmo, que é assimilado com admiração e veneração pela criança.

A qualidade do brincar na natureza é carregada de significado e incomparável, pois  a energia viva advinda do mundo natural impregna a organização corpórea da criança e contribui para o desenvolvimento infantil saudável,  auxiliando nas defesas naturais do organismo.

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A natureza é grande mestra. Em contato com o mundo natural as crianças brincam e ao mesmo tempo aprendem e sobre tudo criam vínculo afetivo com a mãe Terra, tornando-se cuidadores do meio ambiente.

 

Um brinquedo chamado natureza

Não dê às crianças brinquedos caros, estruturados, tecnológicos. Ofereça a elas oportunidades que propiciem o exercício da imaginação, a criatividade; oportunidades de criar seus próprios brinquedos a partir do fazer do corpo, das mãos da criança, feitos com materiais da natureza e que possam ser explorados de diversas formas, que possam ser transformados naquilo que a brincadeira das crianças quiser. Dê a elas um brinquedo chamado natureza.

Infância rica em vivências sensoriais e lúdicas não precisa de brinquedos industrializados e sim de experiências por meio do brincar livre em contato com o mundo natural. Invista seu tempo enquanto pai e mãe em momentos assim.

Pense neste poema:

O menino rico

Nunca tive brinquedos.

Brinco com as conchas do mar

E com a areia da praia;

Brinco com as canoas dos coqueiros

Derrubados pelo vento;

Faço barquinhos de papel!

E minha frota navega

Nas águas da enxurrada;

Brinco com as borboletas nos dias de sol.

E nas noites de lua cheia

Visto-me com os raios de luar.

Na primavera teço coroas de flores perfumadas.

As nuvens do céu são navios, são bichos, são cidades.

Sou o menino mais rico do mundo,

Porque brinco com o Universo,

Porque brinco com o infinito.

(Maria Alceu N. S. Ilnzinger)

 

Ofereça a elas oportunidades que propiciem o exercício da imaginação, a criatividade; oportunidades de criar seus próprios brinquedos com materiais naturais que possam ser explorados de diversas formas, que possam ser transformados naquilo que a brincadeira das crianças quiser. Dê a elas um brinquedo chamado natureza.

Quer conhecer outras interessantes brincadeiras com os elementos naturais? Faça  AQUI  downloud do E-book  BRINCANDO COM OS QUATRO ELEMENTOS DA NATUREZA e bom divertimento com a garotada.

Abraço brincante

Ana Lúcia Machado

O USO DO MUNDO DIGITAL PELAS CRIANÇAS DE 0 A 3 ANOS

O uso do mundo digitalpelas crianças de 0 a 3 anos

O uso do mundo digital pelas crianças de 0 a 3 anos pode trazer prejuízos? A criança de 0 a 3 anos precisa das mídias digitais para se desenvolver bem? Quando uma criança deve ser exposta a mídias digitais?

Essas e outras perguntas são respondidas neste artigo pela Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Psicologia Clínica USP-SP – Claudia Mascarenhas Fernandes, pela Professora Associada de Pediatria e Clinica de Adolescentes da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Evelyn Eisenstein, e pelo Médico Neuro Pediatra da Metaclinica e Neuro Fisiologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Eduardo Jorge Custódio da Silva.

A CRIANÇA DE 0 A 3 ANOS E O MUNDO DIGITAL

Qual a idade para uma criança começar a ter acesso online a jogos, vídeos ou filmes? O smartphone pode ser considerado “brinquedo” ou ser usado como “distração”? Quais são as consequências a curto e longo prazo no desenvolvimento cerebral e mental de crianças que tem acesso às telas de televisões, computadores, notebooks ou celulares? Qual a importância do “tempo de telas” para crianças que estão na fase mais importante de seu crescimento e no início das descobertas do mundo à sua volta? Estas são algumas das questões mais urgentes de discussão entre os profissionais de saúde que cuidam de crianças e muitos pais que não sabem como se adaptar aos tempos das novas tecnologias na vida cotidiana junto com seus filhos, algo que iremos descrever neste artigo, como um início de conversa a ser aprofundada por cada um.

O uso do mundo digitalpelas crianças de 0 a 3 anos

Os três primeiros anos de vida constituem uma janela de oportunidades à promoção da saúde. É um período critico do desenvolvimento, quando observamos a fase de maior plasticidade cerebral (capacidade do sistema nervoso de se reorganizar e adaptar as redes neuronais em resposta às exigências ambientais/externas ou orgânicas/internas), ou seja, uma capacidade aumentada do cérebro em se remodelar em função das experiências da criança na descoberta do mundo à sua volta.

As funções cognitivas encontram-se localizadas nas áreas específicas do encéfalo. E para o desenvolvimento da maioria dos processos cognitivos, a interação afetiva positiva e a cooperação de neurônios nas conexões neuronais é fundamental.

No córtex cerebral é possível distinguir varias áreas de associação: Áreas pré-frontal (motora), córtex de associação parieto-temporo-occipital (sensorial), e o córtex de associação límbico (emocional).

Para que o desenvolvimento neuro-psicomotor, e nossas redes neurais se formem corretamente, o ser humano tem etapas a serem cumpridas, com os estímulos adequados a cada faixa etária. O apego positivo e a relação amorosa que a criança estabelece com a sua mãe, seu pai e sua família, ao seu redor, irmãos, tios, avós são fundamentais para o desenvolvimento do prazer nos relacionamentos futuros e a prevenção de muitos transtornos comportamentais e outras psicopatologias, mais tarde. É a formação do binômio mãe-filho e dos vínculos fundamentais para o conceito de família. Ser o “centro da atenção” com suas necessidades básicas é o aprendizado inicial da socialização, mas também das regras básicas da empatia e das respostas que surgirão às questões de convivência e sobrevivência. Por isso, insistimos na proteção familiar e social como fundamento essencial para o crescimento e desenvolvimento saudável dos primeiros anos de vida.

A psicanálise trabalha com a premissa de que “o Sujeito se constitui na sua relação ao Outro”. A psicologia perinatal trabalha com a idéia de que de 0 a 3 anos é momento da vida onde, mesmo que se queira, não se consegue separar corpo e psiquismo. A psicologia do desenvolvimento indica que até os 3 anos se espera que a criança fale na primeira pessoa, “eu”, pois está desenvolvendo a noção que não só existe, mas é uma pessoa muito importante pois quer ser reconhecida e demanda atenção total “do outro” mesmo sendo no caso uma criança. Essas três vertentes fazem levantar algumas questões sobre o uso do mundo digital pelas crianças de 0 a 3 anos.

Uma conseqüência dessa premissa inicial é que todo tipo de relação da criança com o mundo, para ser positiva e favorecer seu desenvolvimento global, precisa passar em alguma instância, pelas relações humanas que a envolvem e que começam a desenvolver com as pessoas da família com quem convive. A relação da criança com o corpo, com os objetos e com os seus semelhantes, está em todos os aspectos, sob esse envoltório maior de um mundo de desejo, de olhar, de palavra, dessa dependência inicial do humano a outro humano, e do espelho das ações dos outros à nossa volta, e que irá marcar as relações humanas, o início da sociabilização.

O USO DO MUNDO DIGITAL PELAS CRIANÇAS DE 0 A 3 ANOS

Algumas conseqüências da exposição de crianças de 0 a 3 anos às telas e mídias digitais:

O CORPO ESTÁ FORA DA AÇÃO

Para uma criança conhecer o mundo e portanto se desenvolver, sua motricidade precisa estar engajada nesse projeto: de modo concreto, implica deslocamentos, movimentações, coordenações sensoriais, manipulações. É a inteligência sensório-motora. Até 2 anos, a pura imagem, além de não lhe ensinar nada (pois se traduz unicamente por movimentos em frente aos seus olhos) dificulta-lhe a aprendizagem quando economiza ou evita o engajamento do corpo no projeto de conhecer o mundo, começar a movimentar o corpo, engatinhar, andar, tocar objetos e alcançar com suas pernas e braços o mundo ao redor.

O CORPO FICA SEM SENTIR

De todos os sistemas sensoriais, a visão é o sistema mais complexo. No começo da vida, o sistema visual precisa de outros sistemas sensoriais para checar, confirmar e construir as percepções multissensoriais : sensações do tato, da audição, do calor/frio, além do gosto/paladar estão em formação, no desenvolvimento cerebral e mental.

Os sons são vibrações do meio externo que se transmitem ao órgão receptor da audição (ouvido), para o processamento no sistema auditivo e cerebral, e a localização espacial do som, é a identificação no espaço da fonte sonora, o que ajuda na atenção e na memória.

A visão e audição por si só não são suficientes para o desenvolvimento completo das habilidades de: alerta e atenção; motoras, cognitivas; regulação emocional; comunicação e interação social; organização do comportamento e do movimento..

Para um Corpo sentir e o psiquismo poder representar o mundo que entra pelas sensações, é preciso que todas as sensações (visão, audição, olfato, paladar, vestibular, propriocepção, tato) sejam percebidas, organizadas e interpretadas. Se a visão e a audição, se sobrepõem às demais, haverá um processamento deficitário e que poderá desenvolver sérios problemas para integrar todas essas sensações, e portanto, dificuldades em se desenvolver de modo integral, a seguir.

A VIDA LÁ FORA

Os hábitos familiares ligados aos aspectos cotidianos como dormir, comer, passear, estão sofrendo modificações a partir do uso das mídias digitais. A cena de encontrar em restaurantes as crianças com um tablet ou celular, ambos usados como entretenimento na hora da refeição, ou mesmo sendo usados quando os pais se deslocam no transito para que a criança não tenha qualquer incômodo, são alguns exemplos do que estamos vendo atualmente.

Em relação à alimentação, sem sentir fome ou saciedade, os alimentos penetram na boca da criança sem que o gosto, o sabor, o cheiro, o olhar, as pausas, as conversas ocorram e sem desejos ou vontades, como se tudo fosse no “automático” ou com distorções de imagens dos alimentos vistos nas telas.

Passear de carro, viajar de ônibus ou mesmo ficar no carrinho de bebê, deixam de ser vivenciados quando se coloca qualquer imagem de telas à frente da criança: os deslocamentos, os barulhos, as conversas, os problemas, as chatices, as esperas, a tolerância, as relações dos comportamentos dos que estão em volta, as filas… nada disso é percebido pela criança. Ela não experimenta o que se passa nessas situações, pois está absorvida pela tela.

O que entra em jogo nestas e noutras situações é uma adulteração das relações entre demanda/necessidade/prazer/satisfação. A criança vidrada na tela durante esses acontecimentos cotidianos, faz com que não haja espaço entre a demanda e a satisfação, portanto, também para desenvolver a criatividade nesse espaço (o que faço nesse momento de espera, de tédio, de buraco?), consequentemente, nessa impossibilidade de administrar o tempo e as realidades à volta, ocorrem desequilíbrios entre as frustrações e a tolerância necessária que as relações exigem, tanto com o “outro” e consigo mesma.

O uso do mundo digitalpelas crianças de 0 a 3 anos

O BEBÊ VIDRADO

É enganoso também evocar a autoridade do cérebro para justificar o uso de computadores ou eletrônicos para o desenvolvimento de uma criança em sua primeira infância. Em seus dois primeiros anos de vida um estímulo prioritário e muito forte pode prejudicar o que se chama fenômeno de habituação, capacidade do bebê em se desvencilhar de um estímulo excessivo e que não lhe agrada (prazer/dor) ou que lhe amedronta (medo/insatisfação).

Uma das principais características do mundo digital é o seu poder de super estimulação visual em detrimento de todos os outros sentidos. A luminosidade que emana, seu super colorido e os movimentos de seus objetos e personagens, impõem à criança uma dificuldade maior também para se desligar dessa super estimulação. É a criança “vidrada”, “fascinada” que é bem diferente da criança “atenta”. A audição normalmente fica submetida a musicas em tempo binários e movimentos acelerados e bidimensionais que muito mais ajudam a criança ficar “mais vidrada”, e do modo algum se configuram como uma sonoridade que facilite a discriminação auditiva, excluindo portanto a relação com o prazer musical.

SEM DIMENSÕES ESPAÇO TEMPORAIS

A não experimentação do corpo (desde o seu rolamento aos 4 meses) e a falta da tridimensionalidade das experiências também afetarão na percepção do seu próprio corpo e na construção da imagem corporal, o que influenciará na construção das representações do tempo, espaço e de profundidade. As conseqüências podem ser, desde dificuldades de orientações espaciais até as dificuldades na aprendizagem da matemática. Ex: movimentação do corpo em blocos ou a lateralidade (a criança nas suas movimentações, não consegue separar um lado do outro lado, membros inferiores e superiores, dentre outras coisas, o que vai impactar em quase todas as suas tarefas diárias, pois toda criança é ambidestra até os 6 anos, quando irá se estabelecer a dominância do hemisfério cerebral e por isso é preciso que a criança aprenda a se movimentar e ativamente), analfabetismo corporal (a criança não consegue realizar tarefas que exigem coordenações mais elaboradas, por exemplo: calçar o sapato), inseguranças (por não experimentar as coordenações espaço temporais, a insegurança também pode aparecer de modo impeditivo, não brinca de correr, não desce uma escorregadeira, não joga bola ou futebol, prefere começar a dizer “não gosto de fazer isso”, portanto não constrói a noção espacial e temporal consequentemente, e começa a ter medo de explorar o mundo externo à sua volta.

INTERAÇÃO SEM RESPOSTA

Um bebê que olha um adulto, precisa de tempo para conseguir fazê-lo. E ele precisa olhar com cuidado nos detalhes para se relacionar, imitar, ter afetos, aprender pois trata-se de um diálogo afetivo e postural. O adulto recebe do bebê ações que o convocam quase sempre a proteger e acolher a cada vez de modo diferente, promovendo diferentes sentidos. A repetição de imagens que independam das ações do bebê prejudicam seus processos de identificações, podendo torná-lo rígido e estereotipado nas relações. Além do que, o ritmo, nas relações com as telas, quase sempre é determinado pelas telas e por seus personagens, nada que a criança faça ou sinta ou expresse com seu sorriso ou choro, modificará as reações dos personagens.

A VIDA SEM LIMITES

O uso das telas para que os adultos não precisem dar limites, dizer “não”, acompanhar e educar, tem trazido prejuízos à construção das bordas e limites corporais e também das relações com autoridade. A criança “quieta” porque está distraída, entretida ou fascinada com uma imagem, não é uma criança educada, é somente uma criança passiva em frente às telas. Da mesma maneira uma criança “agitada” é somente uma criança que está tentando chamar atenção mesmo que negativa sobre si mesma, pois essa “agitação” é também aprendida nas imagens em movimento acelerado nas telas. Não existem pausas e nem descanso para o relaxamento e as mudanças entre o que é o começo e o que é o final de qualquer tarefa das rotinas diárias (a diferença nas brincadeirinhas e nas rotinas entre o “acabou” e o “de novo”)

Desde bebê, esse tipo de uso impede que a criança apreenda e experimente quais são seus próprios limites corporais e o que não pode fazer e diferencie do que é permitido fazer.

O limite é dado artificialmente por uma entidade externa aos cuidadores importantes da criança e não existe um “NÂO” ou só existe quando o equipamento é desligado ou desconectado da “fonte de energia”, mas nenhuma criança é “on-off” como se fosse uma máquina.

UM BEBÊ SOZINHO

Os cuidadores principais, mãe, pai, avós, irmãos, familiares e as pessoas do convívio contínuo, para além dos cuidados de sobrevivência, oferecem os afetos e os significados necessários para que um bebê possa fazer as leituras e aprender a descobrir sobre o mundo à sua volta.

Sem palavras e sem intermediação do outro, as crianças “de fraldas” expostas às telas, como uma babá eletrônica ou robotizada, experimentam somente relações que passam a ser investidas por imagens impessoais, sem afeto e que como são padronizadas, serão invasivas e sempre presentes na vida da criança, sem as flexibilidades ou regulações comuns das relações humanas. É tudo ou nada (tela ligada x tela desligada).

CADÊ O CUIDADOR

Os cuidadores que ficam também ocupados diante das telas da televisão ou do smartphone, por exemplo, durante as refeições ou nos finais-de-semana, sem “prestar atenção” à criança, não compartilham, não afirmam ou mostram gosto ou desgosto com as experiências e atividades das crianças, os bebês e as crianças menores, que precisam compartilhar em busca do “assentimento” adulto, passam a “desistir” de ganhar esta atenção.

Filmagens de crianças que viram totem idealizados ou mesmo monetizados (como objetos de lucro) para serem “postadas” como fetiches ou idealizadas em sua inocência ou mesmo abusadas e exploradas sexualmente ou violentadas, muitas vezes distorcidas em imagens produzidas ou “fake” (sorrisos agora para as telas) e que perdem a espontaneidade do momento. Assistimos ao gozo com o sofrimento, que pode ir desde a indiferença aos maus tratos nos cuidados com a criança.

SEM FALTAS

Super presença das telas no cotidiano, com muitas horas “ligadas” (duração e frequência no meio de rotinas como nas horas de refeições ou antes das horas de dormir) compromete o simbólico (que é construído pelo par presença/ausência), e desenvolve a crença que o outro está sempre disponível ali na frente ou no toque dos dedos ao deslizar das telas e imagens no celular. Isolamento e redução dos laços sociais: o outro digital não me oferta nada no par amar-ser amado. (Dunkan, 2017). Importante também enfatizar o início dos problemas como os transtornos de sono, pois o tempo para dormir, descansar e acalmar não é respeitado com as telas ligadas, com ruídos altos, movimentos e cores brilhantes que nunca desligam ou são desligadas.

CONCLUINDO

O uso do mundo digital por crianças de 0 a 3 anos de idade num período fundamental de crescimento e desenvolvimento cerebral e mental é prejudicial e, portanto, não se recomenda o oferecimento de telefone celular ou smartphone como um “brinquedo” ou “distração” segundo os autores e em concordância com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Academia Americana de Pediatria (AAP).

Leia também: INFÂNCIA DIGITAL – O PERIGO DA DESCONEXÃO COM A VIDA

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado