Browsing Category

Educando

6 medidas em prol de uma nova escola segundo neuropediatra

6 medidas em prol de uma nova escola segundo neuropediatra

 

Na visão do neuropediatra português Dr. Luís Borges, 6 medidas precisam ser tomadas em prol de uma nova escola visando melhorias na saúde da criança:

-Dar aos professores mais formação na área das neurociências

-Garantir às crianças mais tempo para brincar

-Alterar as metas curriculares

-Encurtar a duração das aulas

-Aumentar o período do recreio

-Diminuir as lições de casa substituindo-as por atividades de leitura

O neuropediatra português Dr. Luis Borges, em entrevista a Helena Viegas do site de notícias Magazine defende mudanças estruturais importantes para tornar a escola um espaço de aprendizado fértil, dinâmico e prazeroso.

Dr. Borges é referência na área da dislexia e TDHA, preside à Associação Nacional de Intervenção Precoce (ANIP) e está ligado ao Hospital Pediátrico de Coimbra.

Este é um tema recorrente aqui no Educando Tudo Muda. Temos debatido a cerca do valor da Educação Infantil e o significado do brincar na Primeira Infância. Defendemos que nessa etapa da vida o aprendizado ocorre por meio do experienciar o mundo que cerca a criança, de forma lúdica e mediado por interações sociais com a família, outras crianças e educadores respeitosos à singularidade de cada criança.

As medidas citadas garantiriam que a infância fosse menos medicalizada por conta dos transtornos que afligem as crianças na atualidade devido à pressão e aceleração do aprendizado.

Leia também Devolvam o tempo de brincar na Educação Infantil

Além das 6 medidas apontadas, o neuropediatra também levanta aspectos que interverem diretamente no aprendizado infantil, tais como a quantidade de horas de sono, a necessidade de  atividade física e os abusos ao uso de dispositivos tecnológicos.

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:

O neuropediatra começa afirmando que: Sempre existiram e sempre existirão crianças inquietas e desatentas. A perturbação da hiperatividade e déficit de atenção [TDAH] tem uma base genética: as crianças herdam dos pais os genes que vão condicionar este tipo de comportamento. O que acontece é que, depois, o ambiente pode facilitar ou dificultar o aparecimento dos sintomas – a hiperatividade, a impulsividade e/ou déficit de atenção.

6 medidas em prol de uma nova escola segundo neuropediatra

A hiperatividade traz sempre associado um déficit de atenção?
Julgo que sim, só que na criança muito pequena, que parece ter pilhas Duracell, o que chama mais a atenção é a hiperatividade. Mas com a idade isso vai melhorando. A hiperatividade é o primeiro sintoma a desaparecer, e fica a impulsividade e o déficit de atenção.

 

E o contrário pode acontecer? Uma criança pode ter apenas déficit de atenção, sem nunca ter sido hiperativo?
Essa é a face mais desconhecida da TDAH, mas que na realidade corresponde de 20 a 25 por cento dos casos. São crianças que são até hipoativas, digamos assim, mas que têm déficit de atenção. Chamam-lhes day dreamer ou criança sonhadora. Na sala de aula, estão lá, mas não estão. São situações mais complexas e para as quais é preciso alertar pais e professores. Desde logo, porque são crianças socialmente mais tímidas, com maior tendência para o isolamento, para a ansiedade e até a depressão. E depois, porque, estão quietinhas e não perturbam, o problema passa despercebido, muitas vezes só é detectado mais tarde.

… quando surgem os problemas de aprendizagem.
Sim. Sempre que uma criança tem baixos resultados escolares, é preciso saber porquê. Pode ter um certo atraso no desenvolvimento, mas a maior parte das vezes tem na verdade problemas de outra ordem, como os do déficit de atenção ou as dislexias.

Com que idade as crianças chegam às suas consultas?
Os hiperativos, por norma, começam a ter problemas no primeiro ano da escola. Até lá, apesar de serem crianças muito ativas, passam muitas vezes despercebidas. Os problemas surgem quando têm de estar sentados das 09h00 às 17h30…

6 medidas em prol de uma nova escola segundo neuropediatra

 

Passam tempo de mais na escola?
Sim. Dizem-me: “Ah, mas a partir das 15h00 são atividades extracurriculares…”.  É mais do mesmo. Os professores de Música e de Inglês também exigem atenção e vão avaliá-los no final. A TDAH tem uma base genética, mas ter começado a exigir-se demasiado dos mecanismos da atenção não ajuda. Até entendo que a escola retenha as crianças até às 17h30, porque isso facilita a vida dos pais. Mas esse tempo deveria ser preenchido com tempos livres. Ter um animador na escola e permitir que a criança jogasse bola, brincasse, fizesse teatro, cantasse… o que lhe apetecesse. Não sou contra a Música ou o Inglês. Mas das 09h30 às 15h30 a criança devia ter tempo para todas estas aprendizagens, curriculares e extracurriculares. Como não sou contra as lições de casa, mas acho que são demais e podiam ser substituídas por atividades de leitura. As crianças precisam brincar – e não têm tempo para isso.

Seria preciso mudar a própria escola.
Há algumas coisas que não têm que ver com a escola. Uma delas é o sono: as crianças devem dormir nove a dez horas por noite. Uma criança que dorme pouco tem dificuldade em concentrar-se e grande parte da nossa memória de longo prazo é feita durante o sono. Depois, há o esporte: a atividade física libera substâncias que relaxam, o que vai facilitar a aprendizagem.

E há outra coisa importante: o uso exagerado dos tablets e dos telemóveis. Porque a atenção que se usa num jogo de computador é totalmente diferente da que se utiliza para ler e compreender um texto, e as crianças vão habituar-se àquele tipo de atenção… Tudo isso, eu digo aos pais. Mas sim, seria sobretudo importante mudar escola, mudar os programas, aliviar os professores da pressão das metas curriculares… Aos seis anos, é o currículo que deve encaixar na criança e não o contrário.

O que está errado nos programas e nas metas?
A velocidade com que as crianças têm de dominar a leitura, por exemplo. Os dois primeiros anos devem ser para aprender a ler. Para depois a criança poder passar a ler automaticamente e a compreender. Mas não. Se ao fim do primeiro ano a criança ainda não consegue ler,  vai começar a ter problemas e começa o seu insucesso. E depois a exigência da matemática, do cálculo… Nós aprendíamos coisas no sexto ano que hoje são dadas no quarto e o cérebro das crianças não melhorou de um dia para o outro. Há coisas que não estão de acordo com as capacidades das crianças. Elas conseguem, mas com grande esforço, grande stress e sem alegria. Ao nível do cérebro, . Se a criança tem medo de errar, não está em boas condições para aprender. Depois, o stress acumula-se e a motivação que é o motor para aprender não existe, a escola torna-se uma chatice.

É isso que vê nas crianças que chegam à consulta?
Sim, crianças stressadas, muitas com problemas de sono, que muito frequentemente choram para ir para a escola, com medo de falhar… Nas crianças com TDAH isso acontece muito. Até porque outra coisa que tem que ver com os déficits de atenção, que não está nas classificações internacionais, mas que devia estar, é a parte emocional. São crianças emocionalmente frágeis, que lidam mal com a frustração, com as emoções – e muitas vezes com problemas sociais. Os colegas não os suportam porque, mesmo nas brincadeiras, não se pode contar com elas. Querem corresponder às expetativas dos outros, mas não conseguem.

E por que é que não conseguem?

No nosso sistema nervoso, aquilo a que chamamos a função executiva – que nos permite organizar, planejar, executar e monitorar o que fazemos durante o dia –, começa a desenvolver-se lentamente, amadurece e está na sua plena funcionalidade por volta dos 20 anos. E nessas crianças, o que acontece é que essa função desenvolve-se mais lentamente, às vezes com três ou quatro anos de diferença em relação ao padrão.

Quais são as implicações práticas da imaturidade dessa parte do cérebro?

O sistema que regula as atividades que fazemos no dia-a-dia, que é o que nos permite falar enquanto conduzimos, de forma automática, por exemplo, não  funciona. E isso faz com que falhe a autorregulação – o professor tem de lhe dizer 20 vezes para se virar para a frente. Além disso, tem a ver com a memória de trabalho, ou de curto prazo. Se o professor disser: “Agora abram o livro na página 23, na linha nº 14, procurar quantos verbos estão no infinitivo”, a criança com déficit de atenção ficou com a primeira informação, o resto já se apagou. Ele não consegue pôr na memória de trabalho essa informação toda. O professor tem de dizer-lhe o número da página, deixá-lo abrir o livro, depois indicar-lhe a linha, esperar que a encontre, e só depois explicar o resto.

Porquê?

As crianças com TDAH ou dislexia têm uma memória de trabalho curta. Se lhes for dado um problema de matemática, em que eles têm de primeiramente somar, para depois subtrair e dividir, eles têm de fazer por partes. Se lerem o enunciado todo, ficam completamente perdidos… e vão responder à primeira coisa que lhes vier à cabeça. A memória de trabalho é fundamental para a aprendizagem – e fala-se muito pouco sobre isso. Os professores deviam ter mais conhecimentos sobre neurociências e a sua importância nos processos de aprendizagem.

O sistema agrava o problema das crianças com TDAH, é isso?
O problema do TDAH tem uma base genética. Ou seja, mesmo que tudo isto fosse melhorado, continuaria a haver déficit de atenção. Mas seriam menores os casos, porque se estaria a respeitar mais o ritmo de amadurecimento das estruturas cerebrais – e, muito provavelmente, haveria também menos crianças medicadas. Porque hoje em dia é fácil: a criança mexe-se muito, a professora já sabe que há um comprimido que faz com que ele fique quieto, insiste com os pais… e os médicos acabam por entrar nesse jogo. Eu próprio faço isso.

6 medidas em prol de uma nova escola segundo neuropediatraMedica-se demais para a TDAH?
Pela falta de conhecimento do que é a TDAH e de como se pode ajudar as crianças desde cedo a melhorar, medica-se demasiado, não tenho dúvida nenhuma. Se a escola não exigisse tanto, se a criança não estivesse tanto tempo na sala de aula, se tivesse mais tempo de recreio, se tivesse períodos mais curtos de exigência de atenção, provavelmente as coisas podiam funcionar melhor… mas isso não acontece. E aí ficamos sem alternativa, porque ou se medica aquela criança ou ela vai ter insucesso escolar.

Se desejar, acesse entrevista completa aqui.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

Vitamina N – seu filho pode estar precisando

Vitamina N - seu filho pode estar precisando

 

Vitamina N, seu filho pode estar precisando. Ele pode estar com falta de vitamina N. 

E você também. E muito provavelmente estão mesmo! Mas por que a vitamina N é importante? Nas crianças, ela ajuda no desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo. Nos adultos, essa vitamina colabora para uma melhor qualidade de vida, pode reduzir ansiedade, estimular criatividade, repor energias e abrir uma porta para a conexão com o mundo espiritual ou alguma crença/religião. Pois é, uma só vitamina tem todas essas propriedades. Mas de onde ela vem? Como adquiri-la? Eu explico: Vitamina N foi um conceito que o jornalista e escritor norte-americano Richard Louv criou para expressar os benefícios do contato com a natureza para os seres humanos, especialmente as crianças.

Vitamina N - seu filho pode estar precisando

Playoutside – alegria de brincar na natureza

Sim, o contato com a natureza possui todas as qualidades descritas acima e muitas outras. O que nos tempos antigos acontecia “naturalmente” (em ambos sentidos da palavra) hoje não é mais comum.  A infância era permeada por brincadeiras que envolviam subir em árvores, mexer na terra, na areia e correr por amplos espaços rodeados de paisagem verde. Hoje em dia isso é luxo!

A vitamina N faz uma certa mágica com crianças: ela transforma galhos em espadas, folhas em moedas de ouro, flores viram coroa de princesa e lama vira bolo de chocolate! Os efeitos dessa mágica se estendem na vida adulta, pois pesquisas mostram que crianças que brincam na natureza tendem a usar mais a imaginação e se tornam adultos mais criativos.

Outra mágica da vitamina N: ela facilita interações sociais positivas. Estudos comprovam que há menos conflitos entre crianças, quando estas brincam juntas na natureza. A magia continua: aqueles que brincam ao ar livre usam seu corpo mais intensamente e, consequentemente, aprimoram suas funções do equilíbrio e de coordenação motora. E agora lhes apresento minha mágica favorita: crianças com problemas de déficit de atenção são mais capazes de se concentrar após passarem um tempo brincando na natureza! Inclusive, estudos mostram que doses de Ritalina (droga indicada para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade )  podem ser reduzidas ou até eliminadas, se a vitamina N é suficientemente ingerida pelo indivíduo.

Vitamina N - seu filho pode estar precisando

Foto: Earth-School

São inúmeros os benefícios da vitamina N e hoje a neurociência está aí como aliada para comprová-los! Não é preciso dizer que o excesso de TV, I-pad, videogame, celular, atividades em salas fechadas e a vida urbana em geral inibem a ingestão de vitamina N. Obesidade infantil, depressão infantil, déficit de atenção, ansiedade, são apenas algumas complicações oriundas da combinação ‘falta de vitamina N e excesso de ‘toxina S’. Toxina o quê? Toxina S. Acabei de criar esse termo, e ele significa ‘sedentarismo’.

Mas… Onde encontrar essa vitamina em uma cidade grande? Há os que acham que ela é rara e só pode ser encontrada na Amazônia, no Pantanal ou em lugares especiais como estes. Mas a natureza, com sua vitamina N, está muito mais disponível do que se imagina. Ela está à nossa volta, basta observarmos melhor. Caminhar em praças ou parques; cultivar jardins e canteiros; fazer hortas caseiras e jardins verticais são alguns exemplos de como adquirir essa vitamina em cidades grandes. Façam uso desses recursos e sintam na pele (e na alma!) os benefícios dessa vitamina! Aproveitem!

Este texto delicioso e super elucidativo é de Marina Siracusa, pedagoga social, formada pela Universidade de Aberdeen na Escócia. Marina trabalhou no Nature Nurture Project, na Escócia, de 2011 à 2014, e é coordenadora do projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, que completou 1 ano em outubro e que propõe a ingestão de  doses de vitamina N pelas crianças.

E por falar em Playoutside, no dia 2 de dezembro estaremos no Parque Cordeiro (São Paulo – SP) para mais uma edição do evento. Para participar basta se inscrever por este link aqui. Venha desfrutar um tempo de paz e conexão com a natureza.

Leia também:  36 motivos para conectar as crianças à natureza

Em contato com a natureza temos acesso a processos vivos que estão em constante transformação. Alimentar os sentidos da criança com formas primordiais, substancias vivas, e elementos naturais que exalam aromas, florescem, frutificam e emitem sons nativos, é fundamental para o desenvolvimento integral infantil.

A natureza é o habitat que inspira e expira a Arte, e a criança em seu olhar inaugural tem esta percepção e registra em cada célula de seu corpo a riqueza dessas impressões sensoriais.

Esperamos você no parque. Viva esta experiência. Junte-se à nós.

Ah, a linda imagem em destaque é do fotógrafo e pai Raphael Bernadelli, que assim como nós, ama levar as crianças para junto da natureza.

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

INFÂNCIA DIGITAL – O PERIGO DA DESCONEXÃO COM A VIDA

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Frente ao panorama da infância digital e o perigo da desconexão com a vida, me pus outro dia a imaginar como agiria com meus filhos se eles fossem pequenos hoje.

Foi como entrar num túnel do tempo e me ver no carro cantando para acalmar meu bebê sentado no banco traseiro durante longos trajetos, ou em uma sala de espera para a consulta médica contando histórias para ele, ou ainda na mesa do restaurante desenhando enquanto aguardávamos a refeição.

Havia tantas opções de nos divertirmos juntos que confesso que é difícil pensar na redução a uma apenas – um aparelho tecnológico. Hoje a pressão da sociedade, das relações interpessoais, da indústria do entretenimento e lazer, conduz ao reducionismo do mundo tecnológico.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

De acordo com levantamento da Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações, hoje temos 242,1 milhões de linhas celulares em operação para uma população de 208,2 milhões de brasileiros (IBGE), o que comprova a incorporação da tecnologia na vida das pessoas e alerta quanto à dimensão da revolução social e complexidade dos tempos atuais.

 

Não há como voltar atrás nos avanços tecnológicos e na sua inserção em todas as esferas da vida moderna. Sua influência torna-se cada dia mais forte e sua utilização essencial para a sociedade.

Existem aspectos altamente positivos na análise desses novos tempos e outros ainda sombrios que levam a muitos questionamentos e evidências de efeitos nocivos.

O uso precoce e excessivo da tecnologia é um fenômeno recente no cenário da infância. Pouco se conhece a respeito de suas consequências a médio e longo prazo. Por esta razão tem sido alvo de pesquisas e estudos para investigação dos impactos e repercussões sobre a dinâmica familiar, desenvolvimento, comportamento e aprendizado infantil.

Hoje com menos de 3 anos de idade, as crianças já sabem  usar smartphones, brincam com tablets, jogam games, entretanto, poucas  são capazes de amarrar os cadarços do tênis, pular corda, amarelinha, subir em árvores, etc.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Os vários gadgets tornaram-se uma extensão das mãos das crianças. Dedinhos cada vez menores deslizam pelas telas touchscreen  e pelas teclas  dos computadores, notebooks e controles remotos da TV.

Quais os efeitos da iniciação precoce ao mundo digital para a saúde física e psíquica das crianças? Quais as influências que essas tecnologias exercem no comportamento infantil durante a fase de formação e desenvolvimento? Quais os impactos das mudanças sociais para a cultura da infância?

 

 

O QUE MOSTRAM AS PESQUISAS

De acordo com a pesquisa TIC Kids online Brasil 2015 –  feita com os pais de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos de idade,  do universo de 29,7 milhões nesta faixa etária, 80% são usuárias da Internet. O uso diário é intenso, corresponde a 84%, sendo que 68% acessam a Internet mais de uma vez ao dia – um aumento em relação a levantamento de 2014.

Com relação à média de idade do primeiro acesso, 44% acessam até os 9 anos, sendo que o telefone celular se tornou o principal dispositivo de acesso a internet, seguido do computador de mesa e tablet. Dados que mostram diminuição do acesso por computador de mesa e crescimento do acesso por tablet em comparação com resultados anteriores.

A residência continua a se apresentar como o principal local de acesso à internet por crianças e adolescentes, seguido pela casa de outra pessoa, escola e lanhouses.

Segundo o estudo americano Zero to Eight: Children’s Media Use in America de 2013, publicado pelo Common Sense Media, que desenvolve estudos sobre o impacto da mídia e das novas tecnologias sobre as crianças, entre 2011 e 2013 o acesso a mídias móveis pelas crianças americanas estourou. Neste período o número de crianças menores de 8 anos com acesso a tablets quintuplicou pulando de  8% para 40%. Em 2013, 38% das crianças com menos de 2 anos utilizavam um gadget, ante 10% em 2011. Entre 2 a 4 anos a taxa subiu de 39% para 80% e entre 5 e 8 anos, de 52% para 83%.

As pesquisas demonstram que crianças e adolescentes tem acesso cada vez mais cedo ao mundo tecnológico e permanecem conectadas por mais tempo. Trata-se de um fenômeno global.

 

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Profissionais da área da saúde e educação alertam quanto aos efeitos que de alguma maneira tem sido relacionados ao uso precoce e abusivo das tecnologias digitais pelas crianças:

-Dificuldade de concentração

-Distúrbios do sono

-Obesidade 

-Alterações da visão

-Riscos auditivos

-Disfunções posturais e articulares

-Dificuldades de socialização

-Atraso de aprendizagem

-Agressividade

-Bullying

-Radiação

-Dependência

 De acordo com o Dr. Cristiano Nabuco de Abreu, psicólogo e coordenador do Grupo de Dependência Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do  Hospital das Clínicas de São Paulo, a situação é preocupante. Ele tem atendido casos de crianças viciadas em smartphones, videogames e tablets, incapazes de se relacionar sem ser virtualmente, de manter a concentração e até mesmo dar sequência a um raciocínio lógico.

Em sua experiência clínica, tem atendido casos de crianças com pouco mais de 2 anos de idade que não comem, nem vão para a cama se não tiverem o aparelho ao lado.

 

Por que pais e educadores devem ficar atentos ao acesso tecnológico precoce e abusivo?

O Dr. Abreu explica que o processo de amadurecimento cerebral  é  finalizado somente após os 21 anos. Ele adverte que

Existem operações mentais que precisam naturalmente ser feitas e o grau de estimulação de um tablet desrespeita essa ‘ecologia’, essa natureza de desencadeamento da lógica. Quanto mais a criança ficar exposta a tecnologia, piores serão suas funções cognitivas, como a memória e desenvolvimento da atenção.

 

Por que pais estão colocando crianças cada vez mais novas em frente às telas por períodos cada vez mais longos?

Quem faz essa pergunta é o Dr. Michael Rich – pediatra americano, que em resposta à preocupação de pais a respeito do preparo de seus filhos para a competição no mundo digital, esclarece que

 As crianças aprendem muito rapidamente a navegar e a usar mídias de tela interativa, mais rapidamente do que os adultos, que precisam desaprender hábitos pré-digitais. A interface entre usuário e tela está se tornando cada vez mais intuitiva, o que torna ainda mais fácil para os nativos digitais a usarem.

Na visão do Dr. Rich, o tempo gasto com as mídias digitais pela criança está tomando o lugar de atividades mais importantes ao estímulo e desenvolvimento do cérebro infantil e impedindo que a criança vivencie um tempo de inatividade (tédio), necessário para a organização psicológica e a criatividade.

As telas estão roubando um tempo precioso da criança – o tempo do  brincar, uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil em todos os aspectos, físico, emocional, cognitivo, social e espiritual.

 

O QUE AS CRIANÇAS NOS DIZEM

Considerando o cérebro da criança ainda em desenvolvimento perante a velocidade e variação de estímulos que o uso de dispositivos digitais provoca ao mesmo tempo, é importante frisar que cada etapa de desenvolvimento da criança exige elaboração e organização interna e que estímulos externos excessivos podem provocar desordem pela aceleração e/ou antecipação daquilo que a criança ainda não está pronta para vivenciar. A criança tem um limite de capacidade de absorção de sensações e estímulos.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Para a criança pequena é muito mais adequado e saudável receber estímulos naturais como ouvir o pai ou a mãe contando histórias. O trabalho em absorver a história é muito maior, exige que a criança construa suas próprias imagens, e faça conexões para atribuir significado ao que está ouvindo. Isso torna a criança  mais ativa na situação em comparação com a passividade gerada pelo olhar fixo na tela, seja vendo um filme ou jogando.

Diante das telas, corpo e imaginação ficam inativos. As imagens estão prontas diante da criança, não deixando espaço para a imaginação criativa.

Outro aspecto a ser abordado é que as mídias de telas interativas têm sido fortemente usadas por adultos para promover distração nas crianças, ocupá-las, e mais do que isso, hoje são usadas como “chupetas eletrônicas” com o intuito de acalmá-las nas mais variadas situações do dia a dia – durante as refeições, para ir ao banheiro, adormecer mais facilmente, em passeios de carro, em salas de espera, restaurantes, procedimentos médicos, etc. As crianças estão vivendo um estado de anestesiamento diante da vida real.

Julieta Jerusalinsky, psicanalista infantil propõem importantes questionamentos quanto a este estado de alienação a que as crianças estão submetidas na atualidade, os quais devemos refletir:

 

– Que registro a criança vai fazer do próprio corpo se ela come olhando para a tela de um celular?

– Que apropriação do corpo a criança tem nessa situação ou em inúmeras outras onde ela é levada a fazer coisas do dia-a-dia de forma inconsciente, anestesiada, “distraída de si”, do que ela realmente está fazendo?

Sob o ponto de vista das relações sociais a Dra. Jerusalinsky observa que:

– Vivemos em tempos que podemos estar de corpo presente, mas psiquicamente ausente em relação àqueles que nos rodeiam. De corpo presente, mas sempre olhando para uma janela virtual, vamos nos situando como um sujeito “fora do espaço”.

– Os aparelhos emitem sequências sonoras, mas não conversam, não produzem uma matriz dialógica em que os lugares sejam subjetivados, eles oferecem fragmentariamente uma linguagem, mas não sustentam uma função. Emitir sequências sonoras é bem diferente de dar lugar a que o sujeito possa se representar na linguagem […] Para isso precisamos, pelo menos no início da vida, estar uns com os outros, e não com gadgets eletrônicos.

-Os pais e educadores se encontram com uma forma de transmissão das informações que não é mais mediada pelos adultos próximos. Na medida em que a criança tem acesso à internet, tem acesso a esta informação “desencarnada”, uma informação não mediada”.

Há um perigo muito grande nessa ausência de mediação. Máquinas “falam” com as crianças por horas todos os dias de maneira fria, impessoal, descontextualizada, desprovida das experiências vivenciadas dos adultos, sem a transmissão de valores culturais. A linguagem dos smartphones e tablets é uma linguagem de isolamento.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Foto Shutterstock

A Dra. Jerusalinsky avalia a importância dos três primeiros anos de vida da criança como um “tempo primordial da constituição psíquica, fase que está em jogo a constituição de si, a apropriação do próprio corpo e a relação consigo mesmo, além do estabelecimento das relações com o outro”.

Refletindo sobre a influência dessa revolução digital que crianças já em tenra idade estão sofrendo, outras indagações podem ser levantadas: Que modelo do que é ser humano é oferecido às crianças de hoje? Uma vez que elas veem adultos conectados 24 horas, o que elas estão assimilando a cerca de como acontecem as relações humanas? O que é estar com o outro? Existe relação sem celular? Os dispositivos digitais necessariamente nos acompanham a todos os lugares e em todos os momentos?

Diante de tantas dúvidas e incertezas percebe-se que há muitas peculiaridades nesses novos comportamentos que necessitam atenção e cuidado. Adultos e crianças estão sendo sugados para seus próprios mundos digitais. Isso não é sem consequência, interfere no convívio social, na interação e qualidade dos relacionamentos, restringe a comunicação, o olhar, o toque, suprime a separação de tempo de trabalho e tempo de lazer e família, e interrompe o momento presente a cada nova mensagem que chega, a cada toque do celular.

Como pais e educadores podem orientar suas condutas em relação ao uso de dispositivos digitais pelas crianças?  Onde podem se ancorar de maneira segura e coerente para limitar o tempo de tela das crianças?

Para rever o mundo que hoje é apresentado à criança e orientar este cenário de tantas inquietações e incertezas que temos testemunhado, é preciso estabelecer  princípios  e procedimentos éticos capazes de  nortear o processo educativo da criança.

A educação infantil tanto no âmbito familiar quanto escolar, precisa de bases sólidas onde se sustentar. Compreender a natureza da criança, suas características e necessidades biopsicossociais  espirituais frente  às etapas do seu desenvolvimento, é o ponto de partida proposto para trilhar de maneira segura o caminho da desafiadora  tarefa da educação da criança nos dias de hoje.

É importante respeitar as etapas do desenvolvimento infantil para a formação de indivíduos saudáveis e autônomos, compreendendo que cada fase é base para a próxima, e todas elas exigem um trabalho interno da criança, além de estímulos saudáveis do mundo externo.

É necessário entender que a criança apreende o mundo e aprende  de forma gradual, ao nível de sua compreensão, segundo uma grandeza interna de prioridades, ordenadas pelos conhecimentos já assimilados por ela.

A infância é um período de desenvolvimento físico, emocional, cognitivo e social. A criança trabalha intensamente para a construção do seu vir a ser diante do mundo.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Espera-se que pais e educadores atuem como facilitadores desse processo, pois o ser humano depende do ambiente em que vive, do incentivo que recebe e da interação com outros seres humanos para se desenvolver.

Dessa forma o ambiente, constituído por tudo aquilo que traz estímulo aos cinco sentidos, deve ser amigável à criança, passando pelo tato, no toque de objetos naturais, até aromas, imagens, sons, que não agridam a criança e que a façam vivenciar experiências genuinamente humanas.

Raffi Cavoukian, ativista da infância, fundador do Centre for Child Honouring, diz que nenhuma tela de computador vai dar a criança uma brisa suave de verão, isso é impossível. O aroma da primavera não vai vir da tela. Nenhum toque que realmente emocione virá de representações artificiais do mundo. Aprender no mundo real é primordial para uma experiência positiva e formativa.

Infância digital - o perigo da desconexão com a vida

Foto Raphael Bernadelli

Os estímulos advindos do mundo digital, artificial, são pobres frente à diversidade e qualidade de estímulos que a criança necessita.

A criança aprende melhor e de forma mais eficiente com brincadeiras e interagindo com os pais, cuidadores, professores e amigos no mundo real e tridimensionalSe ela passar um tempo muito extenso em atividades tecnológicas, poderá comprometer habilidades sociais, de comunicação e a inteligência comportamental.

Lembremo-nos, na ausência do outro, o homem não se constrói homem. Somos os maiores responsáveis pelo estabelecimento do elo emocional entre a geração de nativos digitais e o mundo vida, e igualmente responsáveis por desenvolver uma consciência que entenda a cultura da infância como uma etapa particular do processo de iniciação do humano de forma a garantir a sobrevivência da nossa espécie.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

36 MOTIVOS PARA CONECTAR AS CRIANÇAS À NATUREZA

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Depois de conhecer os 36 motivos para conectar as crianças à natureza, vocês pais, não vão querer ficar dentro de casa com elas. Vocês professores, se sentirão provocados a ultrapassar os limites da sala de aula e romper os muros da escola.

A infância vive um momento de grande complexidade e se encontra no centro das incertezas desta época, expondo as crianças precocemente às mesmas angústias que os adultos estão sujeitos.

As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram de forma considerável a estrutura da vida familiar e seus reflexos podem ser observados nitidamente na vida da criança.

37 motivos para conectar as crianças à natureza

Foto: BBC

Hoje a maioria da população brasileira vive em centros urbanos, onde as crianças passam a maior parte do tempo em locais fechados, dentro de casa – em frente das grandes telas televisivas e das pequenas telas portáteis de smartphones, tablets e vídeo games. Nas escolas, elas permanecem quase o tempo todo dentro de salas de aulas. E ainda nos finais de semana, quando saem com seus familiares, vão aos shoppings, restaurantes e cinemas.

Os novos hábitos transformaram o ritmo e a rotina das crianças, criando estilos de vida mais individuais, sedentários, que desfavorecem o convívio social, atividades físicas, o exercício imaginativo, e a autonomia da criança.

Um forte sinal de alerta são as doenças típicas de adultos que hoje acometem também a população infantil, tais como a obesidade, diabetes, miopia, doenças cardiovasculares, entre outras. O que este fenômeno está nos dizendo? Precisamos investigar e refletir.

UMA BOA NOTÍCIA

Um movimento de retorno à natureza tem se espalhado pelo mundo. Muitas iniciativas estão surgindo com o objetivo de expandir a consciência e promover mudanças neste cenário, estimulando o contato com o mundo natural e mais tempo ao ar livre.

Em contato com a natureza a criança tem acesso a processos vivos que estão em constante transformação. Alimentar os sentidos da criança com formas primordiais, substancias vivas, e elementos naturais que exalam aromas, florescem, frutificam e emitem sons nativos, é fundamental para o desenvolvimento integral infantil.

36 motivos para conectar as crianças à natureza

4daddy

A criança deve ser compreendida como um ser lúdico, contemplativo, explorador e investigativo, e atendida nessas necessidades.

Pesquisas científicas já comprovaram inúmeros benefícios que o contato com a natureza propicia. Esses benefícios envolvem aspectos físicos, emocionais, cognitivos, sociais e espirituais.

 

 

VAMOS A ELES? EIS OS PRINCIPAIS MOTIVOS PARA CONECTAR AS CRIANÇAS À NATUREZA 

1.Permite maior movimentação corporal auxiliando na estruturação do sistema muscular. Estar ao ar livre é um convite para o movimento – correr, pular, escorregar, explorar troncos caídos, escalar barrancos, etc.

2.Ajuda na aquisição do equilíbrio do corpo

3.Desenvolve a destreza corporal

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

4.Contribui para o domínio espacial

5.Promove estímulos sensoriais

6.Propicia maior gasto de energia, que é uma necessidade biológica do corpo

7.Auxilia na qualidade do sono, tão importante para a fase de crescimento infantil

8.Regula hormônios, diminui o cortisol (hormônio do stress)

9.Ajuda a respirar melhor

10.Contribui para a melhora nas medições de pressão sanguínea e batimentos cardíacos

11.Previne a obesidade

 

 

12.Previne a deficiência de Vitamina D, pela exposição aos raios solares.

13.Previne a miopia. Espaços amplos, abertos e com iluminação natural estimulam o exercício dos músculos oculares. As crianças precisam focar em objetos grandes e ao longe. É importante que os olhos se movimentem seguindo a linha vertical, horizontal e de profundidade para a prevenção do encurtamento dos músculos dos olhos. A ocorrência de miopia tem crescido entre as crianças e uma das explicações é o acesso precoce e excessivo ao mundo tecnológico.

14.Fortalece o sistema imunológico, pois a criança entra em contato com uma série de bactérias e micro-organismos

15.Previne o desenvolvimento de alergias

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Foto Luiza Esteves divulgada pelo Instituto Alana

16. A criança aprende a correr riscos e medi-los, como ao subir numa árvore.

17. A criança aprende a superar desafios

18.Desenvolve resiliência e autoconfiança

19.Colabora para a autonomia da criança

20.Alivia a ansiedade

21.Diminui a hiperatividade

 

 

22.Reduz a agressividade

23.Estimula a capacidade cognitiva

24.Aumenta a concentração

25.Contribui para a melhoria da aprendizagem

26.Nutri a imaginação

27.Enriquece o repertório da criança

28.Promove a convivência e interação social

29.Fortalece os vínculos afetivos

37 motivos para conectar as crianças à natureza

Papo de Pracinha

30.Estimula o espírito solidário

31.Dá a sensação de liberdade e pertencimento

32.Promove equilíbrio interno, autorregulador da criança.

33.Promove harmonia, vitalidade e alegria

34.Eleva a capacidade criativa

35.Estimula o cuidado com o meio ambiente. A criança em contato com a natureza é o potencial cuidador e preservador do meio ambiente, porque em sua memória haverá registros do significado do frescor à sombra de uma árvore por exemplo

36.Promove a educação ambiental vivencial, na prática

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

Proporcionar e incentivar o brincar livre da criança em contato com a natureza  é algo simples, de baixo custo, que traz muita alegria, encantamento e um profundo sentimento de unidade e pertencimento. Pode ser uma caminhada num parque ou numa praça para ouvir o vento soprar, o canto dos pássaros, observar as árvores , as cores das flores. Respirar fundo e sentir o cheiro de terra úmida. Pisar em folhas secas. Procurar minhocas, musgos, borboletas. Subir em árvores, correr entre elas, e muito mais.

Tudo isso propiciará a formação de um reservatório de experiências vivas e reais para a vida.

No relato de memórias infantis de muitos escritores, é comum encontrar passagens de aventuras ao ar livre, lembranças de vivências calorosas em conexão com a natureza.

QUAIS  LEMBRANÇAS QUEREMOS QUE AS CRIANÇAS TENHAM DE SUAS INFÂNCIAS?   

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

Richard Louv em seu livro A última criança da natureza fala  que “Um círculo cada vez maior de pesquisadores acredita que a perda do habitat natural, ou a desconexão com a natureza, mesmo quando ela está disponível, tem implicações enormes para a saúde humana e o desenvolvimento infantil. Eles dizem que a qualidade dessa exposição afeta nossa saúde em um nível celular”.

 

 

Educando Tudo Muda concedeu uma entrevista ao site da revista Exame falando sobre a importância de conectar as crianças à natureza. Leia a matéria do site EXAME aqui.

Para falar a Exame, nos fundamentamos na experiência com o projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, que está comemorando um ano de atividades. O projeto Playoutside busca restabelecer o elo emocional das crianças com a natureza, estimular o brincar ao ar livre, promover valores pró-sociais  e  fortalecer os laços familiares. Acreditamos que esse  é o antídoto para uma infância high-tech e a maneira de despertarmos uma nova geração de cuidadores da natureza.

Conheça mais sobre o Playoutside aqui. Confira na agenda nosso próximo encontro e participe.

Somos a última geração de pais e educadores que conheceu o mundo sem a   influência do forte avanço tecnológico. Somos os grandes responsáveis pelo estabelecimento e incentivo do elo emocional da geração de nativos digitais com o mundo natural.

36 motivos para conectar as crianças à natureza

Playoutside – alegria de brincar na natureza

 

Então vamos,  #playoutside. Comece hoje mesmo a mudar o cenário atual da infância. Vamos nos mobilizar no desafio de tornar a infância de nossas crianças mais verde.

Junte-se a nós. Espalhe esta semente.

 

abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

BRINCAR COM PALAVRAS

Brincar com palavras

Palavras também podem ser brinquedo na boca das crianças. Que tal experimentar brincar com palavras?

Então vamos lá. Chamem as crianças e peçam para elas repetirem esta frase:

Três doidos tentam deitar dentro de três tendas

Acharam fácil? E esta?

Tatu bola matuto batuca um batuque em Botucatu

 

Brincar com palavras

Esses são os trava-línguas, jogo verbal que consiste em dizer de forma rápida e clara, versos ou frases que contenham semelhança sonora das suas sílabas. Trata-se de rimas infantis da cultura popular, transmitida de geração em geração.

O fato de terem de ser ditas com rapidez, faz com que o jogo se torne uma brincadeira desafiante e divertida, inclusive para os adultos. Crianças na faixa entre 6 e 8 anos gostam bastante dessa brincadeira. Além de diversão, é um excelente recurso para o desenvolvimento linguístico.

Na escola podem se tornar um projeto interdisciplinar muito interessante envolvendo a família, com a participação inclusive dos avós para enriquecer o repertório. Ainda, pode-se estimular a turma a criar seus próprios trava-línguas.

Até mesmo em casa, os pais também podem elaborar com as crianças um caderno de trava-línguas e juntos se divertirem muito.

Este foi o que criamos  em casa quando as crianças eram pequenas. Meus filhos adoravam brincar com palavras. Demos boas risadas brincando assim! Aliás, este foi um jogo que me ajudou bastante em momentos que precisava entreter as crianças, como em salas de espera de consultórios médicos, no carro em viagens longas, etc.

Mas foi muito além. Pude perceber o quanto foi benéfico para o processo de alfabetização deles, pois os trava-línguas estimulam a atenção e concentração, melhoram a dicção, desenvolvem naturalmente a questão do ritmo, o que ajuda na absorção da divisão silábica e leitura oral.

 

Viu quantos benefícios? O que está esperando para começar a brincadeira?

Brincar com palavras

Esta é uma maneira natural, saudável e lúdica de ajudar as crianças  no processo de aprendizado da escrita e leitura. Temos discutido muito aqui no Educando Tudo Muda as questões sobre a pressão escolar, a importância de respeitar o tempo de amadurecimento cognitivo de cada criança e o espaço do brincar –  base da infância.

Profissionais de várias áreas que trouxemos para debater este tema foram unânimes quanto à necessidade de compreender a criança como um ser integral, considerando no aprendizado formal os aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais da criança.

É assim que pensa também o odontólogo Dr. Saulo Teles¹, nosso convidado para contar um pouco a respeito de sua experiência e observações no consultório no atendimento às crianças.

 

UM OLHAR INTEGRAL

“Procuro sempre olhar meu paciente como um todo, como propõe o paradigma holístico. Observamos a repercussão do social/emocional naquele paciente.

Em tese, a criança estaria preparada para alfabetização por volta dos 7 anos quando ocorre a mielinização de certos nervos o que vem proporcionar a plasticidade corporal, os ritmos, a pinça, a oposição do polegar, segurança para se afastar da mãe, etc

Avaliamos a postura bucal, as maloclusões, ocorrência de dentes fora da posição adequada, mordida cruzada, sobre mordidas, retrusão maxilar e/ou mandibular, posição da língua, se faz o vedamento labial eficiente, se mastiga bilateralmente, etc.

Observamos também a postura da cabeça, dos olhos, dos ombros, da coxofemural, joelhos, tornozelos, da forma como pisa, da marcha, do seu eixo postural, o desempenho escolar, como interage socialmente, relação com pai e mãe, histórico de saúde, entre outros.

 

O QUE SINALIZA O AMADURECIMENTO DA CRIANÇA PARA O PROCESSO DE LETRAMENTO?

Geralmente a criança dá sinais de prontidão. A presença dos incisivos laterais é um sinal forte da sua demanda social/escolar. A pinça, a oposição do polegar, marcha mais refinada. A própria criança pede para ir à escola.

A infância, como uma estação do ano, se dá entre 0 a 7 anos. Esse é o tempo destinado para estar em família brincando, correndo, gritando, aprendendo a interagir, vivendo os afetos, se semialfabetizando através do contar estórias, etc. Tudo que se opõe a esses aspectos antecipa, acelera, gera fortes tensões nas cadeias musculares, podendo provocar enfermidades variadas.

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

Se educa a personalidade, se educa o ego, de forma que na ausência daquele, não há nada a educar. Afastar a cria da mãe antes do momento adequado pode ser desastroso. Amamentação interrompida, filhos terceirizados nas escolas. Geralmente apresentam sintomas tais como falta de vedamento labial, dentes tortos, mandíbula retraída, problemas cognitivos, hiperatividade, distúrbios de personalidade, autismo, postura corporal inadequada, etc.

É um assunto extenso que geralmente é tratado dentro de uma ótica sistêmica, com um sentido filogenético que vem a sustentar a ontogenia de cada ser. A biologia com seu código genético, pede expressão funcional no meio, de forma que se houver oposição a esta expressão poderá ocorrer sintomas. É importante lembrar que cada espécie tem suas  formas e funções”.

Agradecemos a participação do Dr. Saulo Teles que deixa claro a importância de olhar a criança em todos os seus aspectos para que ela possa se desenvolver de maneira harmoniosa, equilibrada, com saúde, pois na organização do ser humano tudo está interligado e funciona em cadeia. Desta forma, nada pode ser visto isoladamente quando se fala em desenvolvimento integral do ser humano.

Vale também salientar que hoje muitos profissionais da área de saúde defendem a necessidade de um período maior de licença maternidade e paternidade para o cuidado da criança nos primeiros anos e o estreitamento dos vínculos afetivos, vitais para o desenvolvimento infantil.

Brincar com palavras

Recomendo a leitura do livro “A criança terceirizada”, do Dr. José Martins Filho e também o TED do Dr. Daniel Becker. Ambos bem esclarecedores sobre o valor das relações familiares nos dias de hoje.

Voltando à questão do brincar com palavras, espero que tenha despertado o interesse por essa brincadeira tão gostosa. Para finalizar, fica mais um desafiante trava-línguas:

Quando eu digo Diogo, eu não digo Digo. Quando eu digo Digo, eu não digo Diogo

 

 

 

Participe você também desta reflexão deixando seu comentário. Fique por dentro de temas atuais ligados a infância cadastrando-se no site, e ainda receba um lindo e-book gratuitamente:
http://educandotudomuda.us14.list-manage.com/subscribe/post

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

¹- Graduado em Odontologia em 1980

– Atualização em Ortopedia Funcional dos Maxilares

– Atualização em Bio Cibernetica Bucal

– Pós em Saude Coletiva

– Pós em Ortodontia

– Pós graduando em DTM

– Processo Fisher Hoffman da Quadrinidade

– Eneagrama da Personalidade

– Fundacion Rio Abierto Movimento e expressão

– Terapia Craniossacral

 

 

 

 

 

 

 

 

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Entender o processo de alfabetização sob a perspectiva da Fonoaudiologia é uma maneira de ampliar o olhar para as necessidades da criança na primeira infância.

A criança nos primeiros anos de vida tem diante de si enormes desafios, desde colocar-se na posição vertical e andar até assumir a sua própria individualidade. Este é um dos períodos de maior aprendizado na vida da criança.

Entre tantas conquistas desafiantes, temos o aprendizado da leitura e escrita, que deve ser entendido como um processo respeitoso à individualidade e o tempo de cada criança.

Para elucidar o processo de alfabetização convidamos a fonoaudióloga Viviane Gilg¹,  à frente da Clínica Expressão Fonoaudiologia desde 2009, que apontará aspectos importantes a serem observados por pais e educadores.

 

DESAFIOS DA CRIANÇA, AMBIENTE  E INTERAÇÃO DOS MEDIADORES

A linguagem oral representa uma das aquisições mais significativas na vida de uma criança, é um dos marcos de desenvolvimento. A incapacidade e/ou dificuldade em se expressar e se comunicar por meio da fala pode gerar experiências frustrantes, colocando o indivíduo em provável desvantagem de desenvolvimento (por exemplo, nas habilidades psicossociais, de linguagem e de aprendizagem).

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

O desenvolvimento da linguagem acontece mesmo antes do bebê emitir palavras, por meio de vocalizações, olhares e gestos, e por meio da discriminação dos sons da fala do outro. Posteriormente, com a aquisição dos primeiros sons e por meio da interação, inicia-se a fase linguística (sons com significado). Esse processo, contínuo e complexo, também depende de condições neurobiológicas e ambientais apropriadas.

 

 

Assim, sabemos que, em geral, as crianças irão pronunciar as primeiras palavras ao redor dos 12 a 18 meses, aumentarão seu vocabulário entre 18 a 24 meses (respeitando as variações individuais). Aos 4 anos, espera-se que as crianças consigam construir frases sem muitos erros gramaticais.

Nessa mesma idade, muitas crianças são capazes de memorizar letras, escrever o próprio nome, até mesmo reproduzirem palavras inteiras. O que não significa maturidade para compreender a linguagem escrita e sim a habilidade de memória já desenvolvida.

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Considerando que o processo de desenvolvimento da linguagem é contínuo, se dá por meio da combinação entre aspectos neurobiológicos, ambientais, ao acesso ao conhecimento e pela interação, sabe-se que a criança começa a ter oportunidades de construir conhecimentos importantes a respeito da linguagem escrita mesmo antes de saber formalmente a ler e escrever, por exemplo, ao conviver com pessoas que leem e escrevem e também ao ter acesso a materiais de leitura e escrita. Especificamente o desenvolvimento motor e linguístico irá desempenhar papel importante no processo formal de aprendizagem da leitura e da escrita, sabemos que a alfabetização é um processo bastante complexo.

A inserção da criança ao mundo formal de alfabetização permite um questionamento importante: ela está “preparada” para a alfabetização? Do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, sabemos que nem toda criança de 6 anos possui uma comunicação eficiente, sua estrutura de linguagem oral pode ainda estar contaminada por substituições, omissões por exemplo. Sua capacidade de construir frases complexas também. Contudo, temos exemplos de crianças com 4 anos que já apresentam domínio da linguagem oral.

 

O QUE CONTRIBUI PARA O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO?

O estímulo ao desenvolvimento de habilidades e competências para desenvolver a leitura e escrita nos parece uma forma mais respeitosa ao nível de desenvolvimento da criança e consegue respeitar as características singulares, individuais e ambientais de cada uma. Crianças em idade pré-escolar estão em pleno desenvolvimento, exercitar a compreensão dessa complexidade que é a linguagem oral, estimular a leitura como algo prazeroso desde cedo, são atitudes importantes que enriquecerão e trarão mais chances de sucesso ao processo de alfabetização e, inclusive, de constituição do sujeito.

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Entre os quatro e seis anos é possível despertar o interesse da criança pela leitura e escrita, o que proporcionará um início do processo de alfabetização mais natural, com o letramento do aprendiz ocorrendo em seguida, sem necessariamente haver uma alfabetização formal.

Antes dos seis anos, é comum a criança não diferenciar letras de desenhos, ao passo que aos sete, oito anos já percebe até mesmo a presença da nasalidade dos sons e aí já é possível conseguir diferenciá-los na grafia. Essa distinção entre letras e desenhos é uma possível pista de “prontidão” para aprendizagem (embora muitos autores não concordem com o termo “prontidão”).

Conforme descrito por VERONEZI² (2011): “com esse desenvolvimento completo da oralidade infantil, a criança está pronta para adentrar o universo da escrita e tentar simbolizar a fala e seus pensamentos por meio de grafemas da língua escrita, aprendendo a operar com suas regras e elementos limitadores da tão rica expressão verbal”.

 

O QUE A PRESSÃO E ACELERAÇÃO AO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO PODE ACARRETAR?

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Observamos que inserir a criança antecipadamente em um processo formal de alfabetização pode ser, no mínimo, desrespeitoso à ela, pois etapas importantes de seu desenvolvimento (cognitivo, sensório motor, de linguagem e da audição) serão suprimidas e como consequências, recebemos nos consultórios clientes com as mais variadas queixas: fracasso escolar, incapacidade de acompanhar o aprendizado, confusão de letras, dispersão, por exemplo. Também está presente o risco de rotular precocemente a criança sendo portadora, por exemplo, de Dislexia, Transtorno e Déficit de Atenção e Hiperatividade (problemas esses que são reais, desde que diagnosticados de maneira adequada).

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

É importante que o trabalho educativo com crianças em idade pré-escolar, do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, considere para além da idade cronológica da criança, considere seu desenvolvimento psicobiológico, proporcione e estimule as habilidades como consciência fonológica, atividades lúdicas de fala e linguagem, atenção sustentada, memória operacional, relações entre codificação e decodificação de sons e memória auditiva, por exemplo.

 

 

Respeitar o desenvolvimento da criança

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

proporciona à ela e ao seu processo de aprendizagem o fortalecimento de autoconfiança, segurança em executar tarefas, capacidade de observar e entender o erro e tentar sua (re)construção, evitando que esse período seja de frustrações e de sentimentos de incapacidade, o que pode interferir negativamente em seu desenvolvimento futuro.

 

 

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

¹VIVIANE GILG DA SILVA GONZALEZ  –  Graduada em Fonoaudiologia pela PUC/SP, pós-graduada em Voz. Experiência de mais de 18 anos em Fonoaudiologia Clínica. Atuação em Treinamento e Desenvolvimento em Comunicação Humana, planejamento e atuação em palestras, oficinas, treinamentos.

 

² A ALFABETIZAÇÃO PRECOCE E PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA ESCRITA – Ana Mirtiz Veronezi  –  PUC Paraná

 

 

 

É TEMPO DE BRINCAR

é tempo de brincar

É tempo de brincar

Chamem as crianças nas casas

Conclamem a infância prás ruas

Pois é tempo de brincar

é tempo de brincar

Imagem: criancaenatureza.org.br

Diz o poeta

Quando as crianças brincam

E as ouço brincar

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar

 

Convoquem grandes e pequenos

Para a alegria contagiante

Das brincadeiras e cantigas de roda

Esconde-esconde, pega-pega

 

é tempo de brincar

É tempo de iluminar becos e praças

Com olhos de crianças curiosas

Com sorrisos de descobertas

 

 

 

É tempo de comungar com a vida

Que pulsa incessante pelo meio fio

E fazer da infância um fio inteiro

 

Anunciem aos quatro ventos

Que ser criança é natural

É ter pés descalços

Prá pisar no mundo da Lua

 

é tempo de brincar

É ver tromba de elefante

Se transformar em roda gigante

Na imensidão do céu azul

 

 

 

 

 

Invadam as vilas

Libertem seus corpos brincantes

Do mundo quadrado dos quartos

Das celas de aula, das telas

 

Resgate-os para serem protagonistas

Num palco de terra,

Num cenário de verde, de flores

De aromas e texturas reais

 

é tempo de brincar

Imagem: bikeélegal.com

Devolvam à infância o gosto bom

Da aventura e da liberdade

De crescer solta

De mãos dadas com outras crianças

 

Antes que seja tarde

Antes que a última criança feneça

E não acredite mais

Que o mundo é bom, belo e verdadeiro

 

devolvam o tempo de brincar na educação infantil

 

Sinto me profundamente tocada com o cenário atual da infância. As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram a estrutura da vida familiar e a vida da criança. A crescente urbanização associada ao medo da violência, geraram isolamento e contribuíram para uma cultura de confinamento. Os hábitos de vida de hoje desfavorecem o convívio social, atividades físicas ao ar livre, a imaginação e autonomia da criança.

Estamos adoecendo a infância. Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu recentemente em Calgary, no Canadá, revelam que a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60, os transtornos de ansiedade entre as crianças cresceu até 18 vezes e as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores. Ao mesmo tempo, o brincar livre das crianças vem diminuindo significativamente desde 1955.

Não é preciso muito esforço para correlacionar estes dados e concluir que trata-se de causa e efeito. Por esta razão é que fazemos este apelo: devolvam à infância o tempo e espaço de brincar livre.

 

Brincar é condição indispensável para que a criança se desenvolva de maneira saudável. Brincar é potência de crescimento humano, tanto quanto falar e andar.

 

Leia também: DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Educando Tudo Muda participou a semana passada do I Encontro Natureza e (des) Medicalização. Em pauta muitos temas que precisam ser debatidos pela sociedade, entre eles o aumento da medicalização infantil e de toda a sociedade, a necessidade de uma escola mais aberta e verde, uma cidade que acolha a criança, e uma comunidade responsável pela infância.

Apresentamos neste evento o projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, que tem como proposta realizar encontros de crianças e seus familiares em parques públicos, com o intuito de restabelecer o vínculo emocional das pessoas com o mundo natural para promover saúde e bem estar.

Como pais e educadores, temos a responsabilidade de desenvolver uma consciência que entenda a cultura da infância como uma etapa particular do processo de iniciação do humano, de forma a garantir a sobrevivência de nossa espécie.

Se você se inquieta com estas questões, compartilhe este texto e deixe seu comentário para que possamos refletir sobre mudanças que favoreçam a vida das crianças na cidade.

Fica aqui a continuidade do poema de Fernando Pessoa

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

5-9-1933
Poesias. Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 166

Abraço esperançoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

EDUCAÇÃO INFANTIL E AS CEM LINGUAGENS DA CRIANÇA

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

A Educação Infantil deve ser um espaço e tempo de liberdade para o desenvolvimento das cem linguagens da criança, entre elas, o brincar – linguagem universal da infância.

Temos debatido sobre o processo de aprendizagem na Educação Infantil desde a publicação do artigo DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL, leia aqui.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Dando continuidade as discussões, esta semana Educando Tudo Muda entrevistou Raquel Franzim, pedagoga e especialista em Educação Infantil. Raquel trabalhou por quase 15 anos na rede municipal de educação da cidade de SP em cargos de docência, gestão e formação de educadores. Atualmente é assessora pedagógica no Instituto Alana, na área de educação e cultura da infância e coordena junto com a Ashoka o Programa Escolas Transformadoras no Brasil.

 

Quando uma criança está preparada para dar início ao processo de alfabetização sob o ponto de vista do desenvolvimento integral?

Depende do que se entende por alfabetização. Se entendermos alfabetização apenas como a decodificação de letras, há um consenso de que a criança inicia esse processo lá pelos seis ou sete anos. No entanto, se entendermos alfabetização como um processo amplo de interpretação e construção de sentido sobre o mundo e às marcas gráficas, contínuo em toda vida humana, podemos dizer que esse processo inicia-se ainda na vida intrauterina e termina ao morrermos.

Toda criança, desde seu nascimento, vive em uma cultura repleta de símbolos gráficos, do mundo letrado. Mesmo sem ainda ler e escrever tal como o convencionado socialmente, crianças pequenas atribuem significado e reconstroem a seu modo as marcas orais e escritas do mundo.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Imagem: Avante.org.br

Portanto, não há momento específico para iniciar esse processo, mas todo o cuidado deve se ter para que a linguagem verbal, seja ela escrita ou oral, não sejam as únicas linguagens exploradas pela escola. Loris Mallaguzzi, educador italiano, por exemplo, defendia que a criança tem muitas linguagens, diversas formas de se expressar, de compreender e de reinventar o mundo.

 

Na sua visão, o que é a alfabetização precoce? O que você considera antecipação e aceleração desse processo?

As práticas educativas que desconsideram a infância como um período muito ativo por parte da criança e com diferentes formas de expressão, aprendizagem, interação com e sobre o mundo. A criança é construtora de culturas, de formas de ser, pensar e estar no mundo. Isso é uma coisa.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Outra coisa é a escola privilegiar o tempo de vida da criança na escola apenas para a exploração da linguagem verbal (escrita e oral), uma das muitas linguagens da criança. Mais problemático é se a escola organiza as experiências de linguagem verbal sem relação nenhuma com a vida e com as práticas sociais de ouvir, falar, ler, escrever.

Certa vez, ouvi uma terapeuta ocupacional falar da linha de desenvolvimento humano. Foi a melhor explicação que já ouvi! Bebês e crianças pequenas se desenvolvem em um movimento céfalo-caudal (da cabeça aos pés, não  à toa bebês levam um tempo para sustentar a cabeça e depois conquistar a marcha, o caminhar) e próximo-distal (ou seja, do centro do corpo, partindo do coração, dos afetos, passando pelos movimentos amplos do corpo até a parte mais fina – os dedos e os movimentos de pinça). Ignorar isso é ignorar a ciência e muitas oportunidades das crianças se desenvolverem de corpo e alma, integralmente.

 

Quais os efeitos da alfabetização precoce?

Desconheço pesquisas que retratem isso. E muitas professoras e professores de educação infantil sabem, pela experiência viva, que crianças necessitam de vivência, relação e muito tempo e espaço para brincar. No entanto, a pressão social pelo aprendizado da linguagem escrita é muito forte. A maioria das famílias compreende a escola como um espaço para ‘aprender’ e não para brincar.

É difícil reconhecer o quanto as crianças aprendem outras coisas nessa fase da vida. Por isso, é papel de toda escola ajudar a família a aprender a olhar a experiência da criança pequena. E entender que ela não é pequena ou menor que outras experiências que virão mais para frente.

Também faz-se necessário dar mais visibilidade a pais e educadores pesquisas que evidenciam a importância do desenvolvimento integral e integrado nessa fase da vida e o impacto nos anos seguintes e na vida como um todo.

Temos a vida toda para aprender a ler e escrever formalmente, mas apenas 6, 7 anos para explorar intensamente toda a nossa capacidade física, sensorial, simbólica, gestual, comunicativa e criativa.

 

Qual a essência do trabalho na Educação Infantil?

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

O essencial na educação infantil é a possibilidade da criança interagir com uma comunidade maior que suas próprias famílias. Ampliar os horizontes sociais e culturais. Se sentir pertencente a uma comunidade, participando ativamente dela. Toda a experiência nos 7 primeiros anos de vida é extremamente marcada pelo afeto aprendido e construído nas e pelas relações, pelo desenvolvimento das emoções, do sentir e se relacionar com diversos sentimentos. Junto com outras crianças da mesma idade e de diferentes idades, poder construir suas próprias narrativas, sejam elas corporais, simbólicas, orais, musicais etc.

 

O brincar, na primeira infância, não é apenas uma forma da criança aprender o mundo. É especialmente sua principal linguagem e meio de criação e reinvenção da vida. Não há fase na vida com tamanha intensidade como essa.

 

O que irá mudar na Educação Infantil a partir das discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular ?

As audiências públicas realizadas nas 4 regiões do país e no Distrito Federal mostraram que a educação infantil é marcada historicamente pela compreensão de uma escola preparatória para o ensino fundamental. Isso traz graves consequências ao desenvolvimento integral das crianças, por privilegiar apenas a linguagem verbal na relação de ensino e aprendizagem. Imagine, como as crianças são podadas em sua criatividade e construção de conhecimento, sentimento e fazeres se apenas um dos aspectos delas? Contudo, a Base ainda aguarda a deliberação do Conselho Nacional de Educação e a homologação da versão, com o parecer do Conselho. Ademais, acredito que as escolas, educadores e famílias que acreditam que a educação infantil é um espaço plural não deixarão de o fazer, mesmo se a Base trouxer uma abordagem contrária.

Um alerta é o crescente apelo comercial do mercado editorial para padronização dos processos de ensinar e aprender na educação infantil, por meio de apostilas e materiais didáticos. Isso significa que há um enorme interesse de grupos econômicos em vender material para essa fase da vida – tolhendo a criatividade e autonomia não apenas de educadores, mas do potencial criador e criativo das crianças.

 

Para finalizar, deixamos aqui o poema de Loris Mallaguzi , educador a quem Raquel faz referência:

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Ao contrário, as cem existem

A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem sempre cem
modos de escutar
de maravilhar e de amar.
Cem alegrias para cantar e compreender.
Cem mundos para descobrir.
Cem mundos para inventar
Cem mundos para sonhar.
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubam-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e de maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir um mundo que já existe
e de cem roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe enfim:
que as cem não existem.
A criança diz:
ao contrário, as cem existem.

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A escolarização na Educação Infantil é um tema que tem causado inquietação em pais e educadores. O que estamos fazendo com a infância? O modus vivendi da sociedade contemporânea com seus excessos, têm adoecido as crianças. Querem cedo demais tirá-las do seu tempo e espaço natural de desenvolvimento. Querem cedo demais intelectualizar, atrofiando os sentidos, limitando a curiosidade e vontade da criança de explorar e vivenciar o mundo livremente.

Em julho o Educando Tudo Muda propôs discutir esta questão por meio do artigo DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL leia aqui, que obteve mais de 37.000 acessos.

Com o objetivo de ampliar e enriquecer esta reflexão, convidamos a coordenadora pedagógica Katherine Stravogiannis¹, para compartilhar  sua visão a cerca do sentido do aprendizado nos primeiros anos escolares.

Katherine dá início as suas considerações destacando uma citação de Tomás de Aquino “a admiração é o desejo de conhecimento!”, e fazendo as seguintes perguntas:

-Como deixar que as crianças revelem seus estupores e deslumbramentos diante da vida, permitindo-lhes a continuidade destes na própria escola?

-Como podemos questionar o real sentido de aprendizado?

 

PENSANDO NA IMAGEM DE CRIANÇA IMPREVISÍVEL, CRÍTICA E QUESTIONADORA,

Colecionadora de infâncias

uma educação adequada deve levar em consideração o contexto como sustentáculo educativo, e não mero cenário burocrático. Além disso, há de se atentar aos relacionamentos, valorizando como as crianças aprendem, ao contrário de enaltecer aquilo que desconhecem. O foco também deve voltar-se às oportunidades, não somente expectativas adultas, que por sua vez ignoram a compreensão profunda e epistemológica de como aprendem, muito além dos cenários prescritivos e circunscritos que, por sua vez, desconsideram os complexos caminhos de mobilização interna.

 

Os pequeninos já nascem com a capacidade de maravilhar-se com a beleza da realidade, necessária para aprender, porque o próprio cérebro humano está preparado para conectar-se às experiências sensoriais e interpessoais, não pelos estridentes discursos e explicações, mas pela mobilização da própria curiosidade.

 

Durante muitos anos, o modelo mecanicista triunfou por determinar socialmente onde cada criança necessita chegar e, atualmente, questionando o sistema educacional, precisamos repensar sobre quais as necessidades reais de nossas crianças, devolvendo-lhes o coprotagonismo na aprendizagem. Em primeiro lugar, torna-se necessário minimizar o espaço para os resultados pré-formulados, classificatórios e sistemáticos, que caracterizam um currículo especificamente voltado para fins, e não processos contínuos. Quando vislumbramos a criança em uma nova perspectiva, compreendemos a Educação Infantil como um rico ambiente para compartilharmos a vida cotidiana, que se inicia em espaços de referência como a própria sala, e criam enredos em outros locais, conectando-as, por exemplo, à própria natureza.

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Para isso, precisamos fazer escolhas de consciência ética e política, apoiando as crianças nas suas experiências genuínas, considerando que o corpo todo se envolve no aprendizado, e não apenas as mãos e os olhos. O conhecimento deve ser vivenciado em condições de maior vivacidade e entusiasmo cultural, considerando, por exemplo, princípios citados por Morin, como transdisciplinaridade e co-participação, que não combinam com a aprendizagem solitária reduzida a papeis.

Nesse sentido, pensando especificamente na Educação Infantil, quando tomamos a nova Base Nacional Comum Curricular como referência, pode-se dizer que os campos de experiência possivelmente representem um avanço na valorização às relações e ludicidade, quando confrontadas às atuais áreas de conhecimento, que supostamente apresentam uma visão fragmentada de como as aprendizagens, nos tempos suspensos, rarefeitos e não lineares, se conectam. Não há mudança efetiva quando não se repensam as concepções, e isto implica em formação continuada, bem como valorização dos fazeres, e não das programações que inviabilizam a construção de cotidianidade. Em outras palavras, em nada valerá alterar um documento formal em cada escola tendo a Base como norte, se os educadores não buscam ressignificar a qualidade das próprias experiências escolares, questionando-as sucessivamente. É importante ter o documento como norte formal, mas o caminho compete ao campo escolar, de identidade intelectual própria.

Contudo, há muita inquietação quanto à conclusão do processo de alfabetização antecipado ao segundo ano do Ensino Fundamental, entendendo-se como uma fronteira com a Educação Infantil. Nesse sentido, a escola necessita cuidar da progressão curricular, atentando-se às rupturas, mas ao mesmo tempo acolhendo as necessidades socioemocionais das crianças em seus tempos próprios. A efetiva comunicação entre os níveis de ensino favorecerá que a experiência seja acolhedora, com desafios, mas ampla em oportunidades dialógicas.

 

ALFABETIZAÇÃO – O QUE DEMANDA ESTE PROCESSO?

Com a alfabetização, não é diferente. Antes de tudo, precisamos pensar que este é um processo que demanda condições cognitivas, um certo grau de maturação e de abstração, que são características de um pensamento mais reversível e, portanto, operatório. As crianças não podem ser classificadas como aptas ou não, dependendo de sua história, carregada de informações biológicas, maturacionais e motivacionais. Atualmente, não podemos pensar num processo de alfabetização com data determinada para a súbita estreia, mas consideramos o processo de letramento que respeita as experiências de vida e significância letrada desde que a criança é concebida. E essa criança deseja estar em contato com o mundo e conhecer seus códigos comunicativos.

 

ALFABETIZAÇÃO PRECOCE E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Uma alfabetização precoce pode ser entendida como aquela que desconsidera desde a creche os momentos de cada criança, compreendendo-a como um mecanismo unicamente transmissivo, não afetivo, externo, que não considera os tempos da infância, suas hipóteses e interrogações, mas insiste em determinar o que deve ser internalizado. Muitas vezes essas práticas podem ser observadas em exercícios repetitivos, sem sentido, com alto grau de abstração, distanciando-se do próprio universo infantil e desconsiderando a arquitetura do seu desenvolvimento e pensamento sincrético e autocentrado. E a aceleração traz implicações na própria aprendizagem, pois etapas anteriores e estruturantes podem ser suprimidas, interferindo diretamente na motivação e autoestima. Quando silenciamos as linguagens da criança, anulamos seus percursos de aprendizagem, podendo correr o risco de dificultar a potência de seu aprendizado.

A criança é naturalmente ávida por crescer, desenvolver-se, e o desenho, a arte, é sua primeira forma de comunicação escrita e registrada. A criatividade qualifica seu pensamento, e a ludicidade, a repertoria simbolicamente.


 

Para escrever, ela necessita de um discurso elaborado, para que a função comunicativa da linguagem, cerne da escrita, se preserve. Por isso, muitos sistemas mecanicistas verificam crianças alfabéticas, mas sem referenciais verdadeiramente letrados prévios, sem repertório literário amplo. E, outras, pequeninas, com amplo discurso, repleto de conectores, surpresas vocabulares, não são formalmente alfabéticas, mas demonstram competência discursiva e conhecimento letrado admirável.

 

O QUE É PRECISO OBSERVAR

Então, para que escrevam, há de se atentar a etapas prévias, como o próprio desenho e o simbolismo do pensamento, bem como a ampliação dos gêneros e tipologias literárias. Textos coletivos, bilhetes, convites, acesso a adultos escribas de rico vocabulário, literatura qualificada, ambiente letrado são exemplos de encorajadores do discurso, fortalecedores do significado real da necessidade de escrever. E, aos poucos, a criança desejará registrar seu nome, que é um texto estável, referencial potente para sustentar outras regularidades de escrita, comparando-o a de seus colegas, questionando sobre as letras similares, tentando representar sons que lhes são familiares. Neste momento, há indícios de que a escrita lhe interessa verdadeiramente, e que intervenções construtivas são favoráveis para o conflito cognitivo.

 

DEVEMOS NOS RECORDAR QUE A EDUCAÇÃO INFANTIL É

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

uma etapa que deve caracterizar a interrogação da própria vida, com pesquisa, encantamento, sentido e, principalmente, evidenciando o papel privilegiado do brincar, vivida plenamente, sem transformar-se num cenário adultocêntrico, mas sim, num espaço relacional e altamente educativo.

 

Necessitamos ajudar nossas crianças a compreender o mundo e a si mesmas neste universo, dando-lhes amplas oportunidades de aprendizagens significativas, cercando-as de beleza.

 

Nossos agradecimentos a participação de Katherine Stravogiannis.

Participe você também desta reflexão deixando seu comentário. Fique por dentro de temas atuais ligados a infância cadastrando-se no site, e ainda receba um lindo e-book gratuitamente:
http://educandotudomuda.us14.list-manage.com/subscribe/post

Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

[1] É coordenadora pedagógica, acompanhando a formação docente, desenvolve cursos e assessorias pedagógicas, atua na Educação Infantil há mais de 15 anos. Licenciada em Letras, alemão e português pela USP, pedagoga e psicopedagoga pela CEUCLAR, especialista em Educação Infantil pela FACEI, em relações interpessoais e autonomia moral na escola pela UNIFRAN, em Neuropsicopedagogia e mestranda em Ciências da Educação pela UNIGRENDAL. Já participou de diversos cursos de extensão na área do bilinguismo e educação contemporânea, bem como formações continuadas no Brasil e exterior, mantendo o site educacional Pedagogia e Infância (www.pedagogiaeinfancia.com.br)

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO- ÚLTIMA PARTE

O IMPACTO DE UM PAI NA VIDA DE UM FILHO from GUILHERME GIMENEZ on Vimeo.

A crise atual do sistema educacional brasileiro requer reflexão, revisões  e a busca por novos paradigmas para a educação.

Propõe-se aqui um aprofundamento e compreensão da extensão dessa crise  a partir da análise de algumas premissas, sendo que as duas primeiras foram apresentadas em artigos anteriores.

  1. Visão do ser humano integral (acesse aqui)
  2. Origem da palavra  Educar (acesse aqui)
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

Passamos agora a abordar a necessidade do trabalho apurado de autoconhecimento e autoeducação por aqueles que se dispõem ao exercício da docência.

Para a compreensão da relevância da autoeducação, analisemos o pensamento de Rudolf Steiner, filósofo e educador austríaco (1861-1925):

 


Não há, basicamente, em nenhum nível, uma outra educação que não seja a auto-educação. […] Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o entorno da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior.


Novos paradigmas da educação

Podemos entender ‘destino interior’ como a essência central distinta, individual do ser humano.

Paulo Freire também fala que é necessário se educar para educar, e que se educar é impregnar de sentido cada momento da vida, cada ato do cotidiano.

Portanto, eu educo o outro, educando a mim mesmo, e o que faço enquanto educador, é criar o ambiente favorável em volta da criança, proporcionando assim condições por meio das quais a própria criança se revele.

 

 

Novos paradigmas para a educação

Como um jardineiro, nossa tarefa é encontrar as condições adequadas para cada tipo de semente, o tipo certo de solo, o adubo adequado, a proteção e irrigação corretas, achar os ingredientes apropriados que darão suporte e força a semente, para que ela brote, surja para fora, emerja sua natureza e cresça formosa.

 

Levando em conta que uma das características marcantes da criança é sua capacidade imitativa, podemos ressaltar a importância de modelos adequados de homens e mulheres em torno da criança como espelhamento de seres humanos íntegros. A criança não repete apenas a fala, o movimento e gestual do adulto, ela é capaz de assimilar o que o educador é, e assim reproduzir sua maneira de viver. E mais tarde, quando adolescente, de forma contumaz, procurará a veracidade nos educadores, tutores e pais, por meio da comparação entre o que esses falam e suas ações, seu jeito de se colocar no mundo, de ser e viver.

Por esta razão o educador, como referencial para a criança, adolescente e jovem, tem grande responsabilidade, pois atua no campo ético moral. Daí a importância do seu trabalho constante de autoconhecimento, como instrumento de revisão, aprimoramento e desenvolvimento humano, como processo de construção de si mesmo, num contínuo explorar-se, conhecer-se, transformar-se.

Enquanto educadores, precisamos nos tornar modelos mais adequados para as novas gerações que iniciam seus processos de construção de seres humanos no mundo.

 

A ARTE COMO CAMINHO DE REENCANTAMENTO DA EDUCAÇÃO

A educação convencional que vem se perpetuando, está fundamentada numa concepção materialista, cientificista, mecanicista, pautada na transmissão de conhecimento e informação. Vem privilegiando o desenvolvimento do lado cognitivo, deixando em segundo plano o corpo e a alma da criança. Isto porque o homem moderno tem endeusado a abstração, a fórmula, a quantificação e os avanços tecnológicos.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

A partir da concepção do ser humano integral, não podemos mais fundamentar o sistema educacional levando em conta apenas uma parte do que é o homem. Precisamos educar na/para inteireza.

Precisamos educar para a vida, abarcar o coração do homem no processo educativo, considerando seus sentimentos, emoções, relações. É necessário trazer para a educação temas essenciais, como o amor, a alegria, solidariedade, gentileza, temas estes que a racionalidade moderna não comporta por não conseguir explica-los cientificamente.

Precisamos reencantar a educação, com uma linguagem que fale à alma da criança, por meio de vivências artísticas, estéticas. A arte é o caminho que permite o desenvolvimento harmônico da criança, porque é a linguagem do coração. Ela permeia a razão e a conecta com o lado anímico da criança, fortalecendo a sua vontade, o seu fazer no mundo, e suas interações com o mundo.

cabeça humana escola waldorf

A expressão artística, seja pela pintura, modelagem, dança, teatro, poesia, música, etc., desperta a consciência do mundo interior de cada ser, faz a ponte entre o lado intelectual humano e sua capacidade de ação, possibilita a criação de algo resultante da sua imaginação e fantasia.

Rudolf Steiner afirma que: “A pedagogia não pode ser uma ciência – deve ser uma arte”. Educação é arte. Que possamos nos sentir inspirados para fazer uma nova escola, fundamentada no respeito à totalidade do ser humano, na confiança do desenvolvimento e aprimoramento das potencialidades humanas.

Como síntese desta reflexão, fica aqui a poesia do Profº Ruy Cezar do Espírito Santo:

 

A Grande Transformação

Buscar a fonte da inspiração artística

É dirigir-se ao mais dentro do Homem

À Fonte única que de forma original

Derrama o fruto da sua percepção

 

Novos paradigmas para a educação

Encontrar essa Fonte

É desvelar a possibilidade do Amor

É trazer o Homem novamente aos dez anos,

De onde se afastou pelo que chamamos de “educação”…

 

 

O Amor dissipou-se no instante em que o “jovem de 10 anos”

Sentiu-se perdido nos labirintos escolares,

Onde cabeças sem coração são “formadas”

Sem a presença da Arte…

 

Novos paradigmas para a educação

Assim, resgatar a Arte

É redescobri a Fonte interior de Alegria e Amor…

É voltar aos dez anos, desta vez

Ciente do sentido e da significação da existência.

 

 

 

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017, da  PUC de São Paulo  e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

 

Espero seu comentário.

Cadastre-se no site e receba as atualizações.

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado