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BRINCAR COM PALAVRAS

Brincar com palavras

Palavras também podem ser brinquedo na boca das crianças. Que tal experimentar brincar com palavras?

Então vamos lá. Chamem as crianças e peçam para elas repetirem esta frase:

Três doidos tentam deitar dentro de três tendas

Acharam fácil? E esta?

Tatu bola matuto batuca um batuque em Botucatu

 

Brincar com palavras

Esses são os trava-línguas, jogo verbal que consiste em dizer de forma rápida e clara, versos ou frases que contenham semelhança sonora das suas sílabas. Trata-se de rimas infantis da cultura popular, transmitida de geração em geração.

O fato de terem de ser ditas com rapidez, faz com que o jogo se torne uma brincadeira desafiante e divertida, inclusive para os adultos. Crianças na faixa entre 6 e 8 anos gostam bastante dessa brincadeira. Além de diversão, é um excelente recurso para o desenvolvimento linguístico.

Na escola podem se tornar um projeto interdisciplinar muito interessante envolvendo a família, com a participação inclusive dos avós para enriquecer o repertório. Ainda, pode-se estimular a turma a criar seus próprios trava-línguas.

Até mesmo em casa, os pais também podem elaborar com as crianças um caderno de trava-línguas e juntos se divertirem muito.

Este foi o que criamos  em casa quando as crianças eram pequenas. Meus filhos adoravam brincar com palavras. Demos boas risadas brincando assim! Aliás, este foi um jogo que me ajudou bastante em momentos que precisava entreter as crianças, como em salas de espera de consultórios médicos, no carro em viagens longas, etc.

Mas foi muito além. Pude perceber o quanto foi benéfico para o processo de alfabetização deles, pois os trava-línguas estimulam a atenção e concentração, melhoram a dicção, desenvolvem naturalmente a questão do ritmo, o que ajuda na absorção da divisão silábica e leitura oral.

 

Viu quantos benefícios? O que está esperando para começar a brincadeira?

Brincar com palavras

Esta é uma maneira natural, saudável e lúdica de ajudar as crianças  no processo de aprendizado da escrita e leitura. Temos discutido muito aqui no Educando Tudo Muda as questões sobre a pressão escolar, a importância de respeitar o tempo de amadurecimento cognitivo de cada criança e o espaço do brincar –  base da infância.

Profissionais de várias áreas que trouxemos para debater este tema foram unânimes quanto à necessidade de compreender a criança como um ser integral, considerando no aprendizado formal os aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais da criança.

É assim que pensa também o odontólogo Dr. Saulo Teles¹, nosso convidado para contar um pouco a respeito de sua experiência e observações no consultório no atendimento às crianças.

 

UM OLHAR INTEGRAL

“Procuro sempre olhar meu paciente como um todo, como propõe o paradigma holístico. Observamos a repercussão do social/emocional naquele paciente.

Em tese, a criança estaria preparada para alfabetização por volta dos 7 anos quando ocorre a mielinização de certos nervos o que vem proporcionar a plasticidade corporal, os ritmos, a pinça, a oposição do polegar, segurança para se afastar da mãe, etc

Avaliamos a postura bucal, as maloclusões, ocorrência de dentes fora da posição adequada, mordida cruzada, sobre mordidas, retrusão maxilar e/ou mandibular, posição da língua, se faz o vedamento labial eficiente, se mastiga bilateralmente, etc.

Observamos também a postura da cabeça, dos olhos, dos ombros, da coxofemural, joelhos, tornozelos, da forma como pisa, da marcha, do seu eixo postural, o desempenho escolar, como interage socialmente, relação com pai e mãe, histórico de saúde, entre outros.

 

O QUE SINALIZA O AMADURECIMENTO DA CRIANÇA PARA O PROCESSO DE LETRAMENTO?

Geralmente a criança dá sinais de prontidão. A presença dos incisivos laterais é um sinal forte da sua demanda social/escolar. A pinça, a oposição do polegar, marcha mais refinada. A própria criança pede para ir à escola.

A infância, como uma estação do ano, se dá entre 0 a 7 anos. Esse é o tempo destinado para estar em família brincando, correndo, gritando, aprendendo a interagir, vivendo os afetos, se semialfabetizando através do contar estórias, etc. Tudo que se opõe a esses aspectos antecipa, acelera, gera fortes tensões nas cadeias musculares, podendo provocar enfermidades variadas.

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

Se educa a personalidade, se educa o ego, de forma que na ausência daquele, não há nada a educar. Afastar a cria da mãe antes do momento adequado pode ser desastroso. Amamentação interrompida, filhos terceirizados nas escolas. Geralmente apresentam sintomas tais como falta de vedamento labial, dentes tortos, mandíbula retraída, problemas cognitivos, hiperatividade, distúrbios de personalidade, autismo, postura corporal inadequada, etc.

É um assunto extenso que geralmente é tratado dentro de uma ótica sistêmica, com um sentido filogenético que vem a sustentar a ontogenia de cada ser. A biologia com seu código genético, pede expressão funcional no meio, de forma que se houver oposição a esta expressão poderá ocorrer sintomas. É importante lembrar que cada espécie tem suas  formas e funções”.

Agradecemos a participação do Dr. Saulo Teles que deixa claro a importância de olhar a criança em todos os seus aspectos para que ela possa se desenvolver de maneira harmoniosa, equilibrada, com saúde, pois na organização do ser humano tudo está interligado e funciona em cadeia. Desta forma, nada pode ser visto isoladamente quando se fala em desenvolvimento integral do ser humano.

Vale também salientar que hoje muitos profissionais da área de saúde defendem a necessidade de um período maior de licença maternidade e paternidade para o cuidado da criança nos primeiros anos e o estreitamento dos vínculos afetivos, vitais para o desenvolvimento infantil.

Brincar com palavras

Recomendo a leitura do livro “A criança terceirizada”, do Dr. José Martins Filho e também o TED do Dr. Daniel Becker. Ambos bem esclarecedores sobre o valor das relações familiares nos dias de hoje.

Voltando à questão do brincar com palavras, espero que tenha despertado o interesse por essa brincadeira tão gostosa. Para finalizar, fica mais um desafiante trava-línguas:

Quando eu digo Diogo, eu não digo Digo. Quando eu digo Digo, eu não digo Diogo

 

 

 

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Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

¹- Graduado em Odontologia em 1980

– Atualização em Ortopedia Funcional dos Maxilares

– Atualização em Bio Cibernetica Bucal

– Pós em Saude Coletiva

– Pós em Ortodontia

– Pós graduando em DTM

– Processo Fisher Hoffman da Quadrinidade

– Eneagrama da Personalidade

– Fundacion Rio Abierto Movimento e expressão

– Terapia Craniossacral

 

 

 

 

 

 

 

 

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Entender o processo de alfabetização sob a perspectiva da Fonoaudiologia é uma maneira de ampliar o olhar para as necessidades da criança na primeira infância.

A criança nos primeiros anos de vida tem diante de si enormes desafios, desde colocar-se na posição vertical e andar até assumir a sua própria individualidade. Este é um dos períodos de maior aprendizado na vida da criança.

Entre tantas conquistas desafiantes, temos o aprendizado da leitura e escrita, que deve ser entendido como um processo respeitoso à individualidade e o tempo de cada criança.

Para elucidar o processo de alfabetização convidamos a fonoaudióloga Viviane Gilg¹,  à frente da Clínica Expressão Fonoaudiologia desde 2009, que apontará aspectos importantes a serem observados por pais e educadores.

 

DESAFIOS DA CRIANÇA, AMBIENTE  E INTERAÇÃO DOS MEDIADORES

A linguagem oral representa uma das aquisições mais significativas na vida de uma criança, é um dos marcos de desenvolvimento. A incapacidade e/ou dificuldade em se expressar e se comunicar por meio da fala pode gerar experiências frustrantes, colocando o indivíduo em provável desvantagem de desenvolvimento (por exemplo, nas habilidades psicossociais, de linguagem e de aprendizagem).

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

O desenvolvimento da linguagem acontece mesmo antes do bebê emitir palavras, por meio de vocalizações, olhares e gestos, e por meio da discriminação dos sons da fala do outro. Posteriormente, com a aquisição dos primeiros sons e por meio da interação, inicia-se a fase linguística (sons com significado). Esse processo, contínuo e complexo, também depende de condições neurobiológicas e ambientais apropriadas.

 

 

Assim, sabemos que, em geral, as crianças irão pronunciar as primeiras palavras ao redor dos 12 a 18 meses, aumentarão seu vocabulário entre 18 a 24 meses (respeitando as variações individuais). Aos 4 anos, espera-se que as crianças consigam construir frases sem muitos erros gramaticais.

Nessa mesma idade, muitas crianças são capazes de memorizar letras, escrever o próprio nome, até mesmo reproduzirem palavras inteiras. O que não significa maturidade para compreender a linguagem escrita e sim a habilidade de memória já desenvolvida.

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Considerando que o processo de desenvolvimento da linguagem é contínuo, se dá por meio da combinação entre aspectos neurobiológicos, ambientais, ao acesso ao conhecimento e pela interação, sabe-se que a criança começa a ter oportunidades de construir conhecimentos importantes a respeito da linguagem escrita mesmo antes de saber formalmente a ler e escrever, por exemplo, ao conviver com pessoas que leem e escrevem e também ao ter acesso a materiais de leitura e escrita. Especificamente o desenvolvimento motor e linguístico irá desempenhar papel importante no processo formal de aprendizagem da leitura e da escrita, sabemos que a alfabetização é um processo bastante complexo.

A inserção da criança ao mundo formal de alfabetização permite um questionamento importante: ela está “preparada” para a alfabetização? Do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, sabemos que nem toda criança de 6 anos possui uma comunicação eficiente, sua estrutura de linguagem oral pode ainda estar contaminada por substituições, omissões por exemplo. Sua capacidade de construir frases complexas também. Contudo, temos exemplos de crianças com 4 anos que já apresentam domínio da linguagem oral.

 

O QUE CONTRIBUI PARA O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO?

O estímulo ao desenvolvimento de habilidades e competências para desenvolver a leitura e escrita nos parece uma forma mais respeitosa ao nível de desenvolvimento da criança e consegue respeitar as características singulares, individuais e ambientais de cada uma. Crianças em idade pré-escolar estão em pleno desenvolvimento, exercitar a compreensão dessa complexidade que é a linguagem oral, estimular a leitura como algo prazeroso desde cedo, são atitudes importantes que enriquecerão e trarão mais chances de sucesso ao processo de alfabetização e, inclusive, de constituição do sujeito.

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Entre os quatro e seis anos é possível despertar o interesse da criança pela leitura e escrita, o que proporcionará um início do processo de alfabetização mais natural, com o letramento do aprendiz ocorrendo em seguida, sem necessariamente haver uma alfabetização formal.

Antes dos seis anos, é comum a criança não diferenciar letras de desenhos, ao passo que aos sete, oito anos já percebe até mesmo a presença da nasalidade dos sons e aí já é possível conseguir diferenciá-los na grafia. Essa distinção entre letras e desenhos é uma possível pista de “prontidão” para aprendizagem (embora muitos autores não concordem com o termo “prontidão”).

Conforme descrito por VERONEZI² (2011): “com esse desenvolvimento completo da oralidade infantil, a criança está pronta para adentrar o universo da escrita e tentar simbolizar a fala e seus pensamentos por meio de grafemas da língua escrita, aprendendo a operar com suas regras e elementos limitadores da tão rica expressão verbal”.

 

O QUE A PRESSÃO E ACELERAÇÃO AO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO PODE ACARRETAR?

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

Observamos que inserir a criança antecipadamente em um processo formal de alfabetização pode ser, no mínimo, desrespeitoso à ela, pois etapas importantes de seu desenvolvimento (cognitivo, sensório motor, de linguagem e da audição) serão suprimidas e como consequências, recebemos nos consultórios clientes com as mais variadas queixas: fracasso escolar, incapacidade de acompanhar o aprendizado, confusão de letras, dispersão, por exemplo. Também está presente o risco de rotular precocemente a criança sendo portadora, por exemplo, de Dislexia, Transtorno e Déficit de Atenção e Hiperatividade (problemas esses que são reais, desde que diagnosticados de maneira adequada).

Leia também: Por que não alfabetizei meu filho antes dos 7 anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

É importante que o trabalho educativo com crianças em idade pré-escolar, do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem, considere para além da idade cronológica da criança, considere seu desenvolvimento psicobiológico, proporcione e estimule as habilidades como consciência fonológica, atividades lúdicas de fala e linguagem, atenção sustentada, memória operacional, relações entre codificação e decodificação de sons e memória auditiva, por exemplo.

 

 

Respeitar o desenvolvimento da criança

PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DA FONOAUDIOLOGIA

proporciona à ela e ao seu processo de aprendizagem o fortalecimento de autoconfiança, segurança em executar tarefas, capacidade de observar e entender o erro e tentar sua (re)construção, evitando que esse período seja de frustrações e de sentimentos de incapacidade, o que pode interferir negativamente em seu desenvolvimento futuro.

 

 

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

¹VIVIANE GILG DA SILVA GONZALEZ  –  Graduada em Fonoaudiologia pela PUC/SP, pós-graduada em Voz. Experiência de mais de 18 anos em Fonoaudiologia Clínica. Atuação em Treinamento e Desenvolvimento em Comunicação Humana, planejamento e atuação em palestras, oficinas, treinamentos.

 

² A ALFABETIZAÇÃO PRECOCE E PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DA LÍNGUA ESCRITA – Ana Mirtiz Veronezi  –  PUC Paraná

 

 

 

É TEMPO DE BRINCAR

é tempo de brincar

É tempo de brincar

Chamem as crianças nas casas

Conclamem a infância prás ruas

Pois é tempo de brincar

é tempo de brincar

Imagem: criancaenatureza.org.br

Diz o poeta

Quando as crianças brincam

E as ouço brincar

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar

 

Convoquem grandes e pequenos

Para a alegria contagiante

Das brincadeiras e cantigas de roda

Esconde-esconde, pega-pega

 

é tempo de brincar

É tempo de iluminar becos e praças

Com olhos de crianças curiosas

Com sorrisos de descobertas

 

 

 

É tempo de comungar com a vida

Que pulsa incessante pelo meio fio

E fazer da infância um fio inteiro

 

Anunciem aos quatro ventos

Que ser criança é natural

É ter pés descalços

Prá pisar no mundo da Lua

 

é tempo de brincar

É ver tromba de elefante

Se transformar em roda gigante

Na imensidão do céu azul

 

 

 

 

 

Invadam as vilas

Libertem seus corpos brincantes

Do mundo quadrado dos quartos

Das celas de aula, das telas

 

Resgate-os para serem protagonistas

Num palco de terra,

Num cenário de verde, de flores

De aromas e texturas reais

 

é tempo de brincar

Imagem: bikeélegal.com

Devolvam à infância o gosto bom

Da aventura e da liberdade

De crescer solta

De mãos dadas com outras crianças

 

Antes que seja tarde

Antes que a última criança feneça

E não acredite mais

Que o mundo é bom, belo e verdadeiro

 

devolvam o tempo de brincar na educação infantil

 

Sinto me profundamente tocada com o cenário atual da infância. As mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas alteraram a estrutura da vida familiar e a vida da criança. A crescente urbanização associada ao medo da violência, geraram isolamento e contribuíram para uma cultura de confinamento. Os hábitos de vida de hoje desfavorecem o convívio social, atividades físicas ao ar livre, a imaginação e autonomia da criança.

Estamos adoecendo a infância. Dados mundiais apresentados pelo psicólogo Peter Gray na 20ª Reunião Internacional da Associação Internacional do Brincar – IPA, que aconteceu recentemente em Calgary, no Canadá, revelam que a depressão infantil já é de 7 a 10 vezes maior que nos anos 60, os transtornos de ansiedade entre as crianças cresceu até 18 vezes e as taxas de suicídios até 15 anos estão 4 vezes maiores. Ao mesmo tempo, o brincar livre das crianças vem diminuindo significativamente desde 1955.

Não é preciso muito esforço para correlacionar estes dados e concluir que trata-se de causa e efeito. Por esta razão é que fazemos este apelo: devolvam à infância o tempo e espaço de brincar livre.

 

Brincar é condição indispensável para que a criança se desenvolva de maneira saudável. Brincar é potência de crescimento humano, tanto quanto falar e andar.

 

Leia também: DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Educando Tudo Muda participou a semana passada do I Encontro Natureza e (des) Medicalização. Em pauta muitos temas que precisam ser debatidos pela sociedade, entre eles o aumento da medicalização infantil e de toda a sociedade, a necessidade de uma escola mais aberta e verde, uma cidade que acolha a criança, e uma comunidade responsável pela infância.

Apresentamos neste evento o projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, que tem como proposta realizar encontros de crianças e seus familiares em parques públicos, com o intuito de restabelecer o vínculo emocional das pessoas com o mundo natural para promover saúde e bem estar.

Como pais e educadores, temos a responsabilidade de desenvolver uma consciência que entenda a cultura da infância como uma etapa particular do processo de iniciação do humano, de forma a garantir a sobrevivência de nossa espécie.

Se você se inquieta com estas questões, compartilhe este texto e deixe seu comentário para que possamos refletir sobre mudanças que favoreçam a vida das crianças na cidade.

Fica aqui a continuidade do poema de Fernando Pessoa

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

5-9-1933
Poesias. Fernando Pessoa.
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 166

Abraço esperançoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

EDUCAÇÃO INFANTIL E AS CEM LINGUAGENS DA CRIANÇA

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

A Educação Infantil deve ser um espaço e tempo de liberdade para o desenvolvimento das cem linguagens da criança, entre elas, o brincar – linguagem universal da infância.

Temos debatido sobre o processo de aprendizagem na Educação Infantil desde a publicação do artigo DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL, leia aqui.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Dando continuidade as discussões, esta semana Educando Tudo Muda entrevistou Raquel Franzim, pedagoga e especialista em Educação Infantil. Raquel trabalhou por quase 15 anos na rede municipal de educação da cidade de SP em cargos de docência, gestão e formação de educadores. Atualmente é assessora pedagógica no Instituto Alana, na área de educação e cultura da infância e coordena junto com a Ashoka o Programa Escolas Transformadoras no Brasil.

 

Quando uma criança está preparada para dar início ao processo de alfabetização sob o ponto de vista do desenvolvimento integral?

Depende do que se entende por alfabetização. Se entendermos alfabetização apenas como a decodificação de letras, há um consenso de que a criança inicia esse processo lá pelos seis ou sete anos. No entanto, se entendermos alfabetização como um processo amplo de interpretação e construção de sentido sobre o mundo e às marcas gráficas, contínuo em toda vida humana, podemos dizer que esse processo inicia-se ainda na vida intrauterina e termina ao morrermos.

Toda criança, desde seu nascimento, vive em uma cultura repleta de símbolos gráficos, do mundo letrado. Mesmo sem ainda ler e escrever tal como o convencionado socialmente, crianças pequenas atribuem significado e reconstroem a seu modo as marcas orais e escritas do mundo.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Imagem: Avante.org.br

Portanto, não há momento específico para iniciar esse processo, mas todo o cuidado deve se ter para que a linguagem verbal, seja ela escrita ou oral, não sejam as únicas linguagens exploradas pela escola. Loris Mallaguzzi, educador italiano, por exemplo, defendia que a criança tem muitas linguagens, diversas formas de se expressar, de compreender e de reinventar o mundo.

 

Na sua visão, o que é a alfabetização precoce? O que você considera antecipação e aceleração desse processo?

As práticas educativas que desconsideram a infância como um período muito ativo por parte da criança e com diferentes formas de expressão, aprendizagem, interação com e sobre o mundo. A criança é construtora de culturas, de formas de ser, pensar e estar no mundo. Isso é uma coisa.

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Outra coisa é a escola privilegiar o tempo de vida da criança na escola apenas para a exploração da linguagem verbal (escrita e oral), uma das muitas linguagens da criança. Mais problemático é se a escola organiza as experiências de linguagem verbal sem relação nenhuma com a vida e com as práticas sociais de ouvir, falar, ler, escrever.

Certa vez, ouvi uma terapeuta ocupacional falar da linha de desenvolvimento humano. Foi a melhor explicação que já ouvi! Bebês e crianças pequenas se desenvolvem em um movimento céfalo-caudal (da cabeça aos pés, não  à toa bebês levam um tempo para sustentar a cabeça e depois conquistar a marcha, o caminhar) e próximo-distal (ou seja, do centro do corpo, partindo do coração, dos afetos, passando pelos movimentos amplos do corpo até a parte mais fina – os dedos e os movimentos de pinça). Ignorar isso é ignorar a ciência e muitas oportunidades das crianças se desenvolverem de corpo e alma, integralmente.

 

Quais os efeitos da alfabetização precoce?

Desconheço pesquisas que retratem isso. E muitas professoras e professores de educação infantil sabem, pela experiência viva, que crianças necessitam de vivência, relação e muito tempo e espaço para brincar. No entanto, a pressão social pelo aprendizado da linguagem escrita é muito forte. A maioria das famílias compreende a escola como um espaço para ‘aprender’ e não para brincar.

É difícil reconhecer o quanto as crianças aprendem outras coisas nessa fase da vida. Por isso, é papel de toda escola ajudar a família a aprender a olhar a experiência da criança pequena. E entender que ela não é pequena ou menor que outras experiências que virão mais para frente.

Também faz-se necessário dar mais visibilidade a pais e educadores pesquisas que evidenciam a importância do desenvolvimento integral e integrado nessa fase da vida e o impacto nos anos seguintes e na vida como um todo.

Temos a vida toda para aprender a ler e escrever formalmente, mas apenas 6, 7 anos para explorar intensamente toda a nossa capacidade física, sensorial, simbólica, gestual, comunicativa e criativa.

 

Qual a essência do trabalho na Educação Infantil?

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

O essencial na educação infantil é a possibilidade da criança interagir com uma comunidade maior que suas próprias famílias. Ampliar os horizontes sociais e culturais. Se sentir pertencente a uma comunidade, participando ativamente dela. Toda a experiência nos 7 primeiros anos de vida é extremamente marcada pelo afeto aprendido e construído nas e pelas relações, pelo desenvolvimento das emoções, do sentir e se relacionar com diversos sentimentos. Junto com outras crianças da mesma idade e de diferentes idades, poder construir suas próprias narrativas, sejam elas corporais, simbólicas, orais, musicais etc.

 

O brincar, na primeira infância, não é apenas uma forma da criança aprender o mundo. É especialmente sua principal linguagem e meio de criação e reinvenção da vida. Não há fase na vida com tamanha intensidade como essa.

 

O que irá mudar na Educação Infantil a partir das discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular ?

As audiências públicas realizadas nas 4 regiões do país e no Distrito Federal mostraram que a educação infantil é marcada historicamente pela compreensão de uma escola preparatória para o ensino fundamental. Isso traz graves consequências ao desenvolvimento integral das crianças, por privilegiar apenas a linguagem verbal na relação de ensino e aprendizagem. Imagine, como as crianças são podadas em sua criatividade e construção de conhecimento, sentimento e fazeres se apenas um dos aspectos delas? Contudo, a Base ainda aguarda a deliberação do Conselho Nacional de Educação e a homologação da versão, com o parecer do Conselho. Ademais, acredito que as escolas, educadores e famílias que acreditam que a educação infantil é um espaço plural não deixarão de o fazer, mesmo se a Base trouxer uma abordagem contrária.

Um alerta é o crescente apelo comercial do mercado editorial para padronização dos processos de ensinar e aprender na educação infantil, por meio de apostilas e materiais didáticos. Isso significa que há um enorme interesse de grupos econômicos em vender material para essa fase da vida – tolhendo a criatividade e autonomia não apenas de educadores, mas do potencial criador e criativo das crianças.

 

Para finalizar, deixamos aqui o poema de Loris Mallaguzi , educador a quem Raquel faz referência:

Educação Infantil e as cem linguagens da criança

Ao contrário, as cem existem

A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem sempre cem
modos de escutar
de maravilhar e de amar.
Cem alegrias para cantar e compreender.
Cem mundos para descobrir.
Cem mundos para inventar
Cem mundos para sonhar.
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubam-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e de maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir um mundo que já existe
e de cem roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe enfim:
que as cem não existem.
A criança diz:
ao contrário, as cem existem.

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A escolarização na Educação Infantil é um tema que tem causado inquietação em pais e educadores. O que estamos fazendo com a infância? O modus vivendi da sociedade contemporânea com seus excessos, têm adoecido as crianças. Querem cedo demais tirá-las do seu tempo e espaço natural de desenvolvimento. Querem cedo demais intelectualizar, atrofiando os sentidos, limitando a curiosidade e vontade da criança de explorar e vivenciar o mundo livremente.

Em julho o Educando Tudo Muda propôs discutir esta questão por meio do artigo DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL leia aqui, que obteve mais de 37.000 acessos.

Com o objetivo de ampliar e enriquecer esta reflexão, convidamos a coordenadora pedagógica Katherine Stravogiannis¹, para compartilhar  sua visão a cerca do sentido do aprendizado nos primeiros anos escolares.

Katherine dá início as suas considerações destacando uma citação de Tomás de Aquino “a admiração é o desejo de conhecimento!”, e fazendo as seguintes perguntas:

-Como deixar que as crianças revelem seus estupores e deslumbramentos diante da vida, permitindo-lhes a continuidade destes na própria escola?

-Como podemos questionar o real sentido de aprendizado?

 

PENSANDO NA IMAGEM DE CRIANÇA IMPREVISÍVEL, CRÍTICA E QUESTIONADORA,

Colecionadora de infâncias

uma educação adequada deve levar em consideração o contexto como sustentáculo educativo, e não mero cenário burocrático. Além disso, há de se atentar aos relacionamentos, valorizando como as crianças aprendem, ao contrário de enaltecer aquilo que desconhecem. O foco também deve voltar-se às oportunidades, não somente expectativas adultas, que por sua vez ignoram a compreensão profunda e epistemológica de como aprendem, muito além dos cenários prescritivos e circunscritos que, por sua vez, desconsideram os complexos caminhos de mobilização interna.

 

Os pequeninos já nascem com a capacidade de maravilhar-se com a beleza da realidade, necessária para aprender, porque o próprio cérebro humano está preparado para conectar-se às experiências sensoriais e interpessoais, não pelos estridentes discursos e explicações, mas pela mobilização da própria curiosidade.

 

Durante muitos anos, o modelo mecanicista triunfou por determinar socialmente onde cada criança necessita chegar e, atualmente, questionando o sistema educacional, precisamos repensar sobre quais as necessidades reais de nossas crianças, devolvendo-lhes o coprotagonismo na aprendizagem. Em primeiro lugar, torna-se necessário minimizar o espaço para os resultados pré-formulados, classificatórios e sistemáticos, que caracterizam um currículo especificamente voltado para fins, e não processos contínuos. Quando vislumbramos a criança em uma nova perspectiva, compreendemos a Educação Infantil como um rico ambiente para compartilharmos a vida cotidiana, que se inicia em espaços de referência como a própria sala, e criam enredos em outros locais, conectando-as, por exemplo, à própria natureza.

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Para isso, precisamos fazer escolhas de consciência ética e política, apoiando as crianças nas suas experiências genuínas, considerando que o corpo todo se envolve no aprendizado, e não apenas as mãos e os olhos. O conhecimento deve ser vivenciado em condições de maior vivacidade e entusiasmo cultural, considerando, por exemplo, princípios citados por Morin, como transdisciplinaridade e co-participação, que não combinam com a aprendizagem solitária reduzida a papeis.

Nesse sentido, pensando especificamente na Educação Infantil, quando tomamos a nova Base Nacional Comum Curricular como referência, pode-se dizer que os campos de experiência possivelmente representem um avanço na valorização às relações e ludicidade, quando confrontadas às atuais áreas de conhecimento, que supostamente apresentam uma visão fragmentada de como as aprendizagens, nos tempos suspensos, rarefeitos e não lineares, se conectam. Não há mudança efetiva quando não se repensam as concepções, e isto implica em formação continuada, bem como valorização dos fazeres, e não das programações que inviabilizam a construção de cotidianidade. Em outras palavras, em nada valerá alterar um documento formal em cada escola tendo a Base como norte, se os educadores não buscam ressignificar a qualidade das próprias experiências escolares, questionando-as sucessivamente. É importante ter o documento como norte formal, mas o caminho compete ao campo escolar, de identidade intelectual própria.

Contudo, há muita inquietação quanto à conclusão do processo de alfabetização antecipado ao segundo ano do Ensino Fundamental, entendendo-se como uma fronteira com a Educação Infantil. Nesse sentido, a escola necessita cuidar da progressão curricular, atentando-se às rupturas, mas ao mesmo tempo acolhendo as necessidades socioemocionais das crianças em seus tempos próprios. A efetiva comunicação entre os níveis de ensino favorecerá que a experiência seja acolhedora, com desafios, mas ampla em oportunidades dialógicas.

 

ALFABETIZAÇÃO – O QUE DEMANDA ESTE PROCESSO?

Com a alfabetização, não é diferente. Antes de tudo, precisamos pensar que este é um processo que demanda condições cognitivas, um certo grau de maturação e de abstração, que são características de um pensamento mais reversível e, portanto, operatório. As crianças não podem ser classificadas como aptas ou não, dependendo de sua história, carregada de informações biológicas, maturacionais e motivacionais. Atualmente, não podemos pensar num processo de alfabetização com data determinada para a súbita estreia, mas consideramos o processo de letramento que respeita as experiências de vida e significância letrada desde que a criança é concebida. E essa criança deseja estar em contato com o mundo e conhecer seus códigos comunicativos.

 

ALFABETIZAÇÃO PRECOCE E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Uma alfabetização precoce pode ser entendida como aquela que desconsidera desde a creche os momentos de cada criança, compreendendo-a como um mecanismo unicamente transmissivo, não afetivo, externo, que não considera os tempos da infância, suas hipóteses e interrogações, mas insiste em determinar o que deve ser internalizado. Muitas vezes essas práticas podem ser observadas em exercícios repetitivos, sem sentido, com alto grau de abstração, distanciando-se do próprio universo infantil e desconsiderando a arquitetura do seu desenvolvimento e pensamento sincrético e autocentrado. E a aceleração traz implicações na própria aprendizagem, pois etapas anteriores e estruturantes podem ser suprimidas, interferindo diretamente na motivação e autoestima. Quando silenciamos as linguagens da criança, anulamos seus percursos de aprendizagem, podendo correr o risco de dificultar a potência de seu aprendizado.

A criança é naturalmente ávida por crescer, desenvolver-se, e o desenho, a arte, é sua primeira forma de comunicação escrita e registrada. A criatividade qualifica seu pensamento, e a ludicidade, a repertoria simbolicamente.


 

Para escrever, ela necessita de um discurso elaborado, para que a função comunicativa da linguagem, cerne da escrita, se preserve. Por isso, muitos sistemas mecanicistas verificam crianças alfabéticas, mas sem referenciais verdadeiramente letrados prévios, sem repertório literário amplo. E, outras, pequeninas, com amplo discurso, repleto de conectores, surpresas vocabulares, não são formalmente alfabéticas, mas demonstram competência discursiva e conhecimento letrado admirável.

 

O QUE É PRECISO OBSERVAR

Então, para que escrevam, há de se atentar a etapas prévias, como o próprio desenho e o simbolismo do pensamento, bem como a ampliação dos gêneros e tipologias literárias. Textos coletivos, bilhetes, convites, acesso a adultos escribas de rico vocabulário, literatura qualificada, ambiente letrado são exemplos de encorajadores do discurso, fortalecedores do significado real da necessidade de escrever. E, aos poucos, a criança desejará registrar seu nome, que é um texto estável, referencial potente para sustentar outras regularidades de escrita, comparando-o a de seus colegas, questionando sobre as letras similares, tentando representar sons que lhes são familiares. Neste momento, há indícios de que a escrita lhe interessa verdadeiramente, e que intervenções construtivas são favoráveis para o conflito cognitivo.

 

DEVEMOS NOS RECORDAR QUE A EDUCAÇÃO INFANTIL É

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

uma etapa que deve caracterizar a interrogação da própria vida, com pesquisa, encantamento, sentido e, principalmente, evidenciando o papel privilegiado do brincar, vivida plenamente, sem transformar-se num cenário adultocêntrico, mas sim, num espaço relacional e altamente educativo.

 

Necessitamos ajudar nossas crianças a compreender o mundo e a si mesmas neste universo, dando-lhes amplas oportunidades de aprendizagens significativas, cercando-as de beleza.

 

Nossos agradecimentos a participação de Katherine Stravogiannis.

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Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

 

[1] É coordenadora pedagógica, acompanhando a formação docente, desenvolve cursos e assessorias pedagógicas, atua na Educação Infantil há mais de 15 anos. Licenciada em Letras, alemão e português pela USP, pedagoga e psicopedagoga pela CEUCLAR, especialista em Educação Infantil pela FACEI, em relações interpessoais e autonomia moral na escola pela UNIFRAN, em Neuropsicopedagogia e mestranda em Ciências da Educação pela UNIGRENDAL. Já participou de diversos cursos de extensão na área do bilinguismo e educação contemporânea, bem como formações continuadas no Brasil e exterior, mantendo o site educacional Pedagogia e Infância (www.pedagogiaeinfancia.com.br)

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO- ÚLTIMA PARTE

O IMPACTO DE UM PAI NA VIDA DE UM FILHO from GUILHERME GIMENEZ on Vimeo.

A crise atual do sistema educacional brasileiro requer reflexão, revisões  e a busca por novos paradigmas para a educação.

Propõe-se aqui um aprofundamento e compreensão da extensão dessa crise  a partir da análise de algumas premissas, sendo que as duas primeiras foram apresentadas em artigos anteriores.

  1. Visão do ser humano integral (acesse aqui)
  2. Origem da palavra  Educar (acesse aqui)
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

Passamos agora a abordar a necessidade do trabalho apurado de autoconhecimento e autoeducação por aqueles que se dispõem ao exercício da docência.

Para a compreensão da relevância da autoeducação, analisemos o pensamento de Rudolf Steiner, filósofo e educador austríaco (1861-1925):

 


Não há, basicamente, em nenhum nível, uma outra educação que não seja a auto-educação. […] Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o entorno da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior.


Novos paradigmas da educação

Podemos entender ‘destino interior’ como a essência central distinta, individual do ser humano.

Paulo Freire também fala que é necessário se educar para educar, e que se educar é impregnar de sentido cada momento da vida, cada ato do cotidiano.

Portanto, eu educo o outro, educando a mim mesmo, e o que faço enquanto educador, é criar o ambiente favorável em volta da criança, proporcionando assim condições por meio das quais a própria criança se revele.

 

 

Novos paradigmas para a educação

Como um jardineiro, nossa tarefa é encontrar as condições adequadas para cada tipo de semente, o tipo certo de solo, o adubo adequado, a proteção e irrigação corretas, achar os ingredientes apropriados que darão suporte e força a semente, para que ela brote, surja para fora, emerja sua natureza e cresça formosa.

 

Levando em conta que uma das características marcantes da criança é sua capacidade imitativa, podemos ressaltar a importância de modelos adequados de homens e mulheres em torno da criança como espelhamento de seres humanos íntegros. A criança não repete apenas a fala, o movimento e gestual do adulto, ela é capaz de assimilar o que o educador é, e assim reproduzir sua maneira de viver. E mais tarde, quando adolescente, de forma contumaz, procurará a veracidade nos educadores, tutores e pais, por meio da comparação entre o que esses falam e suas ações, seu jeito de se colocar no mundo, de ser e viver.

Por esta razão o educador, como referencial para a criança, adolescente e jovem, tem grande responsabilidade, pois atua no campo ético moral. Daí a importância do seu trabalho constante de autoconhecimento, como instrumento de revisão, aprimoramento e desenvolvimento humano, como processo de construção de si mesmo, num contínuo explorar-se, conhecer-se, transformar-se.

Enquanto educadores, precisamos nos tornar modelos mais adequados para as novas gerações que iniciam seus processos de construção de seres humanos no mundo.

 

A ARTE COMO CAMINHO DE REENCANTAMENTO DA EDUCAÇÃO

A educação convencional que vem se perpetuando, está fundamentada numa concepção materialista, cientificista, mecanicista, pautada na transmissão de conhecimento e informação. Vem privilegiando o desenvolvimento do lado cognitivo, deixando em segundo plano o corpo e a alma da criança. Isto porque o homem moderno tem endeusado a abstração, a fórmula, a quantificação e os avanços tecnológicos.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

A partir da concepção do ser humano integral, não podemos mais fundamentar o sistema educacional levando em conta apenas uma parte do que é o homem. Precisamos educar na/para inteireza.

Precisamos educar para a vida, abarcar o coração do homem no processo educativo, considerando seus sentimentos, emoções, relações. É necessário trazer para a educação temas essenciais, como o amor, a alegria, solidariedade, gentileza, temas estes que a racionalidade moderna não comporta por não conseguir explica-los cientificamente.

Precisamos reencantar a educação, com uma linguagem que fale à alma da criança, por meio de vivências artísticas, estéticas. A arte é o caminho que permite o desenvolvimento harmônico da criança, porque é a linguagem do coração. Ela permeia a razão e a conecta com o lado anímico da criança, fortalecendo a sua vontade, o seu fazer no mundo, e suas interações com o mundo.

cabeça humana escola waldorf

A expressão artística, seja pela pintura, modelagem, dança, teatro, poesia, música, etc., desperta a consciência do mundo interior de cada ser, faz a ponte entre o lado intelectual humano e sua capacidade de ação, possibilita a criação de algo resultante da sua imaginação e fantasia.

Rudolf Steiner afirma que: “A pedagogia não pode ser uma ciência – deve ser uma arte”. Educação é arte. Que possamos nos sentir inspirados para fazer uma nova escola, fundamentada no respeito à totalidade do ser humano, na confiança do desenvolvimento e aprimoramento das potencialidades humanas.

Como síntese desta reflexão, fica aqui a poesia do Profº Ruy Cezar do Espírito Santo:

 

A Grande Transformação

Buscar a fonte da inspiração artística

É dirigir-se ao mais dentro do Homem

À Fonte única que de forma original

Derrama o fruto da sua percepção

 

Novos paradigmas para a educação

Encontrar essa Fonte

É desvelar a possibilidade do Amor

É trazer o Homem novamente aos dez anos,

De onde se afastou pelo que chamamos de “educação”…

 

 

O Amor dissipou-se no instante em que o “jovem de 10 anos”

Sentiu-se perdido nos labirintos escolares,

Onde cabeças sem coração são “formadas”

Sem a presença da Arte…

 

Novos paradigmas para a educação

Assim, resgatar a Arte

É redescobri a Fonte interior de Alegria e Amor…

É voltar aos dez anos, desta vez

Ciente do sentido e da significação da existência.

 

 

 

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017, da  PUC de São Paulo  e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

 

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Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO – SEGUNDA PARTE

novos paradigmas para a educação

Diante da crise atual do sistema educacional brasileiro, vivemos um  momento de grandes revisões e busca por novos paradigmas para a educação.

A necessidade de aprofundamento e compreensão da extensão dessa crise, tem como ponto de partida a análise de três premissas:

  1. Visão do ser humano integral
  2. Origem da palavra  Educar
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

A primeira parte deste artigo, leia aqui,  apontou  a importância da ampliação da visão do ser humano para  estabelecimento de  bases e práticas que atendam sua integralidade na Educação.  Não se deve pautar a Educação apenas no desenvolvimento cognitivo da criança, uma vez que o ser humano é constituído de um corpo físico, emocional e espiritual.

Dando continuidade a análise proposta, passemos agora para a compreensão da palavra educar.

Apreender verdadeiramente seu significado nos colocará num patamar mais elevado de entendimento da grandiosidade do papel da Educação.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO

Etimologicamente educar vem do verbo latim educare, que significa conduzir para fora, ou seja, despertar no homem o que nele se acha dormente. Desta forma, educar não é incutir algo, mas sim propiciar que venha à superfície o que existe dentro.

Paulo Freire diz que: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Freire cunhou o termo: educação bancária, para denunciar a prática do educador como detentor dos conteúdos que simplesmente são depositados nos educandos.

Esta temática já recorrente, pode ser observada nas citações de outros autores, a exemplo de Plutarchus9 (1844, p.38): “O espírito (a cabeça) não é como uma jarra que se enche. Semelhante às matérias combustíveis, ela tem, antes, necessidade de um alimento que o sacie, que aqueça suas faculdades e anime o espírito para a busca da verdade”.

Johann Heinrich Pestalozzi, educador suíço (1746-1827), também discorre a respeito dizendo que o educando não é semelhante a “um vaso vazio que se deve encher” acrescenta ainda que o educando é: “uma força real, viva, ativa por si mesma que, desde o primeiro momento da sua existência age no sentido de um corpo orgânico sobre seu próprio desenvolvimento” (PESTALOZZI, 2009, p. 160). Esta afirmação abre uma janela importante que deve ser explorada reconhecendo que cada ser humano carrega em si potencialidades, e são com essas potencialidades que o educador trabalhará, no sentido de despertá-las e trazê-las para fora.

Da mesma forma que Rohden (2005, p.13) diz: “ …dentro de cada um de nós existe algo maior e melhor do que aquilo que existe fora de nós. O homem é muito mais aquilo que pode vir a ser e deseja ser do que aquilo que é no plano histórico da sua vida. O homem é a sua permanente e silenciosa atitude interna, e não os seus ruidosos atos externos e transitórios. O homem é a sua eterna potencialidade, e não apenas a sua atualidade temporal”.

 

QUAL A QUALIDADE DO OLHAR QUE PRECISAMOS DESENVOLVER PARA ENXERGAR E CONFIAR NA ESSÊNCIA NÃO MANIFESTA DE UMA CRIANÇA?

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO

Tomemos como referência a vida de Cristo que em toda sua trajetória demonstrou compaixão e ofereceu um olhar atento e individualizado a todos que dele se aproximavam. Qual a qualidade do olhar de Cristo?

Um olhar capaz de alcançar a essência do ser humano, um olhar fluídico, que não se fixa em um único ponto. Um olhar penetrante, de longo alcance, livre de julgamentos e preconceitos, que enxerga a necessidade humana individualizada. Um olhar que se renova a cada dia, criando novas possibilidades de vir a ser. Um olhar profético, capaz de alcançar o futuro, independente das circunstâncias adversas do momento presente, que vê além das aparências e comportamento em si.

Certas crianças encontram-se prisioneiras de um olhar cristalizado e estigmatizante, um olhar viciado, que enxerga as mesmas coisas sempre, e que, portanto, não estimula, não favorece a manifestação de suas potencialidades, pelo contrário, reforça atos externos que não expressam sua essência interior.

Cabe aqui uma citação de Wolfgang von Goethe que demonstra a relevância da relação que deve ser estabelecida com o que ainda não se manifestou:

“Trate um homem como ele é e ele permanecerá como é; trate-o como ele deve ser e ele será como pode e deve ser”.

Existe ainda uma frase de Jean Piaget que ajuda a lapidar o olhar do educador:

“Quando olho uma criança ela me inspira dois sentimentos, ternura pelo que é, e respeito pelo que pode ser”.

Como educadores, seja em sala de aula, ou em casa com os filhos, é necessário levar em conta que a criança não é uma página em branco, ela traz em si uma essência. Caberá aos educadores a tarefa de nutrir o solo para que brote a semente e floresça as potencialidades individuais de cada ser.

Novos paradigmas para a educação

 

No próximo artigo será analisada a terceira e última premissa proposta:  autoconhecimento e autoeducação.

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017, da  PUC de São Paulo  e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

 

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Ana Lúcia Machado

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO – PRIMEIRA PARTE

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

Estamos diante de uma crise do sistema educacional no país, que nos conduz a um momento de grandes revisões e busca por novos paradigmas para a educação.  O modelo vigente não atende as reais necessidades da sociedade, um modelo que reduz o aluno a um simples futuro candidato a uma vaga no mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Um a cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil, abandona a escola antes de completar a última série – dado do Relatório de Desenvolvimento 2012, divulgado pelo Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano .  Na América Latina, só a Guatemala e Nicarágua tem taxas de evasão superiores.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos, deixaram a escola sem concluir os estudos, dos quais 52% não concluíram sequer o ensino fundamental. Dentre as causas da evasão, o desinteresse do jovem pelos estudos é apontado como um dos fatores no âmbito escolar.

Mais do que quantificar a extensão dessa crise, precisamos compreender sua profundidade e para isso partimos da análise de três premissas:

  1. Visão do ser humano integral
  2. Origem da palavra  Educar
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

A primeira parte deste artigo apresentará e discutirá a visão do ser humano integral.

Para compor esta integralidade propomos a observação do desenho do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci, datado de 1490.

A que nos remete esta imagem?

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

 

 

– Completude

– Harmonia

– Equilíbrio

– Beleza

 

 

 

 

A representação das proporções ideias do ser humano no desenho de Leonardo da Vinci, traz a ideia de equilíbrio e harmonia entre as partes que compõe o homem, sem privilegiar nenhum aspecto em detrimento do outro.

Dando um salto na História da Arte, comparamos a obra de Leonardo da Vinci a de Tarsila do Amaral , com o quadro Abaporu, de 1928.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃOA figura humana na obra de Tarsila do Amaral retrata o homem da terra, ligado à natureza. Trata-se do homem do fazer, que caminha, planta, colhe, usa a força física de seus membros superiores e inferiores, e por esta razão apresenta-os bem desenvolvidos. Podemos definir o homem de Tarsila como o homem do fazer, da ação.

Na comparação com o Homem Vitruviano, pode-se perceber a perda das proporções ideais do ser humano.

Contrapondo o homem do fazer de Tarsila do Amaral, na pintura a seguir, de autoria desconhecida, observamos a desproporcionalidade entre cabeça e corpo.

 

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

Pela ênfase dada à cabeça, evidencia-se a importância da racionalidade, do intelecto, do desenvolvimento cognitivo expressa pelo artista. Temos aqui o homem que dá prioridade a sua capacidade pensante.

Este é o homem contemporâneo, que tem na racionalidade sua prioridade e a utiliza como o grande condutor de sua vida.

Formulamos então a pergunta: se no passado o homem desenvolveu seus membros inferiores e superiores privilegiando a capacidade do fazer e hoje ele prioriza o desenvolvimento cognitivo, representado pela cabeça, como fica o  desenvolvimento da região toráxica, composta pelo coração e pulmão, que forma seu sistema rítmico?

A visão ampliada do ser humano, proposta pela Antroposofia, concebida pelo filósofo e educador Rudolf Steiner, 1861-1925, considera a espiritualidade parte da constituição do ser humano, assim como também aponta o corpo astral, um corpo de emoções.

Fomos até aqui guiados por uma visão fragmentada do ser humano, precisamos reconstruir sua visão integral como ponto de partida para a Educação, conforme diz o Profº Ruy Cezar do Espírito Santo em O renascimento do Sagrado na Educação: “a inserção da espiritualidade no contexto educacional é essencial”.  E para que isso aconteça,  o primeiro passo é compreender a totalidade da constituição humana.

O reconhecimento da dimensão espiritual do ser humano, coloca nos diante de grandes desafios como educadores. Considerando as palavras de Huberto Rohden, filósofo educador catarinense  (1893-1981) em Novos Rumos para a Educação:

“Todo homem é muito mais aquilo que é potencialmente do que aquilo que é atualmente […] Uma semente é potencialmente a planta que dela vai brotar, embora não seja ainda atualmente essa planta. A verdadeira natureza de uma semente de palmeira é a palmeira que dela nascerá. A ‘natura’ é a coisa ‘na(sci)tura’, isto é, aquela coisa que vai nascer. A potencialidade é, pois, a íntima natureza de um ser, a sua verdadeira natura ou natureza”

Pode-se afirmar que como educadores trabalhamos com aquilo que ainda não é visível no educando externamente, e devemos atuar como facilitadores na tarefa de tornar manifesto aquilo que ele carrega dentro de si, sua essência central; objetivar, sua subjetividade.

Como o educador pode estabelecer uma relação com a verdadeira essência do ser ainda não manifesta de modo a facilitar sua exteriorização, e não permitir que a temporalidade das atitudes desarmoniosas externas, interfira negativamente no processo educativo?

Rohden  nos instiga ao afirmar que:

“Toda a verdadeira educação consiste em que o homem faça a sua existência à imagem e semelhança da sua essência; que essencialize a sua existência; que verticalize as suas horizontalidades; que divinize a sua humanidade; que faça o seu externo agir tão bom como é o seu interno ser”

Reconhecer a essência central do ser humano, invisível externamente, bem como recompor as partes para a visão de sua totalidade,  como visto até aqui, é tarefa fundamental para repensar-se novos rumos na educação.

No próximo artigo será analisada a segunda premissa proposta:  origem da palavra Educar.

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017 página 49, da  PUC de São Paulo e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

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Ana Lúcia Machado

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

ESCOLARIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Analisando o cenário atual da Educação Infantil, a sociedade faz um apelo: devolvam o tempo do brincar na Educação Infantil. Não podemos aceitar as recentes mudanças impostas pelo MEC de escolarização da Educação Infantil. Leia aqui.

Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, na escola, na rua, com amigos da vizinhança, com primos, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, andando de bicicleta pelo bairro, e assim  descobrindo e explorando o mundo.

Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções e histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, amarelinha, casinha, médico, professora, etc… Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirasse do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida na pré-escola e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

 

POR QUE TANTA PRESSA EM ALFABETIZAR AS CRIANÇAS?

Crianças de 4, 5 anos, ainda ávidas por correr, pular, girar, são requisitadas para atividades cognitivas que exigem um corpo estático e destreza em habilidades ainda em desenvolvimento na criança, como a coordenação motora fina. Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, fala que “A criança aprende o mundo com todo seu corpo, não  apenas com os dedos de uma mão”.
DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Autoridades escolares diminuíram o intervalo do recreio para criar espaço para mais conteúdo curricular. Em algumas escolas as crianças não podem mais correr. Com isso os consultórios de psicologia estão cada dia mais cheio de crianças com problemas de falta de concentração, ansiedade, e vários transtornos.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

 

AFINAL, O QUE É A ALFABETIZAÇÃO? 

Paulo Freire sempre advertiu que alfabetizar é antes de mais nada conscientizar. Ele falava da conscientização do “mundo vida”, onde a criança vive, onde ela se encontra e o que a rodeia. Dizia que primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras”.

Em outras palavras é o que fala também a jornalista especialista em neurociências e neuropsicologia Michelle Müller: “Antes de generalizar o aprendizado das palavras ou apressar a alfabetização, é preciso ter em mente que a leitura de mundo dos pequenos acontece de muitas maneiras. Um bebê, por exemplo, lê com o corpo, com os ouvidos, com as mãos, a partir da exploração tátil, sonora e visual das coisas.

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O psicolinguista colombiano Evelio Cabrejo Parra, explica que “o bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que ele está tratando de construir significado à sua maneira”.  Parra defende que desenvolvemos a linguagem desde bebês, e vê  a ‘alfabetização’ como um processo sutil anterior à fala e à escrita, que tem início por meio da escuta.

A experiência dos finlandeses, que não começam uma instrução formal de leitura antes de 7 anos de idade, revela que “a base para o início da alfabetização é que as crianças tenham atenção e ouçam … que elas tenham falado e conversado, que as pessoas tenham discutido [coisas] com elas … Que elas tenham feito perguntas e recebido respostas”.

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Leia também: Por que não alfabetizei meus filhos antes dos sete anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

 

 

Beatriz Gayotto, pedagoga pelo Instituto Singularidades, e professora de Ensino Fundamental do Estado de São Paulo, adverti  que “o enfoque do trabalho da Educação Infantil deve ser a socialização da criança, o desenvolvimento das habilidades de ouvir, de se expressar e de negociar. A Educação Infantil deve aumentar os horizontes culturais das crianças, resgatar as canções, histórias e brincadeiras que elas conheceram em casa e ampliar seu repertório com o dos colegas e com aquele que a professora apresenta, tanto da cultura regional como da mundial”.

FATORES QUE FAVORECEM O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO 

  • Habilidades motoras e domínio espacial, adquirido na exercitação do correr, saltar, rodar, equilibrar-se em troncos de árvores, perna de pau, trepa-trepa, etc…
  • Interação social, conquistado pelas brincadeiras e jogos em grupos, em casa e na escola
  • Expressão oral, saber dialogar, contar uma história, facilitado por repertório de canções, histórias, versos, parlendas, aprendidos em casa, na escola
  • Escuta, exercitado por ouvir histórias em casa, na escola
  • Registros de ideias e vivências artísticas por meio de desenhos, pinturas e colagens
  • Saber contar os números, exercitado nas brincadeiras de esconde-esconde, pular corda, nas compras com a família, na cozinha com os pais no preparo de receitas culinárias, etc…
  • Autonomia no cuidado pessoal e de seus pertences
  • Internalização de rotina e ritmo

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Na contra mão da aceleração…

especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Um dos grandes aliados da criança na primeira infância, como força de aprendizagem, é o brincar livre. Entretanto, infelizmente na sociedade contemporânea o brincar livre está em declínio, as novas gerações estão sendo privadas deste tempo e espaço de brincar.  Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar das crianças e seus prejuízos.

Brincar é substrato para a vida,  é o motor da infância que garante a potência para a vida adulta. Brincando  a criança desenvolve competências que serão requisitadas mais tarde nas relações interpessoais e de trabalho. Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. Ele é essencial para o desenvolvimento infantil integral e saudável, e segue tendo sua importância ao longo da vida adulta, porque afinal somos seres lúdicos.

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

O brincar tem origem na curiosidade e necessidade de exploração da criança para construção do seu próprio mundo, sua identidade, a imagem de si e a compreensão do mundo que a cerca. Ele ensina tudo o que os pequenos precisam aprender sobre a dinâmica interna e estrutura do seu próprio corpo. Quando brinca a criança está inteira na brincadeira, pois brinca com todo o seu ser. Brincando ela experimenta o estado de flow, e assim desenvolve a capacidade de concentração, necessária para o processo de alfabetização.

Quando meus filhos tiveram que ir para escola, optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais. Conto minha experiência em detalhes aqui.

Quando compartilhei minha história com os leitores do Educando Tudo Muda, dezenas de pais e educadores se manifestaram, expressando suas angústias e inquietações por meio de comentários no blog e nas redes sociais. Vale a pena ler esses comentários, como o da mãe Viviane Silva, e da professora Grace Vania Loguercio Budke:

“Oi Ana….amei seu texto sou estudante de pedagogia e tenho 2 filhos um 7 anos completos e outra com 5 anos, ambos estudam em escola pública e na escola pública o ensino vem mudando por exemplo os professores de EMEI agora que é o pré não precisa mais iniciar a alfabetização, tudo para deixar a criança brincar porém vem o estado e muda tudo, pq agora a criança inicia no ensino fundamental com 6anos, não tive problemas com meu filho pois faz aniversário em Maio então entrou no primeiro ano com 7 anos completos, mas já estou mega triste pois minha filha vai para o ensino fundamental com 6 pois ela faz aniversário em dezembro como completa 7 no ano seguinte já vai para o primeiro ano, eu acho tudo mais precoce nela, mas na alfabetização é bem claro q ela não está madura o suficiente, meu filho quando saiu ja estava lendo pequenas palavras mas isso foi sendo progresso dele sozinho, ir juntando as letrinhas q ia aprendendo, mas ele já estava para completar 7 anos, o que ainda não acontece com a minha filha ela ainda não despertou esse interesse pq não está na idade certa ainda, vai ser forçada a aprender e se alfabetizar 1 anos antes sem necessidade. Falei com a escola, pra ela ficar mais 1 ano na EMEI e isso não é possível, devido a demanda e tb pq a lei é essa agora, o primeiro ano é considerado a iniciação e ela está apta. Enfim, triste mas é a nossa realidade”.

“Sempre me questiono… Por quê alfabetizar antes dos sete anos??? Como professora presenciei angustiada a frustração de alunos imaturos e com sérios problemas de  relacionamento com o mundo exterior, por terem deixado os anos lúdicos por compromissos e hora para brincar. O bum!!!! Disso tudo se dá na pré adolescência lá pela quinta ou sexta serie. A desculpa de pais ansiosos é que hoje os pequenos já dominam a era digital!!!etc,etc. Que hoje é diferente. Sim, mas para eles antes dos 7 anos tudo ainda é brinquedo, sem compromisso , horário e confinamento de sala de aula”.

É preciso questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, respeitando as etapas de seu desenvolvimento. Tudo a seu tempo.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Professores: reféns de um tempo tarefeiro?

Diante da demanda crescente por medidores de eficiência na educação, e tantas cobranças, os professores encontram-se reféns de um tempo tarefeiro?

“É o final de um período de ensino e faço a retrospectiva que deve ser, ao mesmo tempo, a base para preparar o que vem a seguir. Acumularam-se muitas questões não resolvidas. Sinto que a classe precisaria de um novo impulso. (…)

(…) Certos acontecimentos que se repetem entre as crianças desencadeiam em mim antipatias previsíveis e reações rotineiras. E sei muito bem que tudo isso leva a bloqueios, contraria meus ideais de educação. (…)

(…) Surgiram situações em que reagi de maneira inadequada porque estava cansado. Minhas forças esvaíram-se totalmente no preparo de uma matéria nova para mim, que me exigiu em demasia. Não será mais fácil durante a próxima época de História. Os livros já se amontoam em minha escrivaninha. (…)

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

(…) Enquanto leio o primeiro capítulo de uma obra de 300 páginas, logo percebo que ela pouco me ajudará para o ensino. Não obstante, continuo lutando enquanto o tempo se escoa, já sabendo que jamais conseguirei dar cabo da pilha de livros, apesar da certeza de que a obra decisiva se encontra ali na pilha. (…)

(…) Assumi minha tarefa com entusiasmo e idealismo, mas agora estou exausto… só estou reagindo às exigências externas e que, por isso, jamais consigo satisfazê-las.(…)”

 

 

 

 

O relato acima  é de autoria do Profº Heinz Zimmermann em sua obra “Forças que impulsionam a educação”, porém poderia ser o desabafo da maioria dos professores atuais. Nesse mesmo texto, mais adiante, Zimmermann conclui: “um professor assim é o oposto do que as crianças precisam”.  E como resultado de toda essa angústia, as seguintes perguntas são formuladas por ele:

 

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

 

– Como posso ganhar tempo?

– Como chego a ideias pedagógicas?

– Como supero minha falta de forças e de coragem?

 

 

O trabalho de um professor não se limita àquelas horas em sala de aula com os alunos. As atribuições e exigências  extras  o período de ministração de aulas são enormes: desde a preparação das aulas em si, passando por tarefas burocráticas com preenchimento de formulários,  preparação de reuniões pedagógicas, reuniões de pais, correções de cadernos de alunos, organização de exposições pedagógicas e eventos culturais do calendário anual escolar, elaboração e correção de provas, e muito mais. Com tantas tarefas a executar e prazos a cumprir, o tempo tende a comprimir, pressionar até a exaustão, provocando sobrecarga, desgaste e até mesmo o adoecimento do professor.

Existe nesse fazer contínuo, a tendência a uma cegueira quanto ao que é essencial. Corre-se o risco de uma escravidão do fazer, que resulta em ações automáticas, como uma máquina. É o fazer pelo fazer sem um sentido real, desprovido de consciência.

 

O QUE LEVA A ESCRAVIDÃO DO FAZER?

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Quando rompemos a ligação existente do fazer com o ser, geramos ações desconexas, desintegradas de nós mesmos. Aquilo que somos não está mais presente na ação.

As energias se esgotam ao executarmos tarefas sem a inteireza do ser, sem o devido foco no aqui e agora.  Existe a tendência de nos fragmentarmos entre um tempo que já passou, num lamento ou nostalgia, e entre um tempo que ainda está por vir, onde projetamos nossas expectativas, sem sabermos que o único tempo que nos pertence onde podemos verdadeiramente atuar, é o tempo presente.

A falta de presença, de participação ativa nesse único tempo que nos é dado, impede o acesso a fontes de energia, pois o tempo sem o devido preenchimento de nossa consciência, interesse e envolvimento, escorre improdutivamente e mina nossas forças.

O que dá sentido ao fazer humano é seu trabalho autoral, de natureza criadora, criativa, que só pode se manifestar a partir do interesse, entusiasmo e paixão por aquilo que fazemos. Somente quando atuamos com interesse e inteireza, podemos ser capazes de insights – ideias inspiradoras – que auxiliarão na prática pedagógica.

Portanto dois pontos precisam ser revistos com maior rigor: o primeiro de natureza mais técnica, exige a capacitação do lidar com o tempo por meio da organização, planejamento e discernimento das prioridades diante das exigências. Esse tempo é o tempo do relógio.  Nesse aspecto a disciplina é da maior importância para o cultivo de uma relação saudável com o tempo tendo como objetivo produzir resultados satisfatórios. Porém necessitamos compreender também a existência do nosso tempo interior, que abriga nosso estado de espírito. Se entediados, o tempo passa devagar, se ansiosos, mais rápido, e se atentos ao presente, não vemos o tempo passar.

O escritor Raduan Nassar em seu romance “Lavoura  Arcaica” discorre sobre essa relação tão delicada do homem com o tempo dizendo que:

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

“O equilíbrio da vida está essencialmente nesse bem supremo,  e quem souber com acerto a quantidade de vagar ou de espera que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco ao buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”.

 

O segundo ponto, requer uma análise mais apurada sobre a metamorfose da vontade humana geradora de nossas ações. Da ação instintiva (da qual o animal compartilha com o homem) à ação resoluta, há níveis que vão se elevando à medida que a consciência aumenta.  Quando ajo sem nenhuma consciência, estou sendo levado por meus instintos. Ainda distante de minha consciência, há o agir impulsivo. Chamo de aspiração, quando minha ação ainda não é motivada por uma direção específica. A partir de um comprometimento, segue minha intenção um pouco mais direcionada. E com a intensificação do meu compromisso, alcanço a resolução: a decisão de agir com uma direção determinada, específica que conduzirá à realização, à ação em si, plena de consciência. Quando faço algo motivado pelo mais elevado nível da vontade humana, essa ação está totalmente integrada ao ser, é de domínio do ser.  Torna-se portanto um fazer autêntico, imbuído de sentido e entusiasmo, vemos então uma total integração do fazer ao ser.

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Existe uma fonte renovadora de nossas energias. Ela pode ser encontrada nas pausas, na vivência do vazio e do silêncio penetrante, amoroso e absoluto. O silêncio se encontra entre os intervalos de nossa  inspiração e expiração. Nesse espaço de tempo vivemos a experiência de UNIDADE capaz de nos conectar ao TODO.

 

Que a partir dessa reflexão haja a busca para a libertação desse tempo escravo do fazer. A  todos os Professores,  boas férias.

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Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado