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NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO – SEGUNDA PARTE

novos paradigmas para a educação

Diante da crise atual do sistema educacional brasileiro, vivemos um  momento de grandes revisões e busca por novos paradigmas para a educação.

A necessidade de aprofundamento e compreensão da extensão dessa crise, tem como ponto de partida a análise de três premissas:

  1. Visão do ser humano integral
  2. Origem da palavra  Educar
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

A primeira parte deste artigo, leia aqui,  apontou  a importância da ampliação da visão do ser humano para  estabelecimento de  bases e práticas que atendam sua integralidade na Educação.  Não se deve pautar a Educação apenas no desenvolvimento cognitivo da criança, uma vez que o ser humano é constituído de um corpo físico, emocional e espiritual.

Dando continuidade a análise proposta, passemos agora para a compreensão da palavra educar.

Apreender verdadeiramente seu significado nos colocará num patamar mais elevado de entendimento da grandiosidade do papel da Educação.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO

Etimologicamente educar vem do verbo latim educare, que significa conduzir para fora, ou seja, despertar no homem o que nele se acha dormente. Desta forma, educar não é incutir algo, mas sim propiciar que venha à superfície o que existe dentro.

Paulo Freire diz que: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Freire cunhou o termo: educação bancária, para denunciar a prática do educador como detentor dos conteúdos que simplesmente são depositados nos educandos.

Esta temática já recorrente, pode ser observada nas citações de outros autores, a exemplo de Plutarchus9 (1844, p.38): “O espírito (a cabeça) não é como uma jarra que se enche. Semelhante às matérias combustíveis, ela tem, antes, necessidade de um alimento que o sacie, que aqueça suas faculdades e anime o espírito para a busca da verdade”.

Johann Heinrich Pestalozzi, educador suíço (1746-1827), também discorre a respeito dizendo que o educando não é semelhante a “um vaso vazio que se deve encher” acrescenta ainda que o educando é: “uma força real, viva, ativa por si mesma que, desde o primeiro momento da sua existência age no sentido de um corpo orgânico sobre seu próprio desenvolvimento” (PESTALOZZI, 2009, p. 160). Esta afirmação abre uma janela importante que deve ser explorada reconhecendo que cada ser humano carrega em si potencialidades, e são com essas potencialidades que o educador trabalhará, no sentido de despertá-las e trazê-las para fora.

Da mesma forma que Rohden (2005, p.13) diz: “ …dentro de cada um de nós existe algo maior e melhor do que aquilo que existe fora de nós. O homem é muito mais aquilo que pode vir a ser e deseja ser do que aquilo que é no plano histórico da sua vida. O homem é a sua permanente e silenciosa atitude interna, e não os seus ruidosos atos externos e transitórios. O homem é a sua eterna potencialidade, e não apenas a sua atualidade temporal”.

 

QUAL A QUALIDADE DO OLHAR QUE PRECISAMOS DESENVOLVER PARA ENXERGAR E CONFIAR NA ESSÊNCIA NÃO MANIFESTA DE UMA CRIANÇA?

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO

Tomemos como referência a vida de Cristo que em toda sua trajetória demonstrou compaixão e ofereceu um olhar atento e individualizado a todos que dele se aproximavam. Qual a qualidade do olhar de Cristo?

Um olhar capaz de alcançar a essência do ser humano, um olhar fluídico, que não se fixa em um único ponto. Um olhar penetrante, de longo alcance, livre de julgamentos e preconceitos, que enxerga a necessidade humana individualizada. Um olhar que se renova a cada dia, criando novas possibilidades de vir a ser. Um olhar profético, capaz de alcançar o futuro, independente das circunstâncias adversas do momento presente, que vê além das aparências e comportamento em si.

Certas crianças encontram-se prisioneiras de um olhar cristalizado e estigmatizante, um olhar viciado, que enxerga as mesmas coisas sempre, e que, portanto, não estimula, não favorece a manifestação de suas potencialidades, pelo contrário, reforça atos externos que não expressam sua essência interior.

Cabe aqui uma citação de Wolfgang von Goethe que demonstra a relevância da relação que deve ser estabelecida com o que ainda não se manifestou:

“Trate um homem como ele é e ele permanecerá como é; trate-o como ele deve ser e ele será como pode e deve ser”.

Existe ainda uma frase de Jean Piaget que ajuda a lapidar o olhar do educador:

“Quando olho uma criança ela me inspira dois sentimentos, ternura pelo que é, e respeito pelo que pode ser”.

Como educadores, seja em sala de aula, ou em casa com os filhos, é necessário levar em conta que a criança não é uma página em branco, ela traz em si uma essência. Caberá aos educadores a tarefa de nutrir o solo para que brote a semente e floresça as potencialidades individuais de cada ser.

Novos paradigmas para a educação

 

No próximo artigo será analisada a terceira e última premissa proposta:  autoconhecimento e autoeducação.

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017, da  PUC de São Paulo  e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

 

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Ana Lúcia Machado

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO – PRIMEIRA PARTE

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

Estamos diante de uma crise do sistema educacional no país, que nos conduz a um momento de grandes revisões e busca por novos paradigmas para a educação.  O modelo vigente não atende as reais necessidades da sociedade, um modelo que reduz o aluno a um simples futuro candidato a uma vaga no mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Um a cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil, abandona a escola antes de completar a última série – dado do Relatório de Desenvolvimento 2012, divulgado pelo Pnud – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O Brasil tem a terceira maior taxa de abandono escolar entre os 100 países com maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano .  Na América Latina, só a Guatemala e Nicarágua tem taxas de evasão superiores.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos, deixaram a escola sem concluir os estudos, dos quais 52% não concluíram sequer o ensino fundamental. Dentre as causas da evasão, o desinteresse do jovem pelos estudos é apontado como um dos fatores no âmbito escolar.

Mais do que quantificar a extensão dessa crise, precisamos compreender sua profundidade e para isso partimos da análise de três premissas:

  1. Visão do ser humano integral
  2. Origem da palavra  Educar
  3. Autoconhecimento e Autoeducação

A primeira parte deste artigo apresentará e discutirá a visão do ser humano integral.

Para compor esta integralidade propomos a observação do desenho do Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci, datado de 1490.

A que nos remete esta imagem?

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

 

 

– Completude

– Harmonia

– Equilíbrio

– Beleza

 

 

 

 

A representação das proporções ideias do ser humano no desenho de Leonardo da Vinci, traz a ideia de equilíbrio e harmonia entre as partes que compõe o homem, sem privilegiar nenhum aspecto em detrimento do outro.

Dando um salto na História da Arte, comparamos a obra de Leonardo da Vinci a de Tarsila do Amaral , com o quadro Abaporu, de 1928.

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃOA figura humana na obra de Tarsila do Amaral retrata o homem da terra, ligado à natureza. Trata-se do homem do fazer, que caminha, planta, colhe, usa a força física de seus membros superiores e inferiores, e por esta razão apresenta-os bem desenvolvidos. Podemos definir o homem de Tarsila como o homem do fazer, da ação.

Na comparação com o Homem Vitruviano, pode-se perceber a perda das proporções ideais do ser humano.

Contrapondo o homem do fazer de Tarsila do Amaral, na pintura a seguir, de autoria desconhecida, observamos a desproporcionalidade entre cabeça e corpo.

 

NOVOS PARADIGMAS PARA A EDUCAÇÃO - PRIMEIRA PARTE

Pela ênfase dada à cabeça, evidencia-se a importância da racionalidade, do intelecto, do desenvolvimento cognitivo expressa pelo artista. Temos aqui o homem que dá prioridade a sua capacidade pensante.

Este é o homem contemporâneo, que tem na racionalidade sua prioridade e a utiliza como o grande condutor de sua vida.

Formulamos então a pergunta: se no passado o homem desenvolveu seus membros inferiores e superiores privilegiando a capacidade do fazer e hoje ele prioriza o desenvolvimento cognitivo, representado pela cabeça, como fica o  desenvolvimento da região toráxica, composta pelo coração e pulmão, que forma seu sistema rítmico?

A visão ampliada do ser humano, proposta pela Antroposofia, concebida pelo filósofo e educador Rudolf Steiner, 1861-1925, considera a espiritualidade parte da constituição do ser humano, assim como também aponta o corpo astral, um corpo de emoções.

Fomos até aqui guiados por uma visão fragmentada do ser humano, precisamos reconstruir sua visão integral como ponto de partida para a Educação, conforme diz o Profº Ruy Cezar do Espírito Santo em O renascimento do Sagrado na Educação: “a inserção da espiritualidade no contexto educacional é essencial”.  E para que isso aconteça,  o primeiro passo é compreender a totalidade da constituição humana.

O reconhecimento da dimensão espiritual do ser humano, coloca nos diante de grandes desafios como educadores. Considerando as palavras de Huberto Rohden, filósofo educador catarinense  (1893-1981) em Novos Rumos para a Educação:

“Todo homem é muito mais aquilo que é potencialmente do que aquilo que é atualmente […] Uma semente é potencialmente a planta que dela vai brotar, embora não seja ainda atualmente essa planta. A verdadeira natureza de uma semente de palmeira é a palmeira que dela nascerá. A ‘natura’ é a coisa ‘na(sci)tura’, isto é, aquela coisa que vai nascer. A potencialidade é, pois, a íntima natureza de um ser, a sua verdadeira natura ou natureza”

Pode-se afirmar que como educadores trabalhamos com aquilo que ainda não é visível no educando externamente, e devemos atuar como facilitadores na tarefa de tornar manifesto aquilo que ele carrega dentro de si, sua essência central; objetivar, sua subjetividade.

Como o educador pode estabelecer uma relação com a verdadeira essência do ser ainda não manifesta de modo a facilitar sua exteriorização, e não permitir que a temporalidade das atitudes desarmoniosas externas, interfira negativamente no processo educativo?

Rohden  nos instiga ao afirmar que:

“Toda a verdadeira educação consiste em que o homem faça a sua existência à imagem e semelhança da sua essência; que essencialize a sua existência; que verticalize as suas horizontalidades; que divinize a sua humanidade; que faça o seu externo agir tão bom como é o seu interno ser”

Reconhecer a essência central do ser humano, invisível externamente, bem como recompor as partes para a visão de sua totalidade,  como visto até aqui, é tarefa fundamental para repensar-se novos rumos na educação.

No próximo artigo será analisada a segunda premissa proposta:  origem da palavra Educar.

O texto original e completo deste artigo está publicado na Revista Interespe, nº 8 – jun 2017 página 49, da  PUC de São Paulo e  disponível pelo link:

http://www.pucsp.br/interespe/revistas/downloads/revista-8-interespe-jun-2017.pdf

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Ana Lúcia Machado

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Analisando o cenário atual da Educação Infantil, a sociedade faz um apelo: devolvam o tempo do brincar na Educação Infantil. Não podemos aceitar as recentes mudanças impostas pelo MEC de escolarização da Educação Infantil. Leia aqui.

Faço parte de uma geração que passou os primeiros anos de vida brincando em casa, na escola, na rua, com amigos da vizinhança, com primos, cuidando da minha cachorrinha, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos, andando de bicicleta pelo bairro, e assim  descobrindo e explorando o mundo.

Na pré-escola , até os 7 anos,  aprendi muitas canções e histórias, desenhei, pintei, recortei, colei, pulei corda, brinquei de roda, amarelinha, casinha, médico, professora, etc… Aprendi a dividir com os amiguinhos, jogar de acordo com as regras, pedir desculpas quando necessário, cuidar das plantinhas, guardar e arrumar o que tirasse do lugar, não mexer no que não fosse meu.

Há uma grande diferença entre a minha vida na pré-escola e a vida das crianças nos dias de hoje. Os anos pré-escolares se transformaram em uma competição acadêmica exaustiva. A Educação Infantil ficou muito parecida com o Ensino Fundamental, por causa da ênfase na alfabetização.

 

POR QUE TANTA PRESSA EM ALFABETIZAR AS CRIANÇAS?

Crianças de 4, 5 anos, ainda ávidas por correr, pular, girar, são requisitadas para atividades cognitivas que exigem um corpo estático e destreza em habilidades ainda em desenvolvimento na criança, como a coordenação motora fina. Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, fala que “A criança aprende o mundo com todo seu corpo, não  apenas com os dedos de uma mão”.
DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Autoridades escolares diminuíram o intervalo do recreio para criar espaço para mais conteúdo curricular. Em algumas escolas as crianças não podem mais correr. Com isso os consultórios de psicologia estão cada dia mais cheio de crianças com problemas de falta de concentração, ansiedade, e vários transtornos.

Em 2007, o Conselho de Pesquisa Econômico e Social da Inglaterra publicou um documento que contou com a participação de dezessete especialistas de diversas universidades europeias interessados na discussão entre a neurociência e a educação, que diz o seguinte:

“Contrariando a crença popular, não existem evidências neurocientíficas que justifiquem começar a educação formal o quanto antes. A plasticidade do cérebro é um fenômeno que dura a vida inteira, não somente nos primeiros anos.”

 

AFINAL, O QUE É A ALFABETIZAÇÃO? 

Paulo Freire sempre advertiu que alfabetizar é antes de mais nada conscientizar. Ele falava da conscientização do “mundo vida”, onde a criança vive, onde ela se encontra e o que a rodeia. Dizia que primeiro a criança lê o mundo para depois ler as letras”.

Em outras palavras é o que fala também a jornalista especialista em neurociências e neuropsicologia Michelle Müller: “Antes de generalizar o aprendizado das palavras ou apressar a alfabetização, é preciso ter em mente que a leitura de mundo dos pequenos acontece de muitas maneiras. Um bebê, por exemplo, lê com o corpo, com os ouvidos, com as mãos, a partir da exploração tátil, sonora e visual das coisas.

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

O psicolinguista colombiano Evelio Cabrejo Parra, explica que “o bebê, ao nascer, já vem com a capacidade de escutar. Quando se lê para ele em voz alta ou se canta uma canção de ninar, ele se põe em posição de escuta. Isso quer dizer que ele está tratando de construir significado à sua maneira”.  Parra defende que desenvolvemos a linguagem desde bebês, e vê  a ‘alfabetização’ como um processo sutil anterior à fala e à escrita, que tem início por meio da escuta.

A experiência dos finlandeses, que não começam uma instrução formal de leitura antes de 7 anos de idade, revela que “a base para o início da alfabetização é que as crianças tenham atenção e ouçam … que elas tenham falado e conversado, que as pessoas tenham discutido [coisas] com elas … Que elas tenham feito perguntas e recebido respostas”.

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 

Leia também: Por que não alfabetizei meus filhos antes dos sete anos e as 6 consequências da alfabetização precoce

 

 

Beatriz Gayotto, pedagoga pelo Instituto Singularidades, e professora de Ensino Fundamental do Estado de São Paulo, adverti  que “o enfoque do trabalho da Educação Infantil deve ser a socialização da criança, o desenvolvimento das habilidades de ouvir, de se expressar e de negociar. A Educação Infantil deve aumentar os horizontes culturais das crianças, resgatar as canções, histórias e brincadeiras que elas conheceram em casa e ampliar seu repertório com o dos colegas e com aquele que a professora apresenta, tanto da cultura regional como da mundial”.

FATORES QUE FAVORECEM O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO 

  • Habilidades motoras e domínio espacial, adquirido na exercitação do correr, saltar, rodar, equilibrar-se em troncos de árvores, perna de pau, trepa-trepa, etc…
  • Interação social, conquistado pelas brincadeiras e jogos em grupos, em casa e na escola
  • Expressão oral, saber dialogar, contar uma história, facilitado por repertório de canções, histórias, versos, parlendas, aprendidos em casa, na escola
  • Escuta, exercitado por ouvir histórias em casa, na escola
  • Registros de ideias e vivências artísticas por meio de desenhos, pinturas e colagens
  • Saber contar os números, exercitado nas brincadeiras de esconde-esconde, pular corda, nas compras com a família, na cozinha com os pais no preparo de receitas culinárias, etc…
  • Autonomia no cuidado pessoal e de seus pertences
  • Internalização de rotina e ritmo

 

DEVOLVAM O TEMPO DO BRINCAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Na contra mão da aceleração…

especialistas afirmam que o aprendizado formal  é mais produtivo  a partir dos 6 anos de idade, pois é quando as crianças são mais capazes de lidar com ideias abstratas. Afirmam também que  crianças que chegam à escola socialmente adaptadas, que sabem seguir instruções, compartilhar, ajudar os amigos, terão mais chance de dominar a escrita, a leitura, e os números.

Um dos grandes aliados da criança na primeira infância, como força de aprendizagem, é o brincar livre. Entretanto, infelizmente na sociedade contemporânea o brincar livre está em declínio, as novas gerações estão sendo privadas deste tempo e espaço de brincar.  Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar das crianças e seus prejuízos.

Brincar é substrato para a vida,  é o motor da infância que garante a potência para a vida adulta. Brincando  a criança desenvolve competências que serão requisitadas mais tarde nas relações interpessoais e de trabalho. Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. Ele é essencial para o desenvolvimento infantil integral e saudável, e segue tendo sua importância ao longo da vida adulta, porque afinal somos seres lúdicos.

Será que não estamos adoecendo as crianças com nossa pressa? Será que o aumento dos distúrbios infantis, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças de gastar suas energias brincando e exercitando a imaginação?

O brincar tem origem na curiosidade e necessidade de exploração da criança para construção do seu próprio mundo, sua identidade, a imagem de si e a compreensão do mundo que a cerca. Ele ensina tudo o que os pequenos precisam aprender sobre a dinâmica interna e estrutura do seu próprio corpo. Quando brinca a criança está inteira na brincadeira, pois brinca com todo o seu ser. Brincando ela experimenta o estado de flow, e assim desenvolve a capacidade de concentração, necessária para o processo de alfabetização.

Quando meus filhos tiveram que ir para escola, optei por uma pré-escola com foco no brincar livre na natureza. O início do processo de alfabetização de ambos, só ocorreu a partir dos 7 anos, quando eles estavam prontos e maduros para as atividades intelectuais. Conto minha experiência em detalhes aqui.

Quando compartilhei minha história com os leitores do Educando Tudo Muda, dezenas de pais e educadores se manifestaram, expressando suas angústias e inquietações por meio de comentários no blog e nas redes sociais. Vale a pena ler esses comentários, como o da mãe Viviane Silva, e da professora Grace Vania Loguercio Budke:

“Oi Ana….amei seu texto sou estudante de pedagogia e tenho 2 filhos um 7 anos completos e outra com 5 anos, ambos estudam em escola pública e na escola pública o ensino vem mudando por exemplo os professores de EMEI agora que é o pré não precisa mais iniciar a alfabetização, tudo para deixar a criança brincar porém vem o estado e muda tudo, pq agora a criança inicia no ensino fundamental com 6anos, não tive problemas com meu filho pois faz aniversário em Maio então entrou no primeiro ano com 7 anos completos, mas já estou mega triste pois minha filha vai para o ensino fundamental com 6 pois ela faz aniversário em dezembro como completa 7 no ano seguinte já vai para o primeiro ano, eu acho tudo mais precoce nela, mas na alfabetização é bem claro q ela não está madura o suficiente, meu filho quando saiu ja estava lendo pequenas palavras mas isso foi sendo progresso dele sozinho, ir juntando as letrinhas q ia aprendendo, mas ele já estava para completar 7 anos, o que ainda não acontece com a minha filha ela ainda não despertou esse interesse pq não está na idade certa ainda, vai ser forçada a aprender e se alfabetizar 1 anos antes sem necessidade. Falei com a escola, pra ela ficar mais 1 ano na EMEI e isso não é possível, devido a demanda e tb pq a lei é essa agora, o primeiro ano é considerado a iniciação e ela está apta. Enfim, triste mas é a nossa realidade”.

“Sempre me questiono… Por quê alfabetizar antes dos sete anos??? Como professora presenciei angustiada a frustração de alunos imaturos e com sérios problemas de  relacionamento com o mundo exterior, por terem deixado os anos lúdicos por compromissos e hora para brincar. O bum!!!! Disso tudo se dá na pré adolescência lá pela quinta ou sexta serie. A desculpa de pais ansiosos é que hoje os pequenos já dominam a era digital!!!etc,etc. Que hoje é diferente. Sim, mas para eles antes dos 7 anos tudo ainda é brinquedo, sem compromisso , horário e confinamento de sala de aula”.

É preciso questionar o sistema e defender o direito das crianças viverem a infância como deve ser, respeitando as etapas de seu desenvolvimento. Tudo a seu tempo.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Professores: reféns de um tempo tarefeiro?

Diante da demanda crescente por medidores de eficiência na educação, e tantas cobranças, os professores encontram-se reféns de um tempo tarefeiro?

“É o final de um período de ensino e faço a retrospectiva que deve ser, ao mesmo tempo, a base para preparar o que vem a seguir. Acumularam-se muitas questões não resolvidas. Sinto que a classe precisaria de um novo impulso. (…)

(…) Certos acontecimentos que se repetem entre as crianças desencadeiam em mim antipatias previsíveis e reações rotineiras. E sei muito bem que tudo isso leva a bloqueios, contraria meus ideais de educação. (…)

(…) Surgiram situações em que reagi de maneira inadequada porque estava cansado. Minhas forças esvaíram-se totalmente no preparo de uma matéria nova para mim, que me exigiu em demasia. Não será mais fácil durante a próxima época de História. Os livros já se amontoam em minha escrivaninha. (…)

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

(…) Enquanto leio o primeiro capítulo de uma obra de 300 páginas, logo percebo que ela pouco me ajudará para o ensino. Não obstante, continuo lutando enquanto o tempo se escoa, já sabendo que jamais conseguirei dar cabo da pilha de livros, apesar da certeza de que a obra decisiva se encontra ali na pilha. (…)

(…) Assumi minha tarefa com entusiasmo e idealismo, mas agora estou exausto… só estou reagindo às exigências externas e que, por isso, jamais consigo satisfazê-las.(…)”

 

 

 

 

O relato acima  é de autoria do Profº Heinz Zimmermann em sua obra “Forças que impulsionam a educação”, porém poderia ser o desabafo da maioria dos professores atuais. Nesse mesmo texto, mais adiante, Zimmermann conclui: “um professor assim é o oposto do que as crianças precisam”.  E como resultado de toda essa angústia, as seguintes perguntas são formuladas por ele:

 

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

 

– Como posso ganhar tempo?

– Como chego a ideias pedagógicas?

– Como supero minha falta de forças e de coragem?

 

 

O trabalho de um professor não se limita àquelas horas em sala de aula com os alunos. As atribuições e exigências  extras  o período de ministração de aulas são enormes: desde a preparação das aulas em si, passando por tarefas burocráticas com preenchimento de formulários,  preparação de reuniões pedagógicas, reuniões de pais, correções de cadernos de alunos, organização de exposições pedagógicas e eventos culturais do calendário anual escolar, elaboração e correção de provas, e muito mais. Com tantas tarefas a executar e prazos a cumprir, o tempo tende a comprimir, pressionar até a exaustão, provocando sobrecarga, desgaste e até mesmo o adoecimento do professor.

Existe nesse fazer contínuo, a tendência a uma cegueira quanto ao que é essencial. Corre-se o risco de uma escravidão do fazer, que resulta em ações automáticas, como uma máquina. É o fazer pelo fazer sem um sentido real, desprovido de consciência.

 

O QUE LEVA A ESCRAVIDÃO DO FAZER?

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Quando rompemos a ligação existente do fazer com o ser, geramos ações desconexas, desintegradas de nós mesmos. Aquilo que somos não está mais presente na ação.

As energias se esgotam ao executarmos tarefas sem a inteireza do ser, sem o devido foco no aqui e agora.  Existe a tendência de nos fragmentarmos entre um tempo que já passou, num lamento ou nostalgia, e entre um tempo que ainda está por vir, onde projetamos nossas expectativas, sem sabermos que o único tempo que nos pertence onde podemos verdadeiramente atuar, é o tempo presente.

A falta de presença, de participação ativa nesse único tempo que nos é dado, impede o acesso a fontes de energia, pois o tempo sem o devido preenchimento de nossa consciência, interesse e envolvimento, escorre improdutivamente e mina nossas forças.

O que dá sentido ao fazer humano é seu trabalho autoral, de natureza criadora, criativa, que só pode se manifestar a partir do interesse, entusiasmo e paixão por aquilo que fazemos. Somente quando atuamos com interesse e inteireza, podemos ser capazes de insights – ideias inspiradoras – que auxiliarão na prática pedagógica.

Portanto dois pontos precisam ser revistos com maior rigor: o primeiro de natureza mais técnica, exige a capacitação do lidar com o tempo por meio da organização, planejamento e discernimento das prioridades diante das exigências. Esse tempo é o tempo do relógio.  Nesse aspecto a disciplina é da maior importância para o cultivo de uma relação saudável com o tempo tendo como objetivo produzir resultados satisfatórios. Porém necessitamos compreender também a existência do nosso tempo interior, que abriga nosso estado de espírito. Se entediados, o tempo passa devagar, se ansiosos, mais rápido, e se atentos ao presente, não vemos o tempo passar.

O escritor Raduan Nassar em seu romance “Lavoura  Arcaica” discorre sobre essa relação tão delicada do homem com o tempo dizendo que:

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

“O equilíbrio da vida está essencialmente nesse bem supremo,  e quem souber com acerto a quantidade de vagar ou de espera que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco ao buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”.

 

O segundo ponto, requer uma análise mais apurada sobre a metamorfose da vontade humana geradora de nossas ações. Da ação instintiva (da qual o animal compartilha com o homem) à ação resoluta, há níveis que vão se elevando à medida que a consciência aumenta.  Quando ajo sem nenhuma consciência, estou sendo levado por meus instintos. Ainda distante de minha consciência, há o agir impulsivo. Chamo de aspiração, quando minha ação ainda não é motivada por uma direção específica. A partir de um comprometimento, segue minha intenção um pouco mais direcionada. E com a intensificação do meu compromisso, alcanço a resolução: a decisão de agir com uma direção determinada, específica que conduzirá à realização, à ação em si, plena de consciência. Quando faço algo motivado pelo mais elevado nível da vontade humana, essa ação está totalmente integrada ao ser, é de domínio do ser.  Torna-se portanto um fazer autêntico, imbuído de sentido e entusiasmo, vemos então uma total integração do fazer ao ser.

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

Existe uma fonte renovadora de nossas energias. Ela pode ser encontrada nas pausas, na vivência do vazio e do silêncio penetrante, amoroso e absoluto. O silêncio se encontra entre os intervalos de nossa  inspiração e expiração. Nesse espaço de tempo vivemos a experiência de UNIDADE capaz de nos conectar ao TODO.

 

Que a partir dessa reflexão haja a busca para a libertação desse tempo escravo do fazer. A  todos os Professores,  boas férias.

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Abraço caloroso

Ana Lúcia Machado

COLECIONADORA DE INFÂNCIAS – para que servem as lembranças da infância?

colecionadora de infâncias

Sou colecionadora de infâncias. Isso mesmo, coleciono  primeiras memórias. Tenho em minha coleção a infância de muitas crianças. Entre elas a de Rubem Alves, Fernando Sabino, Manoel de Barros, Lya Luft, Érico Veríssimo, José Saramago, Pablo Neruda , e outras. A lista é grande.

Colecionadora de infâncias

Recentemente entraram na minha coleção as passagens marcantes da infância de Antonio Prata, descritas em seu livro “Nu, de botas”. Não haveria melhor maneira para iniciar suas memórias do que  “No princípio, era o chão”. É deste patamar que a criança começa a enxergar o espetáculo do mundo  e apreendê-lo.

Para nós adultos, é difícil entender a lente pela qual as crianças veem o mundo. Porém, se conseguirmos exercitar nossa visão, teremos diante de nós a chance de nos reencantarmos com as coisas simples da vida.

 

colecionadora de infâncias

Janusz Korczak, pediatra e educador (1878-1942), profundo conhecedor da alma da criança, advertia aos que se declaravam cansados do convívio com crianças dizendo:

 – Vocês dizem ainda: “Cansa-nos porque precisamos descer ao seu nível de compreensão”. Descer. Rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. Não é isso o que nos cansa, e sim o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível de sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar nas pontas dos pés, estender a mão. Para não machucá-las”.

Nesta coleção, em primeiríssimo lugar está  a minha própria infância, a menina que fui, que permanece em mim e continuo sendo, pois a infância não é um tempo perdido, continua a existir e reverberar ao longo da existência, como afirma Franz Hellens  ao dizer: “A infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos”.

Não se trata de romantizar a infância, nem de ser nostálgica, trata-se apenas de significá-la, dando lhe o devido valor. Infância é fundamento, base da vida, terreno sob o qual erguemos nossa existência, daí sua relevância. Infância faz parte da gente e deve estar sempre à mão para ser lembrada. Talvez se políticos, pais, educadores, toda  a sociedade, tivessem a consciência da sua importância, daríamos maior atenção ao começo da vida, haveria maior investimento por parte dos governos para o cuidado com a primeira infância.

Colecionadora de infâncias

MAS PARA QUE SERVE RECORDAR A INFÂNCIA?

Para responder esta pergunta, recorro a uma das mais enigmáticas infâncias da minha coleção, a infância de Binjamim Wilkomirski. Binjamim,  que teve sua infância nos atribulados anos de 1939 à 1948, vivendo os horrores dos campos de concentração nazista, surpreende ao dizer que “Quem não se lembra de onde vem jamais saberá ao certo para onde está indo”.  Suas memórias estão relatadas em um pequeno livro intitulado “Fragmentos”.

Partindo deste aspecto norteador das memórias de infância,  quero compartilhar uma experiência desta semana. Em uma reunião  numa escola, conversando com  a diretora  e proprietária da instituição, para falar do projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, me chamou muito a atenção um comentário feito por ela  dizendo que os pais atuais dão a impressão de terem se esquecido de sua própria infância.

As memórias de infância são grandes aliadas no processo de educação dos filhos. Elas dão força e ao mesmo tempo nos tornam mais sensíveis ao universo infantil, por nos aproximar da essência da criança.

Enquanto as crianças são pequenas e crescem, temos diante de nós a oportunidade de revivermos nossa própria infância. É um período rico de crescimento para os pais também,  pois a maternidade e a paternidade são uma construção contínua. Quando a criança nasce, o ser mãe, e o ser pai,  nascem juntos. Vamos amadurecendo e nos desenvolvendo como pais à medida que o bebê vai crescendo.

A lembrança que carregamos da nossa eterna criança, enriquece a relação com os filhos. Recordar nossas brincadeiras favoritas, as histórias que ouvíamos, o que gostávamos de comer, é uma fonte inesgotável de prazer e alegria. Trata-se de uma ferramenta poderosa que podemos usar no dia a dia com as crianças.

Com essas lembranças revivemos sentimentos imbuídos de força que nos ajudam a seguir com a tarefa desafiadora de educar. Resgatar esses sentimentos ativa nossa intuição e nos torna mais confiantes. Mais do que dicas de livros que nos sugerem como agir com os pequenos,  o que realmente precisamos é nos ancorar na sabedoria que carregamos dentro de nós por meio de nossas próprias experiências como adultos e crianças.

Diante do novo, do desconhecido que se apresenta à nossa frente ao longo do desenvolvimento da criança, é preciso se permitir o estado de dúvida e o tempo de amadurecimento das respostas. Não existe resposta pronta, imediata, como receita de bolo, pois cada criança é singular e a resposta vem da relação com a própria criança, é o que orienta a psicanalista Julieta Jerusalinsky. Como especialista em clínica infantil, a psicanalista faz uma séria advertência dizendo que “os pais nunca estiveram tão destituídos do saber como estão na atualidade”.

Podemos afirmar que nossas memórias de infância tem a função de guardiã e facilitadora  da infância de nossos filhos, ativando nosso lado intuitivo e resgatando nossa confiança.

Mas, os benefícios que tais lembranças  trazem, não param por aí. No livro “Criança brincando! Quem a educa?”,  a pedagoga Luiza Lameirão aponta outros aspectos positivos que essas recordações  podem oferecer:

 

 colecionadora de infâncias

 

 

Sendo assim todos saem ganhando, pais e filhos.

Gaston Bachelard, filósofo e poeta francês, fala que “o devaneio voltado para a infância nos restitui à beleza das imagens primeiras”, faz do agora um tempo mais belo.

Compartilho aqui  pequenos fragmentos da minha coleção que remetem ao chão da criança, lugar onde pais e educadores devem se colocar para respeitar o tempo e espaço delas:

 

“No piso do quintal, ladrilhado com cacos de cerâmica vermelha, via um elefante de três pernas, um navio, um homem de chapéu fumando cachimbo. Na manhã seguinte, as imagens haviam mudado: o homem de chapéu era um bolo mordido; o elefante, parte de um olho enorme – a tromba, um cílio -; o navio zarpara, deixando para trás apenas cacos de cerâmica vermelha no piso do quintal”. Antonio Prata em Nu, de botas

 

“…Deitada no assoalho de tábuas claras enceradas. Frescor de madeira contra pernas e peito. Espio embaixo de um móvel.

Sempre aquela tentação de procurar o escondido. O desejo da surpresa e o desinteresse pelo evidente demais.

Poeira e sombra. Movimento rápido, vento num rolo de poeira e fios. Vou descobrir, vou entender, vou tocar aquilo que se move e ali me chama. Algo cintila no escuro : um caco de vidro, um tesouro…um olho espiando? Eu sei, tenho certeza de que não é apenas um novelo de poeira e fios: está vivo e será meu.

Mas quando o estou quase alcançando chegam os passos rápidos da mãe onipresente, e o encanto se desfaz:

-Levanta daí, vai se sujar de novo, você acabou de tomar banho! Lya Luft em Mar de dentro

 

“Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua  vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.” Manoel de Barros em Memórias inventadas

 

 “Naquele dia, assim que a chuva passou, fui como sempre brincar no quintal. Descalço, pouco me incomodando com a lama em que meus pés afundavam, gostava de abrir regos para que as poças d’água, como pequeninos lagos, escorregassem pelo declive do terreiro, formando o que para mim era um caudaloso rio. E me distraía fazendo descer por ele barquinhos de papel, que eram grandes caravelas de piratas.

Desta vez, o que me distraiu a atenção foi uma fila de formigas a caminho do formigueiro, lá perto do bambuzal, e que o rio aberto por mim havia interrompido. As formiguinhas iam até a margem e, atarantadas, ficavam por ali procurando um jeito de atravessar. Encostavam a cabeça umas nas outras, trocando idéias, iam e vinham, sem saber o que fazer. Algumas acabavam tão desorientadas com o imprevisto obstáculo à sua frente que recuavam caminho, atropelando as que vinham atrás e estabelecendo na fila a maior confusão”. Fernando Sabino em O menino no espelho

 

Está lançado o desafio: exercite o recordar de sua infância e perceba o efeito que isto pode produzir em você mesmo e ao seu redor.  Isso vale também para os professores. Bom trabalho! E se quiser deixar nos comentários abaixo algumas de suas lembranças de infância, será uma alegria te incluir nesta coleção.

“O menino é pai do homem”.

William Wordworth

 

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

 

 

 

 

BRINCAR NA NATUREZA – PROJETO PLAYOUTSIDE

Conheça o projeto Playoutside – alegria de brincar na natureza, um movimento que busca transformar o cenário atual da infância.

Ao longo dos anos, com a crescente urbanização do ser humano, espaço e tempo diminuíram. Valores da sociedade de consumo tomaram conta do tempo e lugar do brincar no universo da criança.

Muitos fatores tem sido apontados como sabotadores do tempo do brincar livre da criança. Entre eles, podemos destacar o uso precoce e excessivo da tecnologia. Especialistas da área da saúde tem alertado quanto aos  prejuízos ao desenvolvimento infantil saudável e enumerado o que tais excessos podem acarretar:

dificuldade de concentração, má qualidade do sono, sedentarismo, problemas de saúde mental, atraso de aprendizagem, entre outros distúrbios

Hoje com menos de 3 anos de idade, as crianças já sabem usar smartphones e  tablets.  66 % sabem jogar games, mas apenas 14% sabem amarrar os cadarços do tênis.

Estatísticas mostram que 80% da população brasileira vivem em cidades e que a criança urbana passa 90% do seu tempo em locais fechados, dentro de casa, em frente da televisão, jogando vídeo games, ou nas escolas dentro de salas de aula. Quando saem com os pais vão ao shopping, restaurante ou cinema.

Playoutside - alegria de brincar na natureza

As crianças brasileiras, segundo dados do relatório Children & Nature Network, estão entre aquelas que têm menos contato com a natureza. Doenças que passaram a ser comum entre as crianças nos dias de hoje, tais como transtorno de hiperatividade, déficit de atenção, depressão, pressão alta e diabetes, estão diretamente ligadas com a falta de natureza.

Um movimento mundial de retorno à natureza está se espalhando pelo mundo. Este movimento visa reconectar as crianças a ambientes abertos, ao ar livre. Um novo termo tem sido usado por pediatras, psicólogos, educadores. Trata-se da expressão “Transtorno do Déficit de Natureza”, que é a falta de contato do ser humano com a natureza.  Uma pesquisa recente mostrou que 40% das crianças brasileiras passam uma hora ou menos ao ar livre. Um número inexpressivo.

O QUE A FALTA DO BRINCAR NA NATUREZA SOMADO AO STRESS DA VIDA URBANA PODE CAUSAR?

-obesidade infantil, associada a maus hábitos alimentares

-musculatura fraca, pela falta de atividade física

-falta de equilíbrio, pelo predomínio de pisos lisos, cimentados que oferecem pouca oportunidade de instabilidade na movimentação corporal

-deficiência de vitamina D

-aumento de incidência de miopia

-menor uso dos sentidos

-ansiedade

A primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Através do olhar estabelecemos contato com a exuberância e beleza que há no mundo. A conexão com a natureza gera alegria e reverência. Traz a consciência de pertencimento, de que estamos ligados ao todo. Homem e natureza – uma coisa só.

Playoutside - alegria de brincar na natureza

A natureza deve ser a 1ª leitura de mundo da criança. Além de aprendizado por si só, ela é também premissa para o desenvolvimento infantil integral e saudável. Infância e natureza estão intimamente ligadas.

A criança tem um espírito exploratório. Brincando e descobrindo a natureza, ela também está aprendendo. Este aprendizado se dá de uma forma tão descontraída e prazerosa, que nem parece aprendizado. A natureza promove equilíbrio interno, autorregulador na criança. É um contato muito produtivo, pacificador, restaurador para ela.

Em recente livro publicado no Brasil, “A última criança na natureza”,  Richard Louv fala de um estudo realizado pela Universidade de Illinois que mostrou redução dos transtornos de ansiedade entre crianças de 7 à 13 anos após o aumento de tempo em contato com a natureza. Outro estudo feito em Massachussets em escolas, constatou que alunos tiveram aumento de desempenho e resultados satisfatórios depois de ficarem mais tempo ao ar livre.

Os benefícios da natureza já estão comprovados. Uma pesquisa feita com estabelecimentos de educação infantil no Canadá mostrou que parques com áreas verdes nas escolas estimulam um brincar que envolve mais atividade física em comparação às áreas de lazer sem natureza.

PLAYOUTSIDE 27 DE NOVEMBRO

Mais tempo ao ar livre regula hormônios, reduz a agressividade, hiperatividade e obesidade. Sucesso vem sendo obtido no tratamento de transtorno de déficit de atenção, depressão, e até mesmo quadros alérgicos, pois o contato com os antígenos naturais no campo ou na praia fortalece o organismo. Além disso, aumenta a capacidade cognitiva, e as crianças ficam mais focadas e criativas.

Devemos criar oportunidades frequentes para as crianças brincarem ao ar livre. Foi pensando neste cenário de carência de natureza na vida das crianças, que desenvolvemos o projeto “PLAYOUTSIDE – ALEGRIA DE BRINCAR NA NATUREZA”.

Playoutside - alegria de brincar na natureza

Promovemos encontros em parques urbanos com o objetivo de reconectar as crianças e seus familiares a natureza e estimular o brincar livre da criança. Convidamos os pais a desfrutar um tempo de qualidade com seus filhos, deixando de lado as preocupações e as demandas do mundo digital, para se entregar a atividades lúdicas na companhia das crianças.

Um passeio na mata, uma caminhada no parque, praça ou jardim, num lugar bonito com pássaros, árvores, plantas, flores, terra úmida e insetos, aguça a curiosidade infantil. Cheiros novos, sons de pássaros, do vento, das folhas secas. Formas diferentes de folhas, cores variadas de flores. Observar formigas, lagartas, minhocas, musgos, líquens, diversos seres vivos fascinantes para a natureza curiosa e exploratória da criança. Andar na lama, na chuva. Acompanhar borboletas, subir em árvores, correr entre elas ou se esconder, colher frutos, pegar pedras. Construir brinquedos e composições artísticas com objetos da natureza, dar asas à imaginação. Tudo isso são possibilidades encantadoras de brincar com a natureza e que procuramos estimular nos nossos encontros.

Leia depoimento de uma mãe participante do Playoutside:

“Eu e minha filha de 4 anos participamos da primeira edição do Playoutside. Foi muito importante para nós participarmos desta iniciativa  pois pudemos desfrutar dos benefícios de brincar juntas explorando a natureza. Neste mundo que anda tão corrido não paramos para desfrutar de coisas simples e as crianças estão sendo levadas por essa onda, suas agendas estão cheias e elas não tem tempo de fazer o que é próprio da infância “brincar”. No Playoutside a Bia pode brincar explorando a natureza tendo seus sentidos estimulados e podendo canalizar toda a sua energia em descobrir coisas novas, além de fortalecer nossos laços afetivos.” (Roberta Fernandes)

Saiba mais assistindo ao vídeo e acessando nossa agenda AQUI.

Inscreva-se e seja muito bem vindo ao Playoutside, você e sua família.

Abraços

Ana Lúcia Machado

Marina Siracusa

Coordenadoras do projeto

 

BRINCAR – SUBSTRATO PARA A VIDA

Brincar é substrato para a vida. O brincar é o motor da infância que garante a potência para a vida adulta. Brincando  a criança desenvolve competências que serão requisitadas mais tarde nas relações interpessoais e de trabalho. Infelizmente as novas gerações estão sendo privadas deste tempo e espaço de brincar livre.

Brincar é uma atividade instintiva, natural e espontânea da criança. Ele é essencial para o desenvolvimento infantil integral e saudável, e segue tendo sua importância ao longo da vida adulta, porque afinal somos seres lúdicos.

 

POR QUE BRINCAR É IMPORTANTE?

Stuart Brown, psiquiatra americano, pioneiro na pesquisa sobre o brincar, descobriu por meio de seus estudos que crianças tolhidas na sua necessidade de brincar terão dificuldades de decodificar o mundo , que brincar bastante na infância gera adultos felizes e bem sucedidos e que a capacidade de continuar nutrindo este ser brincante que somos, nos mantém joviais e saudáveis ao longo da vida.

Como resultado de suas pesquisas, Stuart afirma que:

“Brincar desenvolve músculos e habilidades sociais, fertiliza a atividade cerebral, aprofunda e regula emoções, nos faz perder a noção do tempo, proporciona um estado de equilíbrio, ajuda a lidar com as dificuldades, aumenta a expansividade e favorece as conexões entre as pessoas. Ao brincar ativamos o lado direito do cérebro, que está ligado à criatividade, emoção, imaginação, intuição e subjetividade”.  

Brincar - Substrato para a vida

Em abril de 2016 a empresa Unilever divulgou uma pesquisa sobre o valor do brincar livre, realizada  pela Edelman Berland, agência independente de pesquisa de marketing. A agência entrevistou 12.170 pais em 10 nações: EUA, Brasil, Reino Unido, Turquia, Portugal, África do Sul, Vietnã, China, Indonésia e Índia.

O QUE A PESQUISA DETECTOU:

– A maioria das crianças não sai para brincar ao ar livre,  56% das crianças passa uma hora ou menos brincando ao ar livre. Uma em cada 5 crianças passa 30 minutos ou menos ao ar livre; e uma em cada 10 nunca brinca ao ar livre. Em todos os países pesquisados, as crianças passam 50% a mais do seu tempo brincando em frente às telas dos eletrônicos do que ao ar livre.

– Os pais entendem que isso é um problema. Dois terços dos pais admitem que seus filhos brincam menos ao ar livre do que sua própria geração. A maioria dos pais (56%)  concorda que é preciso reequilibrar a rotina das crianças para fazer com que as brincadeiras que trazem benefícios para o crescimento possam acontecer – e 93% deles acreditam que brincar menos ao ar livre afeta o aprendizado dos filhos.

Brincar - Substrato para a vida

Para chamar a atenção para a carência do brincar livre, a Unilever criou uma campanha de impacto “Libertem as crianças“, que tem como ideia central a comparação do tempo de banho de sol dos presidiários ao tempo de brincar da criança ao ar livre.  Pode parecer um pouco exagerada, mas o objetivo é chocar e levar a sociedade a uma grande reflexão sobre a importância do brincar em contato com a natureza na infância. Assista o vídeo AQUI.

Anos atrás, li o  livro  “Minha vida de menina” –  diário de uma garota de Diamantina (MG), no  final do século XIX, que narra os acontecimentos do seu cotidiano, revelando os costumes da sociedade da época, a estrutura familiar e todo o universo que cerca a menina, com seus conflitos, temores e sonhos.

Nos relatos de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant (1880-1970), me encantou sua admiração e intimidade com a natureza. Ela conta que certa vez sofreu uma queda de um cavalo e machucou o joelho, o que lhe obrigou a ficar em repouso, presa dentro de casa, e comenta:

 “Como é horrível ficar presa num rancho, sabendo que há tanta coisa boa para a gente fazer! Quando eu penso que podia estar no córrego pescando ou mesmo atrás das frutas do mato, dos ninhos de passarinho, armando arapuca e tudo…”

Helena continua a se lamentar e diz que só voltará  a se sentir feliz quando estiver novamente lá fora.

Vivemos em outros tempos, e não poderia ser diferente. Entretanto é chocante constatar que hoje a realidade de nossas crianças é completamente oposta. Atualmente as crianças não sabem mais o que  fazer do lado de fora, mesmo em férias no campo ou na praia, não conseguem explorar todas as possibilidades que o mundo em ambiente aberto, ao ar livre,  pode proporcionar.

Brincar - substrato para a vida

 

A tela do pintor holandês Pieter Bruegel, intitulada “Brincadeiras Infantis” retrata um  pátio da Europa do século XVI. Mostra um tempo onde o brincar foi mais valorizado pela  humanidade. Podemos observar  adultos e crianças brincando, brincadeiras individuais, coletivas, jogos, atividades físicas, etc.  Rubem Alves, poeta, filósofo brasileiro, nos desafia ao dizer que já enumerou 60 brincadeiras nesse quadro. A maioria das brincadeiras de Bruegel, são do lado de fora. Em foco brincadeira de bolas de gude.

 

ONDE NASCE O BRINCAR?

O brincar tem origem na curiosidade e necessidade de exploração da criança para construção do seu próprio mundo, sua identidade, a imagem de si e a compreensão do mundo que a cerca.

O brincar ensina tudo o que os pequenos precisam aprender sobre a dinâmica interna e estrutura do seu próprio corpo.

Quando brinca a criança está inteira na brincadeira, pois brinca com todo o seu ser. Brincando ela aprende a se concentrar, experimenta o estado de flow, tão cobiçado e valorizado na atualidade.

As primeiras brincadeiras acontecem quando a criança começa a sorrir. Seu sorriso é uma expressão aberta que convida a brincar, a penetrar no seu mundo lúdico. Mãe e bebê se entreolham, a mãe balbucia, o bebê também. A vivência é de puro encantamento para ambos.

Brincar - substrato para a vida

O corpo é o primeiro brinquedo da criança a partir da descoberta das mãos e pés, depois com os rolamentos aos seis meses, seguido dos primeiros passos por volta de um ano. Aos dois anos a criança adquire a habilidade de pular e passa muito tempo treinando e se divertindo com seu corpo-brinquedo.

As crianças possuem atividade motora intensa, muita energia, imaginação e curiosidade. Elas correm, pulam, saltam, gritam, cantam, rolam, rodam, escorregam, se penduram, ficam de ponta cabeça, dão cambalhotas, se agacham, dançam, etc.

Criança é puro movimento, e qualificar seus movimentos naturais de indisciplina, falta de controle ou tentar conter sua energia, é privar a criança de ser ela mesma e de conhecer o mundo. Criança necessita de tempo e espaço de brincar livre.

Na sociedade contemporânea o brincar livre está em declínio. Especialistas na área de educação e saúde vêm alertando sobre a diminuição do tempo de brincar das crianças.

A Educação Infantil está cada vez mais parecida com o Ensino Fundamental. Crianças de 4, 5 anos, ainda ávidas por correr, pular, girar, são requisitadas para atividades cognitivas que exigem um corpo estático e destreza em habilidades ainda em desenvolvimento, como a coordenação motora fina. Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, fala que “A criança aprende o mundo com todo seu corpo não  apenas com os dedos de uma mão”.

Autoridades escolares diminuíram o intervalo do recreio para criar espaço para mais conteúdo curricular. Em algumas escolas as crianças não podem mais correr. Com isso os consultórios de psicologia estão cada dia mais cheios de crianças com problemas de falta de concentração, ansiedade, e vários transtornos.

Será que não estamos adoecendo nossas crianças? Será que o aumento desses distúrbios, a obesidade infantil, doenças cardiovasculares, não estão diretamente ligados ao tempo insuficiente do brincar? Será que não estamos tolhendo as crianças do seu verdadeiro ofício que é o brincar livre, criativo, imaginativo?

A carência do brincar leva ao risco das crianças não desenvolverem habilidades importantes para a vida adulta. Precisamos libertar nossas crianças, tirá-las dos quadrados das telas do mundo tecnológico, resgatar o mundo redondo infantil.

Leia também: O mundo da criança é redondo

Desde 1999, por iniciativa da Associação Internacional de Brinquedotecas, criou-se o Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio. No Brasil, a Aliança pela Infância, incentiva este movimento há mais de dez anos e o ampliou para ser celebrado durante uma semana inteira. A SMB é uma grande mobilização em defesa da valorização e reconhecimento da importância do brincar para a infância.

Brincar - substrato para a vida

Nesta semana temos programação gratuita garantida espalhada por toda a cidade. O Sesc em parceria com a Aliança pela Infância está promovendo diversas atividades para a criançada.

Como disse no início deste texto, brincar segue tendo importância por toda a vida, não só na infância. Foi pensando nisso que a  Maria Farinha Filmes lançou em 2014 o documentário “Tarja branca – A Revolução que faltava”.  O título do filme é uma alusão irônica aos remédios ‘tarja preta’. O documentário inspira o resgate da criança interior e procura mostrar que brincar é fundamental em qualquer idade.

Para finalizar, deixo a dica do e-book gratuito “Brincando com os quatro elementos da natureza”, que você pode baixar se cadastrando aqui no Educando Tudo Muda. Nele você encontrará inúmeras sugestões de brincadeiras naturais ao ar livre, em contato com a natureza.

Bora brincar! Desperte sua criança interior. Dê as mãos aos seus filhos e ou alunos para viver a alegria de ser criança.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

O MUNDO ESTÁ SE TRANSFORMANDO

Muitas vezes nos deixamos levar pela onda de negativismo que nos faz desacreditar do futuro da humanidade. Mas a verdade é que o mundo está se transformando. Estamos  evoluindo como seres humanos, a despeito de tantos temores que nos cercam e ameaçam  nesses tempos atuais. Estamos quebrando paradigmas ao optar por um mundo mais inclusivo e com isso espalhando respeito.

O movimento de valorização da diversidade com o objetivo de promover a inclusão social, é um exemplo dessas mudanças. Desde o início da década de 90 vem crescendo, conquistando espaço no mundo das corporações, e através de muita luta, com a criação de leis, de cotas de contratação, hoje podemos testemunhar um novo cenário.

Esta semana o Brasil se emocionou com uma campanha publicitária. A agência de propaganda DM9DDB criou para a marca Johnson’s Baby,  um vídeo em homenagem ao Dia das Mães. A campanha investiu na sutileza e naturalidade  das imagens, e abriu espaço para a representatividade.

O vídeo começa mostrando cada detalhe do bebê, seus movimentos  e interação com o ambiente. Apenas no final é que a criança é totalmente focalizada e identificada como um bebê  com síndrome de down. O novo bebê Johnson’s é Lucca Berzins de apenas um aninho de idade.

O público fez questão de expressar empatia pela campanha nas redes sociais, com manifestações de carinho e comoção, por meio de milhares de compartilhamentos e comentários. Esta campanha é um estímulo para enxergarmos o ser humano antes da deficiência. Este é um importante exercício que podemos nos propor a fazer no dia a dia.

O mundo está se transformando

Lucca Berzins, 1 ano

Há 30 anos, crianças com síndrome de down, autistas  e outras deficiências, eram enclausuradas em casa ou institucionalizadas. Em artigo já publicado aqui no site,  as mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas  promoveram maior qualidade de vida para estas crianças, educandotudomuda.com.br.

Elas não frequentavam escolas,  não haviam leis que garantissem a matrícula de crianças com deficiência.  A acessibilidade e mobilidade urbana era  precária, não existiam rampas que facilitassem a locomoção. Os pais de filhos com síndrome de down foram os precursores na luta pela inclusão. Hoje elas estão nas ruas, nos parques públicos, nas escolas. As vemos  crescer, estudar, namorar, cursar universidades, trabalhar  e casar.

Cada bebê que chega ao mundo é único e capaz de desenvolver seus talentos. Não devemos aceitar rótulos que coloquem o ser humano em caixinhas, e diagnósticos que abafem o potencial humano. Para mudar paradigmas é preciso alterar a consciência, e para isso a reflexão é essencial, como primeiro passo. A empatia e a diversidade são necessidades gritantes para uma sociedade mais justa, equilibrada e saudável.

o mundo está se transformando

 

Esse movimento de inclusão social deveria se estender de maneira mais contundente às escolas. Apesar  de alguns avanços, é difícil vermos por exemplo,  crianças cadeirantes em colégios tradicionais.

 

Ao longo da vida escolar dos meus filhos, o mais velho já na universidade  e a caçula no ensino médio,  nunca vi uma criança matriculada com mobilidade reduzida, síndrome de down, ou que apresentasse alguma deficiência,  nos colégios em que eles estudaram e estudam atualmente.

 

ONDE ESTÃO ESSAS CRIANÇAS?

Em escolas especializadas? Por qual motivo? Não seria enriquecedor  a oportunidade de estudarem juntas?  A criança que cresce ao lado de uma criança com deficiência na sala de aula, cresce com menos preconceito, aprendendo a respeitar  a diversidade.

O mundo está se transformando

A capacidade de superação do ser humano é admirável e com certeza o exemplo dessas crianças, surpreenderia às demais promovendo amadurecimento diante das inúmeras situações e oportunidade de expressão de empatia e solidariedade.

 

Temos ainda muitos desafios diante de nós , obstáculos a serem vencidos, entretanto vejo muitas pessoas mobilizadas em prol desta causa, o que efetivamente garantirá um grande salto nos próximos anos.

Todos podemos contribuir para acelerar este processo. Observar e questionar se há diversidade nas escolas em que nossos filhos estudam  é uma forma de colaborar.

Nós é que escolhemos mudar o olhar e assim aceitar, entender e aprender com a diversidade para transformação da sociedade.

A exemplo de Gandhi, ” devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Tudo começa dentro de nós. 

Parabéns a DM9DDB, e a Johnson’s,  que estão  colaborando para impulsionar essas transformações. Sobretudo parabéns a todas as mães que pela primeira vez se sentem representadas nesta data comemorativa.

Participe deixando seu comentário e compartilhando este artigo entre amigos.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

 

O TRABALHO INFANTIL E A IMPORTÂNCIA DO CONSUMO CONSCIENTE

Propomos aqui uma análise da relação do trabalho infantil com o consumo consciente. Para isso apresentaremos três importantes indústrias, a têxtil, do chocolate e a tecnológica.

A despeito dos programas voltados à erradicação do trabalho infantil, pesquisa divulgada pela OIT – Organização Internacional do Trabalho, constata que ainda há 168 milhões de crianças trabalhando no mundo, sendo que 85 milhões atuam nas piores formas, muitas vezes em condições sub humanas. Talvez  esses números não revelem o tamanho real desta ferida social, pois há muita coisa difícil de ser monitorada, fiscalizada  e quantificada mundo afora.

No Brasil a mão de obra infantil está estimada em 2,6 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos, segundo dados  da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) , do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas podem ser encontradas em serviços domésticos, na agricultura, no comércio informal, nos semáforos como malabares, vendedores de bala, nas feiras livres, nos lixões, em carvoarias e madeireiras.

Vários mitos tentam justificar o trabalho infantil, tais como: é melhor ver crianças trabalhando do que vê-las se drogando ou roubando, que o trabalho dignifica o homem e deve acontecer desde cedo para a formação de adultos trabalhadores e progresso da nação.

Muitos pais ainda acham que assim como um dia eles próprios ajudaram nas despesas em casa, seus filhos também devem repetir esse ciclo. É necessário desfazer o mito de que o trabalho precoce pode contribuir para o desenvolvimento humano e social, pois isso é uma grande mentira.

A sociedade precisa se conscientizar que o trabalho infantil causa danos enormes sobre o aspecto físico, emocional, intelectual e social da criança, que é um ser ainda em formação. Ele perpetua o ciclo da pobreza e miséria,  e compromete o desenvolvimento humano e social. Para que possa se desenvolver integralmente, a criança precisa antes de trabalhar, brincar livremente, se socializar com outras crianças, estudar e aprender.

Temos muitas entidades e instituições organizadas na luta pela erradicação do trabalho infantil no Brasil e no mundo.  Aqui, a  Rede Peteca  –  Chega de trabalho infantil é uma delas. Trata-se de uma plataforma de comunicação que promove os direitos da criança e do adolescente, disseminando informações relevantes para a conscientização da sociedade e seu engajamento em prol desta causa. Além da Rede Peteca, há também o FNPETI – Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, entre outras.

Muitas vezes a questão do trabalho infantil parece algo distante de nós, mas basta circular pela cidade para constatar a presença de crianças trabalhando em feiras livres, tomando conta de carros, lavando para-brisas nos semáforos. Quantas vezes em restaurantes não somos abordados por crianças  que escapam aos olhos do gerente e acabam entrando e circulando entre as mesas vendendo flores, panos de prato, etc…?

Mas o que tenho a ver com isso?

Parecemos ignorar que, por trás de tudo aquilo que consumimos, desde o alimento que colocamos na mesa, passando pelas roupas e sapatos que usamos, até os celulares que seguramos nas mãos, subjaz uma longa cadeia produtiva que envolve milhares de seres humanos, legislações trabalhistas, ambientais e sociais que devem ser cumpridas, hábitos de consumo da sociedade, etc…

Desta forma não podemos nos eximir da responsabilidade sobre esta triste realidade. Não podemos achar que essa questão não nos diz respeito e que não é um assunto que nos envolve pessoalmente. A falta de empatia nos torna cúmplices e perpetuadores desse câncer social.

Como consumidores devemos questionar a procedência dos produtos adquiridos por nós, procurar conhecer em que condições são produzidas as coisas que compramos. Quem faz as roupas que usamos? Onde essas roupas são produzidas e em quais circunstâncias? E os alimentos que comemos, e os objetos que compramos?

Somos responsáveis pela cobrança de uma cadeia produtiva ética, que promova o desenvolvimento e bem estar social, de uma cadeia livre de trabalho infantil, trabalho escravo e tráfico humano.

Basta analisarmos a indústria têxtil, do chocolate e a tecnológica para constatarmos que cada um tem sua parcela de responsabilidade enquanto consumidor.

 

Com que roupa eu vou?

O Brasil é a quinta maior indústria têxtil do mundo. Segundo dados da ABIT –  Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), a indústria têxtil gera um faturamento anual de 53,6 bilhões de dólares (166 bilhões de reais) e emprega mais de 1,6 milhão de trabalhadores, distribuídos nas 33 mil empresas instaladas pelo país.

Dados levantados em 2015 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), apontam que 3,8% de crianças e adolescentes que trabalham no Brasil estão na indústria têxtil, trabalhando em pequenos núcleos familiares. Familiar aqui não pode ser entendido como sinônimo de aconchegante, pois na verdade o cenário que se vê na maioria das vezes é um ambiente bem hostil e inóspito para a infância.

 

Trabalho Infantil

Um relatório do Overseas  Development Institute sobre o trabalho infantil em Bangladesh, revelou crianças de 6 a 14 anos que trabalham na indústria têxtil mais de 60 horas semanais, com baixíssima remuneração, aumentando o lucro de grandes empresas inescrupulosas.

Em 2013 na capital de Bangladesh, uma grande tragédia revelou ao mundo o lado obscuro da indústria da moda, que evidenciou  o apetite voraz  das grandes marcas por altos lucros e dos consumidores pela moda descartável, por roupas de baixo custo. Um prédio onde funcionava uma fábrica de tecidos que produzia para grifes globais desabou, matando mais de 1.000 pessoas e deixando aproximadamente 1.300 feridas.

 

Trabalho infantil

O alerta deu origem ao movimento mundial Fashion Revolution, que visa conscientizar a sociedade sobre o funcionamento da indústria da moda, no intuito de provocar mudanças.  No Brasil, o movimento é atuante e tem sensibilizado centenas de pessoas em campanhas como a  FASHION EXPERIENCE: CONSUMO CONSCIENTE CONTRA O TRABALHO INFANTIL

(Fonte de Informações Rede Peteca)

 

O chocolate nosso de cada dia

Diariamente alimentamos uma indústria que só vem aumentando seu lucro ano a ano. O brasileiro consome 2,5 quilos, em média, de chocolate por ano, representando o quinto maior mercado de alimento no mundo, com faturamento de R$ 12,4 bilhões em 2015, dados fornecido pela Abicab – Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados, e divulgado em matéria publicada pelo Valor Econômico.

http://www.valor.com.br/empresas/4861618/fabricantes-de-chocolate-esperam-pascoa-ate-10-mais-gorda

A indústria do chocolate está diretamente ligada a uma triste realidade de escravidão, exploração infantil e tráfico de crianças nas fazendas de cacau na Costa do Marfim, país responsável por aproximadamente metade de toda a produção mundial de cacau.

Crianças entre 11 e 16 anos, muitas até menores que isso, estão confinadas  em plantações de cacaueiros, forçadas a trabalhar de 80 a 100 horas semanais em condições precárias, desprovidas completamente daquilo que entendemos que deva ser chamado como infância.

Trabalho infantil

Empresas como a Nestlé, Barry Callebaut e Mars assinaram em 2001 o Protocolo do Cacau, comprometendo-se a erradicar totalmente o trabalho infantil no setor até 2008. Como já era esperado, a meta não foi atingida, e o prazo para cumprimento do acordo foi prorrogado.

Apesar da declaração de altos investimentos pelas empresas produtoras de chocolate, governos e organizações especializadas em prol da erradicação do trabalho infantil, e do tráfico de crianças no mercado internacional de cacau, pouca coisa mudou efetivamente.

O premiado jornalista dinamarquês Miki Mistrati, num documentário tocante, “O lado negro do chocolate”, denunciou a indústria do chocolate que sustenta o tráfico de crianças nas fronteiras da Costa do Marfim e a sua escravidão nas plantações de cacau.

trabalho infantil

Neste documentário foram entrevistados tanto os mantenedores quanto os combatentes deste tipo de prática. Câmeras escondidas e identidades falsas foram usadas para vasculhar e revelar ao mundo as condições desumanas que milhares de crianças são submetidas. O documentário mostra as evasivas dos proprietários das empresas fornecedoras de matéria prima e dos representantes das empresas produtoras de chocolate.

 

 

O mundo digital que desfrutamos

Você sabia que para termos as baterias de nossos celulares, computadores, etc…, milhares de crianças sofrem trabalhando nas minas de extração do cobalto na República do Congo?

A República Democrática do Congo é  um dos países mais pobres do mundo, entretando é rico em recursos minerais. Produz 60% do cobalto usado em todo o mundo. Este minério é um componente essencial na produção de baterias dos smartphones e computadores portáteis de marcas como a Apple e Samsung.

Boa parte do cobalto é extraído à mão e vendido a comerciantes americanos e chineses, que procuram o melhor preço sem questionar sua origem, bem como sua forma de extração.

trabalho infantil

Existem milhares de minas clandestinas, onde homens, mulheres e crianças trabalham sob condições de escravidão. Crianças de apenas 8 anos chegam a trabalhar 12 horas por dia, a maioria sem sapatos, nem luvas ou máscaras,  sob  qualquer condição climática, seja sol intenso ou chuva  forte, carregando sacos pesados, sofrendo ameaças e agressões físicas. Totalmente expostas aos efeitos danosos à saúde que o cobalto e seus vapores provocam.

No link abaixo você pode assistir um comovente vídeo mostrando as atrocidades vivenciadas por crianças nas minas de cobalto:

Https://www.youtube.com/watch?v=op3FkZ4_DFQ

Trabalho infantil

 

Este é um convite para uma grande reflexão. Vivemos em uma sociedade repleta de desigualdades, explorações, ausência de oportunidades e muita carência, ao mesmo tempo em que testemunhamos muita fartura, excessos, e sobras.

Acredito que a educação seja ainda a forma mais eficaz de combater todos esses transtornos que afligem a humanidade, causados pela sociedade contemporânea que  vive de forma automática no dia a dia, sem questionamentos sobre o por quê das coisas serem como são, funcionarem deste ou daquele modo.

Ao refletirmos um pouco sobre a obra de Ítalo Cavino, Cidades Invisíveis, publicada em 1972, nos daremos conta que  tal qual a  cidade de Leônia, não percebemos mais os custos sociais e ambientais deste mundo permanentemente faminto por invenções e inovações, cego pelo desejo do último modelo da última geração, dando valor aos bens imediatos em detrimento aos bens duráveis, produzindo e amontanhando lixos e dejetos, descartando coisas que rapidamente se tornam obsoletas pela sociedade consumista.

Fica aqui um trecho deste livro que mostra que qualquer semelhança não é mera coincidência.

“A cidade de Leônia refaz a si própria todos os dias: a população acorda todas as manhãs em lençóis frescos, lava-se com sabonetes recém-tirados da embalagem, veste roupões novíssimos, extrai das mais avançadas geladeiras latas ainda intatas, escutando as últimas lengalengas do último modelo de rádio.

Nas calçadas, envoltos em límpidos sacos plásticos, os restos da Leônia de ontem aguardam a carroça do lixeiro. Não só tubos retorcidos de pasta de dente, lâmpadas queimadas, jornais, recipientes, materiais de embalagem, mas também aquecedores, enciclopédias, pianos, aparelhos de jantar de porcelana: mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas vendidas compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem, o prazer das coisas novas e diferentes, e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma impureza recorrente. O certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover os restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção, ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas.

Ninguém se pergunta para onde os lixeiros levam os seus carregamentos: para fora da cidade, sem dúvida; mas todos os anos a cidade se expande e os depósitos de lixo devem recuar para mais longe; a imponência dos tributos aumenta e os impostos elevam-se, estratificam-se, estendem-se por um perímetro mais amplo. Acrescente-se que, quanto mais Leônia se supera na arte de fabricar novos materiais, mais substancioso torna-se o lixo, resistindo ao tempo, às intempéries, à fermentação e à combustão. E uma fortaleza de rebotalhos indestrutíveis que circunda Leônia, domina-a de todos os lados como uma cadeia de montanhas.

O resultado é o seguinte: quanto mais Leônia expele, mais coisas acumula; as escamas do seu passado se solidificam numa couraça impossível de se tirar; renovando-se todos os dias, a cidade conserva-se integralmente em sua única forma definitiva: a do lixo de ontem que se junta ao lixo de anteontem e de todos os dias e anos e lustros.

A imundície de Leônia pouco a pouco invadiria o mundo se o imenso depósito de lixo não fosse comprimido, do lado de lá de sua cumeeira, por depósitos de lixo de outras cidades que também repelem para longe montanhas de detritos. Talvez o mundo inteiro, além dos confins de Leônia, seja recoberto por crateras de imundície, cada uma com uma metrópole no centro em ininterrupta erupção…”

Boa reflexão

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado

SÍNDROME DE DOWN – O QUE MUDOU NAS ÚLTIMAS DÉCADAS

Dia 21 de março, comemorou-se o Dia Internacional da síndrome de Down.  Esta data serve também para se refletir  sobre o que mudou nas últimas décadas. Como se sabe, esta síndrome é caracterizada pela quantidade maior de material  cromossômico –  três cromossomos 21, 21/3, daí a razão da data escolhida.

As datas comemorativas são importantes para a conscientização coletiva e contribuem gradualmente para avanços significativos em defesa da  causa das minorias. Uma quantidade enorme de informações e notícias circularam pelas redes sociais, tele jornais e mídia em geral neste dia.

Lembrei que em 2007 li de Cristóvão Tezza, escritor catarinense, seu romance O Filho Eterno, uma obra autobiográfica que relata as vicissitudes  enfrentadas  pelo escritor  desde que recebeu a notícia que seu filho recém nascido tinha síndrome de Down, no início dos anos 80.

O ano passado  a obra  de Cristóvão Tezza estreou na telona, sob direção de Paulo Machline. Esta história nos faz refletir sobre o quanto mudou nos últimos 35 anos a compreensão sobre a síndrome de Down, e a qualidade de vida dessas pessoas.

Síndrome de Down

 

Hoje a síndrome de Down não é mais vista como uma questão de saúde, mais sim como uma condição da existência, assim como um indivíduo tem olhos castanhos, é loiro, etc.

Uma rápida retrospectiva  constatará a evolução até mesmo na nomenclatura adotada internacionalmente que aboliu o termo mongolismo em 1961, substituindo -o por Trissomia do cromossomo 21 e síndrome de Down. Nomenclaturas são importantes, pois muitas carregam em si preconceitos e vão levantando muros só de serem pronunciadas, ao passo que o contrário também é verdadeiro. Daí o cuidado com a escolha, visando contribuir para derrubar preconceitos.

Pais de crianças com dificuldades em geral, não sentem mais constrangimentos em exibir seus filhos, tampouco essas crianças são enclausuradas em  casa. Hoje as vemos  crescer, estudar, namorar, cursar universidades, trabalhar  e casar. Elas aprendem a enfrentar as dificuldades da vida, como a vida é.

Equipes multiprofissionais  de estimulação precoce trabalham essas crianças  desde o nascimento. As famílias por sua vez estão atentas na construção da  autoconfiança e estímulo da socialização de seus filhos. Há um trabalho intenso visando a autonomia e independência desse indivíduo em cada etapa do seu desenvolvimento.

Apesar dos avanços, das conquistas sociais, temos uma longa caminhada. O sistema  educacional ainda é nosso grande desafio. Na hora em que as famílias saem a procura de uma escola para seus filhos, dá-se início a uma exaustiva maratona.  Nas visitas às escolas e entrevistas, tudo parece correr bem até que se diga que a criança tem síndrome de Down, como conta a publicitária Ana Castelo Branco, na edição deste mês da revista Pais e Filhos:

“Em três escolas a história foi exatamente a mesma. Eu ia conhecer o lugar, conversava, tirava dúvidas e perguntava sobre as vagas. Tem? Não tem? Sempre tinha. Tinha. Até eu fazer a revelação: meu filho tem síndrome de down. A partir daí, o roteiro se repetia. Começava com um ‘Veja bem’ e terminava mais tarde com uma ligação dizendo que havia acontecido um engano e que não havia mais vagas para o Mateus.”

Crianças com síndrome de Down tem capacidade de estudar em escolas regulares e mais tarde também são capazes de trabalhar. Fala-se em educação inclusiva há 20 anos , tanto para escolas públicas como privadas. Entretanto o que se vê é ainda muito despreparo das instituições e seus profissionais. Vemos uma dificuldade no reconhecimento e acolhimento da singularidade da criança. Temos que buscar amadurecimento em relação à convivência com as diferenças  e  a valorização do aprendizado por meio da diversidade.

Atualmente encontramos grandes histórias de superação e vitórias que nos servem de exemplo,  como a do ator espanhol Pablo Pineda, do vídeo acima, primeiro europeu com síndrome de Down a se formar em uma universidade e da Isabella Springmühl, uma designer de moda de sucesso da Guatemala.

O ano passado minha família foi presenteada com a chegada de mais um membro, o Gabriel, com síndrome de Down.  Desde então nos sentimos mais unidos e mais fortes. Sabemos que o pequeno Gabriel proporcionará crescimento e aprendizado para todos nós. Com isto, já me pus a caminho na busca de novos conhecimentos com o objetivo de atuar e lutar em prol da educação inclusiva, pensando não apenas em beneficiar meu querido sobrinho, mas todas as crianças. Iniciei este mês um curso de Pós Graduação na APAE de São Paulo.

Síndrome de Down

 

Precisamos  ser facilitadores na superação das dificuldades dessas crianças, e estimuladores das suas potencialidades.  Não devemos aceitar rótulos que coloquem o ser humano em caixinhas, e diagnósticos que abafem o potencial humano. Devemos acreditar que cada ser é único e que pode ser capaz de desenvolver seus talentos. Para mudar paradigmas é preciso alterar a consciência, e para isso a reflexão é essencial.

 

Há uma citação de Goethe que sustenta minha fé e prática:

 “Trate o homem como ele é, e ele permanecerá como é. Trate o homem como ele pode e deve ser, e ele se tornará o que pode e deve ser.” 

 

Que a força dessa verdade sustente e inspire pais e educadores.Que possamos refletir sobre isso, ganhar consciência e nos mobilizarmos para as mudanças necessárias.

Participe, colabore para o despertar dessa consciência compartilhando essas ideias. Deixe seu comentário e observações para enriquecermos este debate.

Abraço carinhoso

Ana Lúcia Machado